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Alteridade na sociedade contemporânea desde o ponto de vista teológico


O paradigma ocidental da alteridade

Dizem que a cultura atual desvaloriza a alteridade. É uma cultura que favorece o egoísmo, o individualismo, o subjetivismo, que não se interessa nem se preocupa pelo outro. O outro vale não por aquilo que ”é”, mas por aquilo que “tem, faz e rende”. Estamos em tempos de individualismo, de fragmentação das relações sociais e de hegemonia de uma cultura de massa. É uma cultura portadora e propagadora de uma antropologia relativista. O indivíduo está no centro, mas não a humanidade. Não é uma cultura antropocêntrica, mas uma cultura egocêntrica.

Somos herdeiros da cultura ocidental que sempre teve dificuldades com a alteridade. Esta cultura sempre negou o diferente, o outro. O outro sempre foi incorporado, o submetido ou destruído.

No paradigma ocidental da alteridade o outro sempre foi visto como inferior, é o caso da mulher. O homem não reconheceu a alteridade e a igualdade da mulher. Nesse paradigma o doente, o idoso, o analfabeto são incômodos e inúteis para a sociedade. Aqueles que pertencem às classes sociais populares e que vivem em favelas são considerados perigosos, violentos.

O paradigma ocidental da alteridade sempre destruiu os culturalmente outros: Primeiro foi contra a cultura islâmica e a religião muçulmana. Depois investiu contra a África Negra. Em terceiro lugar lutou contra as culturas indígenas do novo mundo, na América Latina, no Caribe e nos EUA. O último embate se dá na atualidade entre o Ocidente e o Oriente. [1]


Como anda a alteridade no mundo?

Hoje 2/3 da humanidade vive socialmente excluída. Passa fome, não tem assistência médica, vive com menos de um dólar por dia. A riqueza do mundo está concentrada nas mãos de 20% da população que controlam 80% das riquezas. Num mundo dividido entre o Norte rico e o Sul pobre, os do Sul são vistos como os outros subdesenvolvidos que não entraram na modernidade. Vivemos em um mundo dividido entre incluídos e excluídos. Na atualidade vivemos com medo dos outros que possuem armas de destruição em massa. Mas vivemos com medo de andar nas ruas, com medo até dentro das casas. O homem continua sendo em muitos casos, um lobo para o homem.

O Papa João Paulo II falando em 2005 para os embaixadores de 174 países apontava quatro desafios para o mundo de hoje: a vida, o pão, a paz e a liberdade.

«Nestes últimos anos, o desafio da vida está-se fazendo cada vez mais amplo e crucial --afirmou--. Foi-se centrando particularmente no início da vida humana, quando o homem é mais frágil e deve ser protegido melhor. O desafio de defender a vida, seguiu indicando, implica também defender seu «santuário», a família.

O segundo desafio exposto por João Paulo II é o «do pão», em referência aos «milhões de seres humanos» que «sofrem gravemente de desnutrição» e dos «milhões de menores» que a cada ano «morrem de fome ou por suas conseqüências».

«A paz» foi o terceiro desafio enunciado pelo discurso papal. «Quantas guerras e conflitos armados --entre Estados, entre etnias, entre povos e grupos que vivem em um mesmo território estatal-- que de um extremo a outro do globo causam inumeráveis vítimas inocentes e são origem de outros muitos males!», afirmou com pesar.

«A estes trágicos males se acrescenta o fenômeno cruel e desumano do terrorismo, flagelo que alcançou uma dimensão planetária desconhecida pelas gerações anteriores», afirmou.

«Contra estes males, como enfrentar o grande desafio da paz?», perguntou aos embaixadores. «Eu seguirei intervindo para indicar as vias da paz e para convidar a percorrê-las com valentia e paciência --prometeu--. À prepotência se deve opor a razão; ao confronto da força, o confronto do diálogo; às armas apontadas, a mão estendida: ao mal, o bem».

«Para construir a paz verdadeira e duradoura em nosso planeta ensangüentado, é necessária uma força de paz que não retroceda ante nenhuma dificuldade. É uma força que o homem por si só não consegue alcançar nem conservar: é um dom de Deus», indicou.

