Conheci o Card. Joseph Höffner em circunstância toda especial, que, acredito firmemente, foi conduzida pela Providência Divina. Estava em Colônia (Alemanha) em busca de ajuda para a diocese de Parnaíba, da qual fui bispo diocesano entre 1980 e '85, antes de vir para Maceió. Numa audiência com o Vigário Geral da Arquidiocese, ele soube com admiração que eu era o bispo do Pe. Norberto Herkenrath, pároco de Pedro II, a Suíça piauiense pelo seu clima frio e gostoso, e quis que eu me encontrasse com seu bispo, Card. Höffner. Herkenrath foi depois eleito pelo episcopado alemão Diretor da Ação Episcopal MISEREOR. Nesse cargo, muitas vezes, ele me foi de grande ajuda, porque quando um projeto meu não era aprovado, Herkenrath me ajudava com seus próprios recursos e de sua família. Em Maceió, ele, já Monsenhor, ajudou particularmente a comunidade da Virgem dos Pobres, dirigida então pela Irmã Josefa Umbelina dos Santos, consagrada diocesana.
Mas, voltando ao Card. Höffner... O seu Vigário Geral por telefone acertou uma audiência para mim naquele mesmo dia e assim tive a excepcional oportunidade de conversar longamente com o bispo de uma das mais importantes dioceses do mundo, comparável à de Milão. Expressando-se num perfeito italiano, o Cardeal de Colônia falou-me dos problemas da evangelização em nosso continente em contraste com a colonização, que ele estudou com especial interesse e concluiu, presenteando-me com sua obra prima, "Colonialismo e Evangelho", traduzida em várias línguas, inclusive em português, que ele me ofertou com uma gentil dedicatória em latim e que conservo com especial carinho.
Tomei agora conhecimento pela agência Zenit que o Card. Höffner acaba de receber "in memoriam" do Instituto Yad Vashem (de homenagem às vítimas do Holocausto) o honroso título de "Justo entre as nações", que o povo judeu lhe confere em reconhecimento por haver salvo a vida de vários judeus durante a II Guerra.
Em março de 1943, Höffner, então sacerdote, juntamente com sua irmã, escondeu dos nazistas na cidade de Kail a menina de sete anos, Esther Sara Meyerowitz, vinda de Berlim. A menina ficou escondida na paróquia com o nome de Christa Koch. Depois ela foi confiada à família do agricultor Wilhelm Hechler. Ninguém sabia a verdadeira identidade da menina, evitando assim o risco para os que a acolhiam e para sua própria segurança. Ainda naquele ano fatídico de 1943, o Cardeal Höffner e sua irmã acolheram por seis meses o casal Edith Nowak, judia, e seu marido, protestante, ocultando-os dos nazistas.
O Card. Höffner (1906-1987) passou à História como um dos maiores luminares de seu tempo na doutrina social da Igreja, informa a mesma agência Zenit. Foi o fundador e diretor do Instituto de Doutrina Social da Igreja de Munique entre 1951 e 1961 e, durante esse período, conselheiro de três ministros da República Federal da Alemanha. Bispo de Münster em 1962 e Cardeal de Colônia em 1969. Assim, participou de todo o Concílio Vaticano II (1962-1965) com destacada atuação, sobretudo no campo da doutrina social da Igreja. Foi criado Cardeal pelo Papa Paulo VI em 1969 e foi presidente da Conferência Episcopal Alemã de 1976 a 1987, quando renunciou por idade. Tinha 81 anos e pouco depois faleceu.
O reconhecimento do povo judeu a esse grande bispo do tempo de Pio XII resgata e redime a memória do Pontífice que, com seus bispos mais destacados, sempre se revelou amigo do povo de Israel, o povo de Jesus.
