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Refletir a Luz de Cristo, missão principal da Igreja


Publicamos, a seguir, trechos da homilia que Bento XVI pronunciou no dia 6 de janeiro, na Solenidade da Epifania do Senhor, na basílica de São Pedro, no Vaticano.


Caros irmãos e irmãs! Celebramos hoje Cristo, Luz do mundo, a sua manifestação aos povos. No dia de Natal, a mensagem da liturgia ressoava assim: “Hodie descendit lux magna super terram - Hoje uma grande luz desceu sobre a terra” (Missal Romano). Em Belém, essa “grande luz” aparece a um pequeno núcleo de pessoas, um minúsculo “resto de Israel”: a Virgem Maria, seu esposo José e alguns pastores. Uma luz humilde, como é o estilo do verdadeiro Deus; uma pequena chama acesa na noite: um frágil recém-nascido, que permanece no silêncio do mundo… Mas acompanhava aquele nascimento escondido e desconhecido o hino de louvor das cortes celestes, que cantavam glória e paz (cf. Lc 2,13-14). [...]

O acontecimento evangélico que recordamos na Epifania - a visita dos Magos ao Menino Jesus em Belém - leva-nos assim às origens da história do povo de Deus, isto é, ao chamado de Abraão. Estamos no capítulo 12 do Livro do Gênesis. Os primeiros 11 capítulos são como grandes afrescos que respondem a algumas questões fundamentais da humanidade: qual é a origem do universo e do gênero humano? De onde vem o mal? Por que existem diversas línguas e civilizações? Entre os contos iniciais da Bíblia, surge uma primeira “aliança”, estabelecida por Deus com Noé, depois do dilúvio.

Trata-se de uma aliança universal, que está relacionada a toda a humanidade: o novo pacto com o clã de Noé é também pacto com “toda carne” - para usar a linguagem bíblica - isto é, com todo ser vivente. Essa aliança, que podemos definir como pré-histórica e que renova a bênção dos progenitores Adão e Eva, é fundamental porque permanece como base de todo o projeto que Deus depois realizará na história, a começar por Abraão. Mas, antes do chamado de Abraão encontra-se outro grande afresco muito importante para entender o sentido da Epifania: aquele da torre de Babel. Afirma o texto sacro que no início “toda a terra tinha uma só língua e as mesmas palavras” (Gn 11,1). Depois os homens disseram: “Vinde, construamos uma cidade e uma torre cujo ápice penetre os céus! Façamo-nos um nome e não sejamos dispersos sobre toda a terra!” (Gn 11,4). A conseqüência dessa culpa de orgulho, análoga à de Adão e Eva, foi a confusão das línguas e a dispersão da humanidade sobre toda a terra (cf. Gn 11,7-8). Isso significa “Babel”, e foi uma espécie de maldição, igual à expulsão do paraíso terrestre.

Nesse ponto inicia a história da bênção, com o chamado de Abraão: começa o grande projeto de Deus para tornar a humanidade uma família, mediante a aliança com um povo novo, por Ele escolhido para que seja uma bênção em meio a todos os povos (cf. Gn 12,1-3). Este plano divino está ainda em curso: continua há cerca de quatro mil anos e teve seu momento culminante no mistério de Cristo há dois mil anos; desde então foram iniciados os “últimos tempos”, no sentido que o projeto foi plenamente revelado e realizado em Cristo, mas resta ser acolhido na história, que permanece sempre história de fidelidade da parte de Deus e, infelizmente, também de infidelidade da parte de nós, homens. A própria Igreja, depositária da bênção, é santa e composta de pecadores, marcada pela tensão entre o “já” e o “não ainda”. Na plenitude dos tempos, Jesus Cristo veio para levar a cumprimento a aliança: Ele mesmo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é o Sacramento da fidelidade de Deus a seu projeto de salvação para toda a humanidade.

A chegada dos Magos do Oriente a Belém, para adorar o recém-nascido Messias, é o sinal da manifestação do Rei universal aos povos e a todos os homens que buscam a verdade. É o início de um movimento oposto àquele de Babel: da confusão à compreensão, da dispersão à reconciliação. Percebemos uma ligação entre a Epifania e o Pentecostes: se o Natal de Cristo, que é a Cabeça, é também o Natal da Igreja, seu corpo, nós vemos nos Magos os povos que se juntam ao resto de Israel, preanunciando o grande sinal da “Igreja poliglota”, atuado pelo Espírito Santo cinqüenta dias depois da Páscoa.

É sempre fascinante estender o olhar sobre a história da salvação em toda sua amplitude, para admirar a beleza do projeto de Deus, projeção na história de seu ser Comunhão trinitária, Amor fiel e tenaz, que nunca falha à sua aliança de geração em geração. É este o “mistério” do qual fala São Paulo em suas cartas, também no trecho da Carta aos Efésios, há pouco proclamado: o Apóstolo afirma que tal mistério “foi-lhe dado conhecer por revelação” (Ef 3,2).

Esse “mistério” constitui a esperança da história, é o mistério de uma bênção que quer reunir todos os povos e todos os seres humanos para que possam viver como irmãos e irmãs, filhos do único Pai. Está aqui a verdade sobre o homem e sobre toda sua história. Tal projeto, prenunciado pelos profetas, foi revelado em Jesus Cristo, e agora está se realizando mediante a Igreja. Mas isso é contrastado por causa de divisões e de destruições, que laceram a humanidade por causa do pecado e do conflito de egoísmos. A Igreja está a serviço desse “mistério” de bênção para toda a humanidade. Ela cumpre completamente sua missão somente quando reflete em si mesma a luz de Cristo Senhor, e assim auxilia os povos do mundo sobre a via da paz e do autêntico progresso. De fato, é sempre válida a palavra de Deus revelada por meio do profeta Isaías: “...as trevas recobrem a terra, a escuridão envolve as nações; mas sobre ti resplandece o Senhor, sua glória aparece sobre ti” (Is 60,2). [...]

Há a necessidade de uma esperança maior para preferir o bem comum de todos ao luxo de poucos e à miséria de muitos. “Essa grande esperança”, escrevi na encíclica Spe salvi, “pode ser somente Deus… não um deus qualquer, mas aquele Deus que possui uma face humana” (n. 31): o Deus que se manifestou no Menino de Belém, e no Crucificado-Ressuscitado.

Se há uma grande esperança, pode-se perseverar na sobriedade. Se faltar a verdadeira esperança, busca-se a felicidade na embriaguez, no supérfluo, nos excessos, e se arruína a si mesmo e ao mundo. A moderação não é então somente uma regra ascética, mas também uma via de salvação para a humanidade.

É agora evidente que somente adotando um estilo de vida sóbrio, acompanhado do sério empenho por uma igual distribuição das riquezas, será possível instaurar uma ordem de desenvolvimento justo e sustentável. Por isso, é preciso que os homens nutram uma grande esperança e possuam, por isso, muita coragem: a coragem dos Magos, que empreenderam uma longa viagem seguindo uma estrela, e que souberam ajoelhar-se diante de um Menino e oferecer-lhe seus dons preciosos. Temos toda a necessidade dessa coragem, ancorada em uma sadia esperança. Que Maria nos obtenha isso, acompanhando-nos em nossa peregrinação terrena com sua materna proteção. Amém!


Papa Bento XVI

Vaticano, 6 de janeiro de 2008.

Fonte: zenit.org

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