Por último, mencionou o «desafio da liberdade», em particular o da liberdade religiosa, depois de um ano que foi testemunha em numerosos países de um animado debate em torno ao conceito de laicidade. «Não há que temer que a justa liberdade religiosa seja um limite para as outras liberdades ou prejudique a convivência civil», assinalou.


A virada ecológica.

Desde as primeiras décadas do século XX para cá vem crescendo a consciência ecológica. A ecologia tem muito a ver com a alteridade e também com a teologia. A ecologia como ciência é a arte das relações e dos seres relacionados.

“Ecologia é relação, inter-ação e dialogação de todas as coisas existentes (viventes ou não) entre si e com tudo o que existe, real ou potencial. A ecologia não tem a ver apenas com a natureza (ecologia natural), mas principalmente com a sociedade e a cultura (ecologia humana, social, etc.). Numa visão ecológica, tudo o que existe coexiste. Tudo o que coexiste preexiste. E tudo o que coexiste e preexiste subsiste através de uma teia infinita de relações omnicompreensivas. Nada existe fora da relação. Tudo se relaciona com tudo em todos os pontos”.[2]

O homem depois de ter aplicado uma grande agressão contra a Terra, está começando a perceber e a reconhecer a alteridade da natureza e da Terra. O homem despertou para o seu papel de jardineiro da Terra. A ecologia nos ajuda a entender o conceito teológico de criação. Os dois relatos sobre a criação, nem sempre foram interpretados adequadamente. O de Gn 1, 26-28 “Façamos o ser humano a nossa imagem e semelhança para que domine...; sede fecundos e multiplicai-vos, enchei e subjugai a terra, dominai sobre os peixes”, etc., foi entendido no sentido de dominador e exterminador da terra e de todos os seres criados, e não no sentido do homem ser co-criador com Deus. O segundo relato Gn 2, 15, diz que o ser humano foi feito por Deus como um ser vivo, marcado com seu sopro, e que foi colocado no jardim do Edem ”para o cultivar e guardar”. Este aspecto foi completamente esquecido. Mas foi iniciada a grande virada ecológica onde se recupera o papel do homem e da mulher como os responsáveis de cultivar e guardar a criação.

Só que ainda hoje ele tem mais cuidado com a flora e a fauna em extinção do que com a vida do ser humano. Dom Amauri Castanho que foi bispo de Jundiaí, São Paulo, dizia: “Não dá para entender como tantos lutam em defesa de focas, micos e ararinhas azuis, golfinhos e baleias, pouco se importando com agressões à vida humana nos ventres de suas mães”. Ainda não atingimos a consciência ecológica da inter-relação entre todos os seres.


A proposta cristã.

Na tradição judeo-cristã o outro e Deus são tudo. A aliança é a categoria central da Bíblia. Uma aliança que se estabelece com Deus e com todos os seres. Por isso o outro, não é um estranho, mas um aliado.

O cristianismo é constitutivamente comunitário. Não há cristianismo sem comunidade. A comunidade cristã é o reflexo da comunidade da Trindade. Nosso Deus é comunidade. Ele ao se revelar ao homem o fez formando comunidade com o homem. A encarnação do Verbo é o início de uma presença de Deus entre os homens que faz com que o homem reencontre o sentido da sua vida e o caminho do seu destino. No seu convívio histórico com a humanidade, Jesus ensina o essencial para o homem. Como se relacionar com o outro. Seja Deus, o homem ou a criação. Ele dá absoluta centralidade ao amor ao outro. Mostra que o homem é um ser essencialmente relacional. Que não consegue ser, viver ou se realizar sem verdadeiros relacionamentos com Deus e as outras criaturas.

A Boa Notícia, o Evangelho de Jesus é fundamentalmente que Deus é amor (1Jo 4,8), o amor vem de Deus (1Jo 4,7) e o amor não morrerá jamais (1Cor 13,8) Este amor vai sempre ao encontro do outro. Quere a realização plena do outro. Faz com que o outro seja outro. Esta realidade pode ser vivenciada quando se coloca em prática a regra de ouro da convivência: “ama o próximo como a ti mesmo”; “não faças ao outro o que não queres que te façam a ti”. Só que Jesus coloca-se como modelo de amor ao nos deixar o seu mais importante mandamento: “amai-vos um aos outros como eu vos amei”. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos e também pelos inimigos.

