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A Maratona da Paz

A grande imprensa falou bastante das recentes Olimpíadas de Atenas. Entre as provas olímpicas tradicionais, destaca-se a maratona, que celebra o heroismo do corredor Feidípides, que em 490 a.C., por ordem do general Milcíades, percorreu correndo os 42 quilômetros da planície de Maratona para Atenas, a fim de levar a notícia da vitória grega sobre os persas, pagando com a vida seu esforço. Na deste ano, nosso brasileiro Vanderlei de Lima quase fica com a medalha de ouro, não fosse a insensatez daquele maluco irlandês Cornelius Horan..

Mas a 30 de abril deste ano, numa sexta-feira, na Terra chamada Santa, que de setembro do ano 2000 para cá, já conta com quatro mil mortos por violência, realizou-se também uma Maratona. Mas essa toda especial, chamou-se "Maratona da Paz". Trinta pessoas apenas, entre europeus, israelenses e palestinos, se puseram a correr, não contra um cronômetro, que assinalasse um vencedor, coroado de louros e premiado com medalha de ouro, mas sim correr contra nosso tempo, feito de guerras e violências, de terrorismos e massacres de inocentes. Sairam de Jerusalém ("cidade da paz" é seu significado etimológico) para Belém ("cidade do pão") que, há dois mil anos atrás, presenciou também um massacre de inocentes, um pouco menor que o de Beslan, na Chechênia, no último 3 de setembro.

Todos traziam uma camiseta de várias cores, com a palavra PAZ, escrita no peito em italiano, hebráico moderno e árabe. Passavam desarmados diante dos fuzis e metralhadoras apontadas para eles. Sua música - a dos tênis sobre o asfalto - era sua única arma, junto com a alegria de seus corações. Se a Paz é um dever de todos, eles colocaram a seu serviço suas forças, suas mentes, seu suor nos dez quilômetros que separam Jerusalém e Belém, as duas cidades sagradas para os cristãos. Mas aqueles poucos, naqueles poucos quilômetros, atravessaram um abismo imenso de incompreensões, ódios raciais, vinganças cruéis, mortes violentas e dramas já seculares.

Os israelenses não citam a palavra Palestina; os palestinos não citam Israel. Os israelenses não puderam chegar ao ponto final - deviam voltar do chamado "check point". Os palestinos não partiram de Jerusalém, mas do.. nada. De um pontinho politico, chamado fronteira militar. Mas ambos os grupos pediram aos organizadores da Maratona da Paz que agora a realizem todos os anos, até que um dia possam corrê-la todos e em todo o percurso. São pequenas coisas que indicam que não foi em vão o esforço despendido. A maratona não teve grande publicidade prévia por razões de segurança. Mas aos olhos dos espectadores, dos balcões, das estradas, das lojas (estavam fechadas as lojas árabes, por ser uma sexta-feira...), dos ônibus e dos automóveis podia se ver a alegria dos que finalmente apreciavam uma manifestação de paz, de amor e compreensão mútua dos 2 povos antagônicos: judeus e árabes. Correram acompanhados das sirenes da polícia de trânsito e dos jipes, cheios de fotógrafos e cinegrafistas. Corriam acompanhados sobretudo de uma intensa emoção; corriam com a íntima convicção de que estavam realizando algo de útil e de positivo, em favor da suspirada paz naquela terra.

O esporte, em lugar do "doping" deve fazer algo de muito mais, algo como milagres desse tipo, dessa maratona. À chegada, campeões de muitas medalhas e de centenas de maratonas olímpicas, choravam como crianças.

O jornalista Antônio Mascolo, da "Gazeta de Modena", um dos organizadores e participante asseverava: "Não esqueceremos jamais aquela corrida. Aquele enxame de camisetas coloridas, com a inscrição e o apelo da PAZ no peito, fez pela concórdia e pacificação dos espíritos muito mais do que mil encontros políticos."

data do artigo: 02/10/2004

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