Quero dedicar ainda este artigo, dentro do jubileu de prata de seu pontificado, ao nosso grande Papa, que merecidamente talvez passará à história como João Paulo Magno, como seus dois ilustres predecessores , Leão e Gregório.
O jornal "L´Osservatore Romano" foi criado pelo Beato Pio IX em junho de 1861 e, sem ser órgão oficial da Santa Sé, sempre foi considerado um jornal a serviço da divulgação do pensamento do Sumo Pontífice e em colaboração com os dicastérios da Cúria Romana. É editado pela Tipografia Vaticana, hoje dirigida pelos Salesianos. Ao longo de sua história, mais que centenária, algumas vezes seus redatores entraram em conflito com os Papas, que foram obrigados a demiti-los de suas funções. O atual diretor do diário é o jornalista Mário Agnes, que há muitos anos está no cargo e goza da inteira confiança de João Paulo II. As edições semanais em quatro línguas, francês, italiano, inglês, espanhol e português, bem como a edição mensal em polonês, têm seus diretores próprios. O nosso era, até bem pouco tempo, o cearense Mons. Antônio Marcondes, que me honrou publicando alguns artigos meus. Raramente, o diretor do "L´Osservatore" assina artigos em seu jornal, que publica sempre os pronunciamentos do Papa, todos os documentos da Igreja e alguns poucos estudos de bispos e teólogos. Fazendo uma "homenagem ao Santo Padre", como ele próprio qualificou, o Prof. M. Agnes publicou num dos últimos números da edição portuguesa um belíssimo artigo, de grande profundeza de pensamento e repassado de terna veneração pelo Sumo Pontífice nos 25 anos de seu pontificado, sob o expressivo título de "João Paulo II, Carta de Deus", do qual irei apresentar aqui alguns tópicos, dos mais salientes.
Citando a frase de Paulo VI na ONU em 1965: "Nós somos como o mensageiro que, depois de um longo caminho, chega a entregar-lhe a carta que lhe foi confiada", Mário Agnes afirma do atual Pontífice: "João Paulo II fez-se, ele mesmo, Caminho e Carta. O seu pontificado, o seu ''ser Sucessor de Pedro'', é um Caminho concreto, visível e sem trégua entre os homens e os povos; um Caminho na geografia da fé, na geografia das situações, na geografia da cotidianidade, na geografia dos sofrimentos, da ilusões, das decepções, das constrições, das opressões, das esperanças de cada homem, de cada povo e de cada nação."
"O seu pontificado é uma Carta, continua M. Agnes: ele entrega-se às expectativas e às esperanças dos homens e dos povos. Entrega-se em nome de Cristo; e, em nome de Cristo, anuncia e exige o respeito pela dignidade e a liberdade de cada homem e de cada povo."
"E João Paulo II faz isso com a audácia bíblica: a audácia da verdade, que contém a síntese de um magistério e de uma ação, desenvolvidos com alta tensão moral, alimentados por um anseio pastoral, propostos e repropostos através dos incansáveis encontros itinerantes. - Audácia da verdade é escancarar as portas a Cristo; é abrir brechas nos muros de pedra e nos corações ainda mais empedernidos. Brecha, através das quais possa penetrar na realização da história a grande Verdade de Deus sobre o homem, o Evangelho da Vida, o maravilhoso projeto criativo de Deus."
"É pela vida e para ajudar a vencer o medo, que João Paulo se fez Mendigo da Paz. E eis o Mendigo diante de nós: o passo lento mas firme. Um passo que conserva toda a sua segurança de ser guia. O olhar perspicaz de sentinela, dotado da extraordinária capacidade de abraçar, contemporaneamente, as pessoas, as multidões, os lugares e os problemas. Um passo e um olhar que revelam toda a ternura do Pastor. Ninguém está distante dele. Nada lhe passa despercebido. As alegrias, as expectativas, as decepções, as situações de sofrimento, os dramas, as liberdades feridas de cada pessoa e de cada um dos povos pertencem ao seu coração."
"João Paulo II continua a fazer-se e a entregar-se como Carta. O ''envelope'' está um pouco amarrotado. Em vinte e cinco anos, foi tocado por fé e por amor por muitíssimas mãos. Foi tocado até por mãos homicidas, cuja finalidade era destruir a Carta. Mas não conseguiram. E se o envelope foi violado - e as consequências são visíveis - a Carta permaneceu intacta e lúcida com caracteres indeléveis e penetrantes."
E conclui seu brilhante artigo o jornalista M. Agnes: "É a Carta de Deus".
