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Ostentação e Leviandade

No recente filme "O sorriso de Mona Lisa", exibe-se uma cerimônia de casamento, na qual é posta em relevo com fina ironia a notável preocupação da mãe da noiva, pelos aspectos de exibição social da cerimônia com que sua filha, aluna de uma escola conservadora americana, vai casar-se com um executivo de importante multinacional, que freqüentemente exige sua presença em Nova York. Como era de esperar, o casamento não dura sequer um ano e a moça, contra a vontade da mãe, tradicionalista, pede o divórcio. É o retrato perfeito de muitos dos casamentos de hoje: ostentação e fragilidade.

O Santuário Salesiano do Sagrado Coração do Recife está distribuindo entre os futuros noivos um folheto, com algumas expressões bem apropriadas para nossa época. Vou respigar deste folheto alguns trechos, que me parecem particularmente incisivos.

"Hoje em dia pensa-se em tudo, menos na santidade do sacramento e o verdadeiro sentido do matrimônio para os esposos. Com meses de antecedência, a família já escolheu o vestido da noiva, a cor das roupas das damas de honra, a roupa do noivo, do pai e irmãos, a toalete da mãe e das irmãs, os chapéus, sapatos, bolsas e colares, as músicas que o coral irá executar (algumas vezes, totalmente fora do sentido de ato sagrado), o cantor que vai solar a indispensável "Ave Maria", a floricultura encarregada da preciosa decoração, o salão para a recepção, a empresa que vai servir o coquetel, o roteiro da lua-de-mel... A última coisa em que alguém vai pensar é a confissão, que o Vigário deve exigir, que o matrimônio é um sacramento divino, que traz um compromisso para valer e não mero ato social, seguido de uma recepção de comidas e bebidas finas".

"Quanto mas suntuosas se tornam as cerimônias religiosas, inteiramente dominadas pela ostentação e esbanjamento - certas decorações de casamentos dariam para matar a fome de muitos favelados - mais se esvaziam como ato religioso, que traz um compromisso para toda a existência. Aliás, a cerimônia religiosa poderia até ser dispensada (na minha opinião pessoal deveria sê-lo para o sacramento) mas, então, (objeta a família) como chamar a atenção da sociedade, das colunas sociais? Como omitir o brilho do cortejo dos padrinhos, as madrinhas caindo de charme, com as jóias retiradas dos cofres dos bancos, o pomposo cortejo das damas de honra e dos pajens, a entrada triunfal da noiva ao som da marcha nupcial em seu rico vestido, algumas vezes escandalosamente decotado, sua tiara de brilhantes (verdadeiros ou falsos, não importa, basta que apareçam...) sua grinalda de folhas de laranjeira (para dar sorte) e etc, etc?....

"Poucos, na verdade, estão ligando para o ato sagrado. Querem que o padre faça ligeirinho; e logo, logo, seja dado o sinal para a recepção, quando a igreja se esvazia em questão de minutos. Aliás, a igreja já está vazia espiritualmente. Poucos estão ligando ao que se passa no altar. O importante são os comentários sobre o vestido da noiva e a toalete dos convidados." Até aqui o folheto do Santuário do Sagrado Coração.

Sem assumir o matrimônio, sagrado e divino, - digo eu - como um santo sacramento, é impossível termos família cristã verdadeira. É impossível imaginar um lar estruturado nos autênticos valores cristãos. Não haverá, sem a força divina do sacramento, união duradoura. Os divórcios se multiplicam na mesma proporção da ostentação e leviandade dos casamentos atuais...

data do artigo: 30/04/2004

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