“O amor é assim central, porque, para o cristianismo, o outro é central. Deus mesmo se fez outro pela encarnação. Sem passar pelo outro, sem o outro mais outro que é o faminto, o pobre, o peregrino e o nu, não se pode encontrar Deus nem alcançar a plenitude da vida (Mt 25, 31-46). Esta saída de si em direção ao outro para amá-lo nele mesmo, amá-lo sem retorno, de forma incondicional, funda um ethos o mais inclusivo possível, o mais humanizador que se possa imaginar. Este amor é um movimento só, vai ao outro, à natureza e a Deus”. [3]

Para o cristão no outro está presente Cristo. “O que tiverdes feito a um destes pequeninos é a mim que o fizestes”.

Aqui está o segredo e a chave para a alteridade. Aqui está o segredo pedagógico para a convivência humana. Aqui está o cerne da questão do equilíbrio entre os seres e a harmonia do universo. Todas as leis do universo têm como base o amor.


Os paradigmas do bom samaritano (Lc 10, 25-37) do lava-pés (Jo 13, 1-35) e do juízo final (Mt 25, 31-46).

No paradigma do bom samaritano temos a superação de todas as distinções que nos impedem de nos aproximar do outro. São superadas as diferenças étnicas, religiosas, de nações, de classes. O outro é aquele que está na minha frente, seja quem for de quem eu tenho que cuidar o melhor possível.

No paradigma do lava-pés, encontramos o modelo de relacionamento dos que são grandes e sábios. Se eu que sou o Mestre e o Senhor vos lavei os pés, fazei também vós a mesma coisa, diz Jesus aos seus discípulos. Aqui está o modelo de superação do poder como dominação para o poder como serviço.

No relato do juízo final encontramos a transcendência dos relacionamentos que tivemos com os outros. Normalmente se dão duas interpretações, uma clássica e outra tradicional; esta última aplica as palavras de Deus a todos os que fizeram o bem. Na clássica os justos são aqueles que fizeram o bem aos discípulos de Jesus. Com isto se supõe que os discípulos tinham necessidade de tudo porque eles andavam sem alforje, sem pão, sem dinheiro, com uma só túnica (cf. Lc 9, 3). Eles eram necessitados entre os necessitados. Será que é possível imaginar como seria hoje a Igreja se os discípulos seguissem este modelo?

A proposta cristã se resume na proposta do amor. O amor supera a justiça. O amor considera a todos iguais. Deus nos cria a todos iguais. Todos são filhos de Deus. Os homens criam as desigualdades. A ação evangelizadora da Igreja é dirigida principalmente para restabelecer as relações de igualdade entre os homens, entre os povos, entre as culturas. Igualdade não quer dizer uniformidade. Mas vivência da igualdade na pluralidade. Igualdade no sentido de ninguém querer ser superior ao outro, dominar o outro, explorar o outro. Igualdade no sentido de um povo não se achar com o direito de esmagar o outro, de destruir o outro, de dominar o outro. Igualdade no sentido de uma cultura não se sentir superior a outra, querer se impor à outra, destruir à outra.

A proposta evangélica é a proposta do respeito, do diálogo, da acolhida, do dar as mãos na procura do que é melhor para o homem. A proposta evangélica não é uma proposta impositiva, ou proselitista. É uma proposta que apela para a liberdade e a razão humana. Não é uma proposta que se superpõe às culturas, mas uma proposta que quer colaborar com cada cultura, para purificá-la, e engrandece-la. A proposta cristã pressupõe uma cultura. Nesta se in-cultura.

A in-culturação foi sempre a característica da mensagem cristã. Ela se amolda e incorpora os mais diversos elementos das culturas que possam veicular melhor a sua mensagem.


Os desafios da Evangelização.

Hoje a Evangelização tem grandes desafios para vivenciar a alteridade. A missão da Igreja é trabalhar para transformar o mundo em que vivemos. Para transformar todos os relacionamentos entre as pessoas, os povos e as culturas, em relacionamentos de amor. A Igreja é consciente de que para realizar esta missão tem que ser fiel à Palavra de Deus e à tradição, e por outro lado ter um profundo respeito pela cultura das pessoas ou grupos a que esta mensagem é dirigida.

