O nascimento de Jesus é perpétua fonte de esperança. Vindo ao mundo nas condições de total pobreza, indica ao homem que há uma riqueza a ser buscada que não se reduz a coisas, propriedades, bens materiais, fama, poder. É numa criança frágil, sob cuidados de pais humildes, reclinada numa manjedoura em lugar de berço, nascida na periferia, sem teto, sem lugar social digno, é que Deus aponta onde está a salvação. Tremenda contradição que confunde os que confiam demasiadamente nos bens materiais, se inclinam diante deles e o adoram como se fossem um deus, põem sua segurança no dinheiro, e suas esperanças nas coisas deste mundo. Mas estas são efêmeras, passageiras, enganosas.
O Senhor faz seu Filho nascer desta forma, não para justificar as condições subumanas em que nascem tantas crianças hoje em dia, excluídas dos mais elementares direitos, mas para sinalizar aos humanos a necessidade de estarem sempre atentos e inverterem seu modo de pensar e agir, buscando em primeiro lugar os valores inalienáveis do respeito pela dignidade da vida, pelas condições naturais para viver, pela solidariedade, a justiça, o amor, enfim, pela própria condição de eternidade presente na pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus.
Certamente a famigerada crise econômica mundial tem assustado a muita gente. Quem diria? A economia do hemisfério norte, que parecia tão sólida, invencível, de repente começa a ruir, e anuncia desastres assustadores. O capitalismo selvagem, denunciado abertamente pelo Papa João Paulo II, quando visitou os Estados Unidos pela última vez no ano 2002, cai como caíram os muros do comunismo desumano, totalitarista, desrespeitoso e ateu. Não há como não associar as duas quedas à imagem da estátua de bronze com metade dos pés de barro, anunciada pelo Profeta Daniel: "Sua cabeça era de fino ouro, seu peito e braços de prata, seu ventre e quadris de bronze, suas pernas de ferro, seus pés metade de ferro e metade de barro. Contemplavas (essa estátua) quando uma pedra se descolou da montanha, sem intervenção de mão alguma, veio bater nos pés, que eram de ferro e barro, e os triturou" (Dn 2,32-34).
Em ambas as quedas, o homem do século XXI começa a ver os resultados funestos de suas teorias atéias e secularistas. Pretender uma sociedade sem Deus significa criar ídolos, deuses falsos que só podem terminar na decepção e na destruição do próprio homem. João Paulo II, em audiência após o retorno da Jornada Mundial da Juventude de 2002, realizada no Canadá, disse ao povo na Praça de São Pedro: "Um mundo sem referência a Cristo é um mundo que, mais cedo ou mais tarde, vira-se contra o homem. A história de um passado, inclusive recente, o demonstra. Não se recusa Deus sem acabar recusando o homem" (L'Osservatore Romano, 5-6/8/2002).
O Profeta Isaías continua proclamando em nome de Deus: "Vossos pensamentos não são os meus pensamentos, vosso modo de agir não é o meu modo de agir" (Is 55,8).
A festa do Natal vem nos pôr diante de nós mesmos, para nos questionar: como temos tratado a vida e as pessoas? Que compreensão temos a respeito de nossa existência?
A partir dos acontecimentos de Belém, o homem se defronta com a verdade sobre todas as coisas e pode deixar-se iluminar por ela.
No recentíssimo documento vindo da Santa Sé, com o sugestivo título "Dignitas Personae" (A Dignidade da Pessoa), publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé, a 8 de dezembro passado, lemos: "Deus, depois de ter criado o homem à sua imagem e semelhança, qualificou a sua obra como 'muito boa', para depois assumi-la no Filho. O Filho de Deus, no mistério da Encarnação confirmou a dignidade do corpo e da alma, constitutivos do ser humano. Cristo não desdenhou a corporeidade humana, mas elevou plenamente seu significado e valor: 'na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente'" (n. 7).
O nascimento de Cristo revelou a vida humana como sagrada, pois vem de Deus, criada à sua imagem de semelhança; com dignidade natural e elevada, pois é a obra prima da criação, superior às demais criaturas.
Cristo, Senhor da Verdade, revela a perpetuidade da vida que não termina com a morte, mas se destina à eternidade, onde a paz será duradoura e felicidade sem fim.
Que a Luz que vem do Natal continue a nos iluminar a todos e mais uma vez nos ensine a viver!

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