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Um italiano japonizado (I)

Assim foi considerado aquele que foi cognominado o “Dom Bosco do Japão”: Mons. Vicente Cimatti. Nascido na Itália em 1879, em Piacenza, perto de Ravenna, foi ordenado sacerdote em 1905 em Turim pelo primeiro bispo e Cardeal salesiano, Dom Cagliero, o grande missionário da Patagônia, que em 1875, enviado por Dom Bosco, conduzira o primeiro grupo de missionários salesianos ao extremo sul da Argentina. Assim é a ação salesiana no mundo: o missionário dos selvagens do extremo Sul ordena sacerdote aquele que um dia será missionário, num país desenvolvido, do extremo Norte da Ásia.

O Pe. Cimatti passara toda sua juventude salesiana, suplicando ao Reitor Mor enviá-lo missionário entre tribos selvagens, na missão mais difícil, que a Congregação tivesse no mundo. Mas assim não queria o Senhor Jesus. Cimatti foi escolhido por Deus na maturidade de seus 46 anos, idade não mais propícia para se adatar a uma nova e diferentíssima cultura e aprender uma língua dificílima no falar, com estrutura gramatical toda própria, e mais ainda, na escrita em sinais simbólicos, escritos em coluna do final do livro (no entender ocidental) para a frente, como a entendemos nós. E mais ainda: Cimatti desfrutava na época na capital do Piemonte e no centro da Congregação Salesiana de uma posição privilegiada: laureado em filosofia e ciências naturais pela Universidade de Turim, com diploma de canto coral no Real Conservatório de Parma, fora diretor do importante Seminário Maior de Valsálice, de onde partiam os melhores missionários para todo o mundo. E ainda: gozava na opinião pública da fama de grande músico (como realmente sempre se revelou), pedagogista e agrônomo de peso, com inúmeros amigos entre seus ex-alunos, que lhe eram afeiçoadíssimos, possuidor de uma grande riqueza interior na exuberância de seus recursos humanos e espirituais.

O Japão havia sido evangelizado a primeira vez pelo companheiro de S. Inácio de Loyola, S.Francisco Xavier em 1549. A ação evangelizadora teve grande êxito inicial, mas em 1597, em Nagasaki, irrompeu terrível perseguição aos cristãos, com 6 mártires franciscanos, 3 jesuitas e l7 japoneses, canonizados por Pio IX. em 1862. Ainda assim, continuou a evangelização chegando a contar em 1614 com cerca de 300 mil cristãos. Neste ano, o Imperador Tokugawa, instigado pelos bonzos budistas e os protestantes holandeses e ingleses, com influência na côrte, emanou um decreto de total expulsão de todos os missionários católicos e uma feroz perseguição aos cristãos. Em 1622, deu-se o conhecido grande martírio de Nagasaki. Por dois séculos, o Japão permaneceu hermeticamente fechado a qualquer penetração missionária do exterior .Os cristãos viviam escondidos praticando a sua fé na clandestinidade. Até o histórico encontro dos descendentes dos velhos cristãos, fiéis à sua religião e os novos primeiros missionários, que em 1865 conseguiram aportar ao Japão. O episódio é tão interessante e curioso que vale ser lembrado aqui. Quatro velhinhas se aproximaram medrosas do Pe. Petitjean, que estava rezando e lhe declararam: “Em nossa vila de Urakami, todos temos o coração como o seu (era para indicar a mesma fé). Onde está a imagem de Nossa Senhora? Você foi mandado pelo grande Chefe de Roma? Você tem filhos?” Aí estavam os três sinais característicos dos católicos, que eles guardaram por 200 anos: N. Senhora, o Papa e o celibato clerical. Não havia mais dúvida: entre lágrimas compreenderam que os missionários católicos haviam voltado.

Continuarei esse assunto no próximo artigo.

data do artigo: 05/07/2003

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