A palavra de Cristo "eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância" (Jo 10,10) tem conseqüências práticas tanto para os aspectos espirituais quanto físicos. A vida é dom divino que tem começo no tempo e prosseguimento na eternidade. Sendo nosso corpo obra do Criador, deve merecer cuidados, proteção e respeito. Neste sentido, o progresso da pesquisa científica, realizada dentro de princípios éticos, constitui uma verdadeira colaboração com o projeto de Deus.
Entre os avanços da medicina, encontram-se os transplantes de órgãos que têm salvado muitas vidas. Sobre isso falou o Papa João Paulo II, no ano 2000, dirigindo-se aos participantes do 18º Congresso Internacional sobre Transplantes, em Roma, num eloqüente discurso no qual, não só expõe a doutrina da Igreja sobre o fato, mas incentiva a todos a se manterem fiéis à cultura da vida, doando órgãos para salvar pessoas em perigo, com estes termos: "a técnica dos transplantes revela-se cada vez mais como um instrumento precioso na consecução da finalidade primária de toda a medicina: o serviço à vida humana. ...entre os gestos que concorrem para alimentar uma autêntica cultura da vida, 'merece particular apreço a doação de órgãos feita, segundo formas eticamente aceitáveis, para oferecer uma possibilidade de saúde e até de vida a doentes, por vezes já sem esperança'".
Ao doar um órgão para salvar a vida de alguém, fazemos um gesto de alto sentido cristão. É, na verdade, uma participação efetiva, uma fiel colaboração, na cultura da solidariedade e da generosidade, que se torna uma forma de imitação da gratuidade divina.
Contudo, na ciência e na medicina, toma caráter muito especial a questão antropológica, ética e moral. Nem tudo que é cientificamente certo ou tecnicamente realizável, é, por si só, ético. No documento Donum Vitae, da Congregação para a Doutrina da Fé, lemos: "o corpo humano não pode ser considerado apenas como um conjunto de tecidos, órgãos e funções... Ele é parte constitutiva da pessoa que através dele se manifesta e se exprime".
Entre os problemas éticos, se encontra a questão do comércio de órgãos, pois a terrível ganância do vil metal tem levado pessoas inescrupulosas e grupos criminosos ao assustador tráfico de órgãos. Outro problema está relacionado à morte encefálica e as filas de espera, uma vez que, de uns anos para cá, tem se mudado a abordagem médica nos chamados critérios de certificação da morte, que passaram dos sinais cardiorespiratórios para os chamados critérios neurológicos. O problema está na possibilidade de abuso, no sentido de apressar a constatação da morte cerebral, para privilégios descabidos.
Talvez o fato narrado a seguir nos ajude a ter atitude de maior altruísmo. Li numa revista o seguinte caso: "Faz muitos anos, quando trabalhava como voluntário no Hospital de Stanford, conheci uma menininha chamada Liz que sofria de uma estranha enfermidade. Sua única chance de recuperar-se aparentemente era uma transfusão de sangue do seu irmão de cinco anos, que havia sobrevivido milagrosamente da mesma enfermidade e havia desenvolvido anticorpos necessários para combater a enfermidade. O doutor explicou ao menino a situação da sua irmã e lhe perguntou se estaria disposto a doar seu sangue à sua irmã... Eu o vi duvidar por um momento antes de dar um grande suspiro e dizer: 'Sim... eu o darei, se isto salvar a Liz'. Enquanto a transfusão continuava, ele permanecia recostado em uma cama junto a da sua irmã, sorrindo, enquanto nós assistíamos a ele e sua irmã, vendo retornar a cor à face da menina e a do menino se empalidecer... Então, seu sorriso desapareceu... Ele olhou bem para o doutor e perguntou, com voz temerosa: 'Doutor, a que horas começarei a morrer?' ...Por ser menino, ele não havia compreendido o doutor... pensava que ele daria todo o seu sangue à sua irmã... E mesmo assim, o dava..."
Exemplos como este nos enchem de sentimentos superiores e nos ajudam a ser solidários, na busca de um mundo novo onde prevaleça a bondade.

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