Ele estava na Alemanha. Havia um furacão, no País, que atentava contra a vida humana. Os abortistas faziam campanhas e investiam muito dinheiro para aprovar a lei assassina. Quando entrou com sua batina branca de paz e seu olhar de ternura no altar ao ar livre, a multidão o ovacionava. Ao tomar seus papéis para a homilia, fez-se um grande silêncio. Sagrado silêncio de quem se encontra diante de um autêntico representante do Inominável, do Intocável, do Senhor de todas as coisas.
Como sucessor de Pedro, representava o Verbo Encarnado que um dia enviou seus Apóstolos: “ide, pois, ensinai todas as gentes... a observar todas as coisas que vos mandei” (Mt 28,19-20). À semelhança das primeiras testemunhas da ressurreição, encorajado pela força do alto e pela presença do Espírito Santo, pregaria até à morte, a única mensagem: Jesus Cristo é o Senhor da vida. Sereno, repetia sem receios o grande e insistente convite: não matem; não prossigam neste caminho sem retorno; é próprio do ser humano respeitar a vida de seus semelhantes. Holocausto, nunca mais! É preciso respeitar a pessoa humana desde a fecundação até o seu fim natural.
O grito de João Paulo II foi acolhido, mas não por todos. Também a insensatez faz sua estrada entre os humanos. Contou-nos, em um retiro espiritual, um respeitável prelado alemão de nascimento, dom Walfredo Tepe, missionário franciscano no Brasil: quando o Papa pronunciava seu abalizado discurso, um grupo de mulheres, sem fé, erguia uma faixa com os dizeres blasfemos: “Se Maria tivesse abortado, teríamos ficado livres de Jesus Cristo”. Os olhos do Pontífice se entristeceram, a lágrima foi inevitável. A voz ficou embargada por alguns instantes. O silêncio da população fiel foi ressonância das vibrações feridas, flageladas e condoídas do coração do mensageiro da paz.
A blasfêmia era mesmo diabólica. Conseguia agredir a Cristo, a Maria, à Igreja, ao Papa, e por fim, a todo ser humano.
Parece-me ver nesta agressão certa imagem das correntes ateístas do mundo atual. Embora na história da humanidade se veja um duplo caminho de direções opostas entre religião e ateísmo, vencendo sempre a primeira, pois é inerente ao homem ter um natural sentimento religioso, as agressões à religião, hoje, não são incomuns. Já os Salmos perguntavam: “Por que armam os reis projetos vãos? Por que tramam as nações contra mim?”
A imagem do gigante Golias e do pequeno Davi dá uma idéia das tentativas de opressão de grandes potências e movimentos aparentemente fortes que na verdade são frágeis. São como a imensa estátua de bronze que tem os pés de barro. Mas eles não percebem que uma funda com cinco pedrinhas pode derrubar um ser enorme revestido de armadura, capacete, espada, lança, arco e flecha. E não acreditam que uma pedra que rola em declive pode pôr abaixo a assustadora estátua. O Salmo 56 diz: “abriram uma cova à minha frente, mas eles mesmos nela acabaram caindo”.
É que dentro de quem anda com Deus, há uma força que vem do alto, acredite o ateu ou não, que é mais forte que a morte.
As agressões à Igreja, na campanha que ela faz em defesa da pessoa humana, são muitas e sem medidas. É natural que seja sem medidas, pois quem não se preocupa com a ética e com o respeito a um ser humano em formação no seio materno, e não sabe discernir entre um embrião humano e uma gota de sangue de um rato, se preocupará em não mentir ou em usar armas desonestas contra o justo?!
Não economizam em termos como hipocrisia, farisaísmo, falsidade, obscurantismo, etc. Não faltam aqueles que, numa lógica pouco inteligente, agridem os esforços da Igreja, apontando em riste, hipocritamente, para erros e pecados de pessoas, caindo no erro da generalização ou da acusação sem conhecimento de causa.
Os termos, embora ofensivos, não conseguem, contudo, desgastar as energias na luta pela vida. Muito mais que sua própria imagem, a Igreja tem a defender princípios. Princípios são coisas básicas para todas pessoas, religiosas ou não, crentes ou atéias. Se a lógica fosse a de Maquiavel, os fins justificariam os meios. Mas este é um princípio falso, pois, não se pode, por exemplo, resolver o problema da pobreza, decretando a pena de morte para os pobres ou para se testar a eficácia de uma bomba, atirá-la, ad experimentum, sobre uma cidade.
É preciso prosseguir. A Igreja é amiga da ciência. Esta deve ser colocada a serviço da pessoa humana em todas as circunstâncias e não pode se deixar corromper pelo relativismo e nem se deixar instrumentalizar por interesses sórdidos como o comércio de embriões para fabricação de cosméticos.
Não continuemos por esta estrada, nos repetiria o saudoso mensageiro da paz e defensor da vida, que há três anos, completados no dia 2 de abril, entrou para a eternidade na casa do Pai, onde reina a plenitude da vida, do amor e da paz. Viva a vida!

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