Sem fidelidade ao Evangelho e à Igreja, o mensageiro deturpa a mensagem de que é portador.

Sem conhecimento da cultura das pessoas ou povos a quem a mensagem é dirigida, haverá a imposição dos valores e da cultura do mensageiro, que falará sem ser entendido. Por isso surgem sérios questionamentos:

Como evangelizar uma cultura que tirou Deus de seu meio?

Como evangelizar uma cultura em que o homem é o centro, medida de tudo, obediente ao consumismo e ao processo técnico?

Como evangelizar através de um diálogo e um testemunho de vida que chegue ao outro (pessoa, povo, grupo social) em seu mundo, e em sua maneira de ser?

Como anunciar a Mensagem Evangélica em sua plenitude, respeitando e assumindo os valores autênticos, os símbolos de vida, a cultura do outro?[4]

A Igreja “mãe e mestra” sempre soube ensinar que Cristo é “o caminho, a verdade e a vida”. Ela se preocupa com a educação da fé dos seus filhos. Mas propõe este caminho para todos os homens de boa vontade. Ela educa para a fé que vai intimamente ligada à solidariedade. Ela educa para a paz.

Se olharmos para o panorama mundial não podemos dizer que homem esteja se relacionando como seu semelhante com amor. A maioria da população mundial passa fome, vive na pobreza, tem os seus direitos humanos violados. O imperialismo americano, “o anjo bom”, não resolve os problemas de terrorismo, de guerras e de violência. O homem está angustiado com a perspectiva do aquecimento do planeta. A possibilidade de que com o descongelamento das calotas polares, possam desaparecer inúmeras cidades costeiras. A falta de água potável poderá ser desastrosa para a humanidade. A perspectiva é de guerra pela sobrevivência dos mais fortes. Parece que não progredimos nada desde o homem das cavernas até hoje.

Por outro lado não podemos negar que existem políticos, intelectuais e religiosos que lutam para dar esperança de que podemos superar todos os conflitos e que é possível a convivência pacífica de todos os seres humanos. A condição humana estará sempre se debatendo entre estes dois pólos. Homo sapiens e demens. A oração de São Francisco é a proposta de superar sempre o pólo negativo: “onde houver ódio, que eu leve o amor; onde houver discórdia, que eu leve a união; onde houver desespero, que eu leve a esperança; onde houver trevas, que eu leve a luz”. Importa mais “amar que ser amado, compreender que ser compreendido, perdoar que ser perdoado, pois é dando que se recebe e é morrendo que se vive”. Esta é a lógica do Evangelho, que supera todas as lógicas humanas. È a lógica da cruz, loucura para os gregos e piada para os pagãos.


O paradigma da ternura.

Em São Francisco a ternura é a fonte do encontro com todas as alteridades. Sobre a ternura foi publicado um livro original e pioneiro de Carlos Rocchetta. [5] O autor no último capítulo intitulado “Para uma cultura da ternura”, inicia dizendo que “a ternura é a mais formidável, universal e misteriosa das forças inscritas no coração do homem capaz de transformar o mundo”. Fala da “ternura teologal”. E pergunta: “Haverá um futuro de ternura no mundo do futuro?”. A resposta está na vida dos cristãos. “O específico da ternura cristã é introduzir no constituir-se da sociedade civil e de sua estrutura sócio-econômica o principio de um amor de simpatia e de empatia, de interesse particular pela pessoa e a sociedade, de atenção e de participação amical à alteridade, de “pietas”, especialmente para os necessitados, em oposição a toda concepção burocrática, massificada ou anônima e a toda atitude de resignação desanimada ou de fatalismo”[6].

O autor apresenta a ternura como um modelo de vida alternativa àquele hoje imperante. Passar da “cultura da conflituosidade” para a “cultura da convivialidade”. Viver a ternura é uma ameaça para o status quo.A ternura valoriza a espontaneidade, participação, cordialidade e gratuidade, amor amical e serviço solícito. Todos os valores contrários à razão tecnológica. Com a ternura, a relação com a alteridade não é sobre ou contra, mas “com” e “para”, não prevalece a luta de poder ou a vontade de domínio, mas a pacificação serena e forte.

