A passagem de Bento XVI pelo Brasil nestes dias foi uma grande bênção. Dos 12 pronunciamentos do Papa, dois se destacam para a missão específica dos Pastores: o da Catedral da Sé e o da abertura da V Conferência em Aparecida. São duas peças importantíssimas para o trabalho evangelizador no continente latino-americano e caribenho.
Falando especificamente aos bispos do Brasil, tratou de variados pontos, mas como espinha dorsal verifica-se a missão específica da ação da Igreja que é anunciar Cristo explicitamente. "Nós, pastores, devemos ser fiéis servidores da Palavra, sem visões redutivas e confusões na missão que nos é confiada", afirmou. "Não basta observar a realidade a partir da fé, é preciso trabalhar com o Evangelho nas mãos...sem interpretações movidas por ideologias racionalistas."
Ficará sempre marcada sua palavra sobre a moralidade que hoje anda ameaçada. Nestes aspectos, recordou os valores cristãos da castidade, da fidelidade matrimonial e a defesa da vida humana desde seu início até seu término natural, condenando assim a legalização do aborto.
O Santo Padre pediu aos bispos uma posição crítica diante de certos meios de comunicação que combatem estes valores aos quais as famílias têm o direito de ver defendidos. Também não deixou de estranhar e convidar-nos a dar um 'não' explícito à corrupção política e de outros setores públicos que se tem verificado no País.
Sem dúvida, a peça mais importante de todas as suas falas foi o discurso de abertura da Conferência de Aparecida. Na leitura de um longo e substancioso texto, dividido em duas partes, entre as quais o Santo Padre, simpaticamente pediu um número musical, traçou as pistas orientativas para que as reflexões dos quase 200 bispos representantes dos países latino-americanos e caribenhos pudessem apontar novos caminhos, métodos e instrumentos de evangelização sem o perigo de se afastarem da fidelidade eclesial.
O Papa, analisando a realidade social, deu aos bispos-membros uma nova chave de leitura. Não se deve fazer evangelização puramente a partir dos dados sócio-políticos, mas a partir de Jesus Cristo. O contrário poderia comprometer a visão sobrenatural das coisas e cair no socialismo materialista. Porém, com isto não pretendeu dizer que os cristãos não devem ter preocupação com o social e participação nas questões políticas na busca de solução para os graves problemas humanitários. A condenação explícita do marxismo e do capitalismo mostrou que de fato, há de se buscar uma reflexão teológica nova no continente americano, sem centralizar sua confiança em ideologias ou sistemas políticos e econômicos. Neste ponto, talvez o centro do discurso esteja neste trecho: "Na América Latina e no Caribe, como também em outras regiões, registram-se avanços em direção à democracia, ainda que existam motivos de preocupação ante formas de governos autoritários sujeitos a certas ideologias que pareciam superadas e que não correspondem à visão cristã do homem e da sociedade como ensina a doutrina social da Igreja. Por outro lado, a economia liberal de alguns paises latino-americanos deve ter presente a eqüidade, porque continuam a aumentar os setores sociais que se vêem oprimidos cada vez mais por uma enorme pobreza ou até mesmo saqueados dos próprios bens naturais."
Na expressão "ideologias que pareciam superadas" poder-se-iam encontrar todos os regimes totalitários do passado, como o nazismo, o fascismo e o comunismo. Quanto a isto, é providencial que tenhamos um Papa de 80 anos, em plena lucidez, que viveu pessoalmente os horrores do século XX, quando estes regimes causaram sofrimentos e morte a tantas famílias num tremendo drama contrário aos direitos humanos. Do alto de sua longevidade e de sua experiência vital, as novas gerações podem entender uma mensagem: cuidado, não acreditem em todas as promessas políticas, ainda que atraentes, pois podem ser fantasiosas e acabarem realizando justamente o contrário daquilo que prometem. Infelizmente, na América Latina, sinais destes totalitarismos ameaçam certos países, com os mesmos perigos de um final desastroso como vimos na história recente em algumas regiões do mundo.
A palavra do Papa aos jovens no Pacaembu foi um excelente roteiro de vida. O Papa lhes falou de forma carinhosa, mas direta, sem meias palavras, com objetividade de um pai que busca o bem de seus filhos. Quando lhes falava de castidade, de fidelidade matrimonial, de responsabilidade, a resposta imediata dos jovens era um aplauso caloroso. Este discurso do Santo Padre deveria, sem dúvida, ser anexada à publicação do documento da 45ª Assembléia da CNBB que tratou sobre o tema.
A visita do Santo Padre ao Brasil veio mostrar aos brasileiros o seu verdadeiro rosto, destruindo as caricaturas que alguns, infelizmente, se deixando levar por preconceitos, fizeram de sua pessoa desde sua eleição ao sólio pontifício.
Sem dúvida, é gratificante ver palavras e gestos de grande simpática emitidos por pessoas de outros credos cristãos e até mesmo não cristãos, que analisando com espírito descontraído, inteligente e gentil, destacaram o benefício incalculável desta visita em favor da dignidade humana, dos valores religiosos, morais e socais, às vezes tão ameaçados hoje.
Os doze discursos do Papa no Brasil permanecerão como pegadas luminosas que nos ajudarão a caminhar por muito tempo.

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