A rapidez com que as 21 nações do mundo acorreram ao pedido do Irã, devastado pelo terremoto da semana de Natal, foi para o mundo, atônito pela extensão da tragédia, uma eloqüente lição de solidariedade, na semana do nascimento de Jesus. Lição, que nos veio dos países mais diversos, muçulmanos ou cristãos, ricos ou pobres, da Ásia, da Europa e dos outros continentes. Os mesmos Estados Unidos, comandados pelos Senhores da Guerra, que haviam classificado o Irã como "eixo do mal", não se negaram a colaborar em prestar socorro às vítimas da hecatombe da natureza com seus refinados recursos tecnológicos.
A solidariedade é fruto e origem da verdadeira paz, que deveria reinar entre as nações, ao menos entre as auto-intituladas de "civilizadas".
Começamos o Ano 2004, com o Dia da Paz. Diz o escritor Marcelo Yuka: "Paz sem voz, não é paz, é medo." Eu acrescentaria: Paz sem ação não é paz, é covardia.
A Igreja tem feito tudo ao seu alcance para que haja a paz no mundo. O início do ano passado foi assinalado (sem muita cobertura da chamada "grande imprensa") pelos imanes esforços de João Paulo II para evitar o horror da Guerra do Iraque. Recebeu no Vaticano o Vice-Presidente do país ameaçado. Para lá, mandou enviados especiais, como também enviou um de seus mais íntimos colaboradores, figura hábil e exponencial da Santa Sé, para tratar da paz com o Sr. Bush. Repetidas vezes, levantou sua voz enérgica, condenando a guerra em nome dos direitos dos povos, enquanto os dois adversários, um se valia do nome de Deus e o outro dizia que falava em nome de Alá. O Sumo Pontífice, por palavras e ações, nada deixou de fazer que pudesse adiar o temível conflito.
Agora, no dia 1º, Dia Mundial da Paz, o Papa Wojtyla dirigiu sua mensagem anual de Paz aos Chefes das Nações - que têm o dever de promover a paz - aos Juristas - empenhados em preparar convenções e tratados para as relações internacionais - aos Educadores da juventude - que trabalham para formar as consciências no caminho da compreensão e do diálogo - e até aos homens e mulheres - que se sentem "tentados a recorrer ao inadmissível instrumento do terrorismo, comprometendo assim pela raiz a causa pela qual combatem!" O Santo Padre suplica: "Escutai todos o apelo humilde do sucessor de Pedro, que clama: "Hoje, no início do novo ano 2004, a paz continua ainda possível. E, se é possível, então a paz é um dever!"
Lembra o Papa sua primeira mensagem, há quase 25 anos atrás, no início de seu pontificado, em janeiro de 1979, com o lema: "Para alcançar a paz, educar para a paz". Recorda, cheio de reverência e respeito para com seu antecessor, o saudoso Paulo VI, de veneranda memória (diz ele), que instituiu o Dia Mundial da Paz, com uma mensagem ao mundo em 1º de janeiro de 1968: "Seria nosso desejo que se repetisse anualmente esta celebração como voto e promessa - no início do calendário, que mede e expõe o caminho da vida humana no tempo - de que seja a paz, com o seu justo e benéfico equilíbrio, a dominar a evolução da história humana."
João Paulo inicia sua mensagem deste ano dando a lista dos títulos das 11 mensagens de Paulo VI e das 25 de seu pontificado. Paulo VI sublinhara a necessidade da educação para a paz, através da reconciliação, a justiça, a defesa da vida, a fraternidade humana, e em sua última mensagem: "Não à violência, sim à paz". Já o Pontífice atual em suas 25 mensagens insistiu sobretudo como meios para alcançar a paz: a verdade, o desenvolvimento, a solidariedade (como neste caso do Irã), a liberdade religiosa, o respeito às minorias, as crianças (sua formação), a Mulher, o perdão, o respeito dos direitos humanos e outros. É todo um silabário, diz o Papa, das condições da paz, simples para quem tenha o espírito bem disposto e extremamente exigente para toda pessoa sensível à sorte da humanidade.
Este ano, ele destaca as 4 condições da paz, colocadas por outro de seus antecessores, o Beato João XXIII: a verdade, a justiça, o amor e a liberdade.
Corajosamente, ele aborda o difícil tema que ele chama "a chaga funesta do terrorismo". Afirma: "a luta contra o terrorismo não pode exaurir-se meramente em operações repressivas e punitivas. É essencial que o necessário recurso à força seja acompanhado por uma análise corajosa e lúcida das motivações subjacentes aos ataques terroristas". Por que os terroristas agem assim? Na forçosa luta contra o terrorismo, o direito internacional, ensina João Paulo, deve elaborar mecanismos de prevenção, monitorização e repressão do crime.
A justiça sozinha não basta - afirma com ênfase a Mensagem papal - ela deve ser completada pelo amor! Não há paz sem perdão, ele afirmou em 2002. Agora ele afirma: "Só uma humanidade onde reine a civilização do amor poderá gozar duma paz autêntica e duradoura. Omnia vincit amor - O amor tudo vence" - conclui o Pontífice, que tanto luta pela paz verdadeira.
