Conta velha tradição russa que em 1579 um incêndio destruiu quase inteiramente a cidade de Kazan, às margens do rio Volga, a 1000 quilômetros a leste de Moscou, ponto de encontro entre o leste asiático da Rússia e o oeste europeu. Diz a mesma tradição que um soldado perdeu quase inteiramente sua casa, consumida pelo fogo. Quando ele se preparava para reconstruir outra no mesmo local, Nossa Senhora apareceu à sua filha de nove anos, pedindo-lhe que dissesse a todos que uma sua imagem estava ali sepultada sob as ruínas da casa destruída. Ninguém acreditou na menina, nem quando a Virgem lhe apareceu uma segunda vez, pedindo a mesma coisa. Numa terceira vez, a menina entreviu a imagem santa, conhecida na Rússia cristã como ícone, da qual provinha uma luz deslumbrante e ouviu esta ameaça: "Se não anunciares a todos o que te digo, aparecerei noutro lugar e uma grande calamidade cairá sobre vós." De início, a mensagem de Maria foi rejeitada pelo Governador da cidade e pelo Arcebispo Jeremias, mas quando a menina começou a cavar a terra, o santo Ícone apareceu envolvido num velho pano e perfeitamente conservado. Ele foi colocado na Catedral da Anunciação e, desde l595, todos os anos, no dia 8 de julho, se celebrava sua festa. O culto à Mãe de Deus, a Theotókos de Kazan' difundiu-se depois por toda a Rússia.
Nos anos vinte, após a revolução de 1917, o santo Ícone deixou a então União Soviética, já que o regime comunista considerava desnecessários os símbolos da fé. Em 1950, ele aparece na Inglaterra. Seus donos quiseram vendê-lo ao Arcebispo ortodoxo Ioann de S. Francisco da Califórnia, que não se interessou por ele. Em 1964, ele aparece na Exposição de Arte Universal de Nova York. Depois, o Arcebispo Ioann declarou: "Falei com um monsenhor de Nova Jersey, presidente da Organização católica Exército Azul de Fátima, o qual me expressou o desejo de adquirir o santo Ícone, garantindo-me, porém, que os católicos consideram que a presença do santo ícone entre eles seria temporária, uma vez que ele é herança espiritual da Igreja Ortodoxa Russa e de todo o povo russo, perseguido por causa de sua fé." Em 1993, o ícone da Mãe de Deus de Kasan' foi doado ao Santo Padre, que o colocou em seu apartamento particular, aguardando o dia de devolvê-lo à Rússia e ao seu povo. Em abril de 2003, o Ícone foi submetido a cuidadosa perícia por parte de técnicos russos e vaticanos, que concluíram por sua autenticidade. Ele foi pintado numa tábua de tília e mede 31cm por 26cm. Está revestido de um baixo-relevo em prata dourada, adornado de numerosas pedras preciosas, deixando ver o rosto da Virgem e do Menino, como é costume dos ícones da antigüidade russa.
Finalmente, após grandes solenidades realizadas na Basílica Vaticana em 26 de agosto deste ano, João Paulo II constituiu uma delegação especial, presidida pelo Cardeal Walter Kasper, para ir a Moscou fazer entrega do santo Ícone como dádiva do Papa e gesto de afeto à Sua Santidade Aleixo II, "patriarca de Moscou e de todas as Rússias". Infelizmente, a resposta do Patriarca é pouco animadora para a caminhada ecumênica da união entre católicos e ortodoxos. Em sua carta de agradecimento ao Papa, Aleixo, embora reconhecido pelo gesto do Papa, faz notar que aquele "era um ato de restabelecimento da justiça" e que "a abertura nas relações entre os cristãos das várias confissões pressupõe o respeito pelo próximo, o conhecimento de sua história conjunta e a sensibilidade na realização de qualquer ação em territórios, onde já existe há séculos outra tradição cristã."
"Kazan' é a cidade dedicada a Maria, onde se realiza o milagre da paz entre cristãos, judeus e muçulmanos. É um compromisso realizado em gestos de solidariedade," diz L'Osservatore Romano, o jornal da Cidade do Vaticano, dando essa notícia.
