Continuo traçando hoje este breve perfil do “Dom Bosco do Japão”, Mons. Vicente Cimatti, iniciado no artigo passado.
A Santa Sé estava organizando desde 1891, com Leão XIII, a hierarquia católica no Império do Sol Nascente. A congregação romana, hoje denominada Evangelização dos Povos, querendo confiar aos Salesianos a Missão de Miyazaki, mais tarde, Prefeitura Apostólica, advertiu o Superior Geral de então, o Servo de Deus, Pe. Felipe Rinaldi: “Permita-me Vossa Paternidade recordar-lhe que, diante do desenvolvimento intelectual e civil em que se encontra hoje o Japão, os missionários que para lá forem destinados, não só devem ser dotados de qualidades não comuns, mas devem ser intelectualmente preparados para dirigir escolas superiores, único meio de obter úteis e abundantes frutos no Japão”. Diante dessa exigência da Santa Sé, os Superiores não tiveram dúvida. Apesar da idade, o homem indicado era Vicente Cimatti.
Alegria, generosidade, espírito de sacrifício, simplicidade, abandono nas mãos da Providência, unidos aos dotes intelectuais e aos artísticos da música (que foi um de seus grandes instrumentos de evangelização), fizeram de Cimatti o grande missionário, que o Japão cristão em breve reconheceu.
Com seus 46 anos, logo se atirou ao novo campo que a Providência lhe assinalara. Começou cedo a inculturar-se na nova realidade. Escrevia a um amigo nas vésperas da viagem: “Agora tenho novos pensamentos e aspirações...o Sol levante... as flores das cerejas, o arroz, os vulcões, os terremotos, as ilhas... tudo me faz rir e chorar ao mesmo tempo.” A viagem, partindo do porto de Gênova, num navio alemão, durou 45 dias, de 29 de dezembro de 1925 a 8 de fevereiro do ano seguinte.. Pe. Cimatti era o chefe da expedição, composta de 9 missionários para o Japão, com outros 20 salesianos e 3 Irmãs destinados à China. Logo Cimatti aproveitou entre os passageiros um professor japonês, Dr. Uchara Senroku, para as primeiras lições de japonês.
Com nove anos de trabalho, a Missão foi erigida em Prefeitura Apostólica e ele foi nomeado Prefeito, com o título de Monsenhor. Pouco antes, havia pedido à Santa Sé sua exoneração do cargo de Chefe da Missão, porque se dizia mais apto a obedecer do que a exercer qualquer cargo de governo. Ao invés disso, o Delegado Apostólico num relatório oficial a Roma dizia de suas grandes virtudes:”Verdadeiro pai de seus missionários, de humor sempre alegre, modos simpaticíssimos, enfrenta qualquer trabalho, dando provas edificantes de fé e de sacrifícios”. Apresentava a chamada “terna” (três nomes para o Papa escolher) mas esclarecia o Delegado da Santa Sé: “Trata-se apenas de uma formalidade, porque entre Pe. Cimatti e os demais apresentados, há a mesma diferença do mestre consumado e seus alunos incipientes.”
Viveu Mons. Cimatti seu ideal missionário, dizendo explicitamente que sua grande preocupação era: Japonizar-se! Muito antes da inculturação, proclamada pelo Vaticano II, ele podia escrever em 5 de maio de 1937: “Asseguro a vocês que sou um japonês de mente e de coração!” Outras de suas expressões: “Não podemos pretender que os japoneses se tornem europeus, nós é que nos devemos adatar a eles”. Pediu para ser sepultado no Japão para que seus restos mortais se tornassem “terra japonesa”. Isso era possível porque já antes seu espírito se tornara japonês, conclui seu biógrafo Luigi Fiora.
