Sua festa celebrava-se a 19 de julho, mas com a última reforma litúrgica passou para o dia 27 de setembro, data de sua morte em 1870. Assim, na próxima 2ª feira, a Igreja de Jesus estará celebrando uma das maiores figuras da hagiografia cristã e, como diz um historiador, o único homem que seria capaz de impedir a Revolução Francesa: S. Vicente de Paulo.
"Vincens" (seu nome latino) significa vencedor e ele venceu o mundo por sua caridade. São incontáveis as empresas vitoriosas de sua caridade e zelo apostólico: resgate dos escravos cristãos, crianças abandonadas, jovens em perigo, mendigos da rua, velhinhos solitários, doentes de todos os tipos. É o patrono de todas as instituições de caridade da Igreja.
Sua vida foi de extraordinária complexidade. Bem jovem, já revelava especial amor pelos pobres. Foi pastor, depois sacerdote, quando caiu nas mãos dos turcos e foi feito escravo. Converteu seu senhor e com ele, fugiu para Roma, voltando depois para a França. Aí foi pároco, depois capelão das galeras e conselheiro da rainha. Na minha juventude, assisti a uma obra prima do cinema francês "Monsieur Vincent, l´aumônier des galères" - "O Senhor Vicente, capelão das galeras". Daí nasceu minha admiração por ele que conservo até hoje.
Quero aproveitar aqui um trecho do texto de Assuero Gomes, publicado no Jornal do Commercio do Recife no domingo, 12 deste mês. "Podemos imaginar Vicente com aquela roupa preta, surrada e remendada, mas sempre limpa, freqüentando a corte do Rei Sol, Luiz XIV. Imaginemos o escândalo que aquela aristocracia sentia ao ver tal conselheiro da Rainha Ana da Áustria. E quando ele tomou o lugar do escravo acorrentado nas galés? E quando enfrentou o todo-poderoso Cardeal Mazzarino? E quando mostrou a verdadeira face da religião de Cristo, que é o serviço aos pobres, independentemente de religiões? E quando carregava ao colo os doentes maltrapilhos, de que todos fugiam?
"Ah, sim! Vicente foi e é um grande político. Desses que colocam o serviço ao próximo acima de tudo, e que a maior honraria, que podem receber ou mesmo retribuição, é ver um filho ou filha de Deus resgatados na sua dignidade. Sua religião trazia sempre o suor no rosto, as mãos cansadas e os pés exaustos, porém o coração leve. Vicente jamais se sentiu acima das limitações humanas, e soube como ninguém usar os meios lícitos ao seu alcance, para promover o bem coletivo, dando prioridade radical aos excluídos.
"São Vicente jamais deve ser confundido com o caridoso que apenas dá esmola. Sua vida transcende ao infinito essa visão pequena da caridade. Sua ação resgata a cidadania dos empobrecidos, questiona as instituições e revoluciona o agir de todos. Ele encarnou o espírito de São Francisco de Assis e é exemplo para toda a obra da Igreja e de todos os agrupamentos humanos que visam à fraternidade e à comunhão universal. São pessoas como ele que são sinais de Deus na nossa história, e mostram que o mesmo Deus que ouviu o clamor dos oprimidos no Egito, sob o jugo do faraó, continua ouvindo e continua atento, zeloso, para tomar partido, sempre ao lado dos pequeninos. Sim, nosso Deus é um deus político no sentido magno dessa palavra. Ele toma partido, ele envia seus profetas, ele denuncia a exploração dos pobres, ele se indigna quando seus filhos e filhas são espezinhados pela ganância de poucos. É um Deus apaixonado. E Vicente é um ministro desse Deus, apaixonado pela causa do oprimido." Até aqui o artigo de Assuero Gomes no JC do Recife.
Concluo com uma de suas frases que considero das mais características de sua espiritualidade: "Devemos servir aos pobres, porque eles são nossos senhores." Nessa frase, está todo seu heróico espírito de serviço aos irmãos mais pobres.