O autor dá razão a Heinrich Böll que dizia que a cultura da ternura representava a única alternativa, à cultura da aspereza, típica das épocas marcadas pelo eficientismo exagerado e pelo anonimato que reduz o ser humano a um número da grande massa. A ternura é anti-rigidez e permeabilidade ao outro; é capacidade de um render-se hospitaleiro e de adaptar-se às expectativas do/a outro/a, especialmente se necessitado.

“A ternura implica a descentralização de si e a concentração sobre o outro, sentido com afeto, abrindo-se a uma experiência estática que orienta à supercentralização no Absoluto. A atenção da ternura não é fixada sobre o eu, como centro e umbigo do universo, mas sobre o tu do outro para amá-lo com cordialidade e disponibilidade amorosa. È esta ternura que decide o futuro da humanidade”.[7]

O mundo será melhor quando o menor que padece tiver ternura pelo menor. O mundo será melhor quando os homens vivam cuidando dos outros e de todas as criaturas como o bom samaritano, quando consigamos “lavar os pés” uns dos outros. Quando efetivamente todos entendam, - pessoas, povos, culturas, - que o caminho da grandeza é o caminho do serviço aos outros.


Convergências das ciências sobre a alteridade.

Esta verdade teológica sobre a alteridade que explanamos encontra respaldo hoje nas outras ciências. Poderíamos citar autores no campo da filosofia, psicologia, antropologia, sociologia, direito, mas lembremos apenas que “cosmólogos e físicos quânticos nos asseguram que a lei suprema do universo é a da solidariedade e da cooperação de todos com todos. A solidariedade está inscrita, objetivamente, no código de todos os seres. Pois todos somos interdependentes uns dos outros. Coexistimos no mesmo cosmos e na mesma natureza com uma origem e um destinos comuns.”. [8]

“Na Terra e no universo tudo tem a ver com tudo, em todos os pontos e em todos os momentos, sentenciava o pai formulador da física quântica, Niels Bohr. Em função disso, às vezes o elo aparentemente mais insignificante é responsável pela irrupção do novo”. [9]


É hora de assumir um novo estilo de vida.

Na cultura atual sofremos do que os santos Padres do século IV chamavam de esclerocardia, a cegueira do coração, o endurecimento do coração, um coração que não sente não vê e não ama. Temos não o coração de ternura, mas um coração de pedra que nos impede de amar. E para assumir um novo estilo de vida só vai fazendo um transplante de coração. Existem muitos sinais de corações que já palpitam de forma nova. Entre eles os que aderem aos movimentos voluntários para uma vida simples. E tantos outros que trabalham pela qualidade da vida humana e de todos os elementos do Planeta.

Concluímos com as palavras de João Paulo II na encíclica Evangelium Vitae. A encíclica “Sobre o valor e a inviolabilidade da vida humana”:

“Podemos dizer que a virada cultural, aqui desejada, exige de todos a coragem de assumir um novo estilo de vida que se exprime colocando, no fundamento das decisões concretas – a nível pessoal, familiar, social e internacional -, uma justa escala dos valores: o primado do ser sobre o ter, da pessoa sobre as coisas. Este novo estilo de vida implica também a passagem da indiferença ao interesse pelo outro, a passagem da recusa ao seu acolhimento: os outros não são concorrentes de quem temos de nos defender, mas irmãos e irmãs de quem devemos ser solidários; devem ser amados por si mesmos; enriquecem-nos pela sua própria presença”.[10]


1. Cf. BOFF, Leonardo. Virtudes para um outro mundo possível, vol.I: hospitalidade: direito e dever de todos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.
2. BOFF, Leonardo. Ecologia, mundialização espiritualidade: a emergência de um novo paradigma. São Paulo, Editora Ática, 3ª e., 1999.
3. BOFF, L. Ética e moral a busca dos fundamentos. Petrópolis, Vozes, 2004, p.46.
4. Cf. CNBB. Igreja: comunhão e missão na evangelização dos povos, no mundo do trabalho, da política e da cultura. São Paulo, Paulinas, 1988. (documentos da cnbb 40).
5. ROCCHETTA, Carlo.Teologia da ternura: um “evangelho” a descobrir. São Paulo, Paulus, 2002.
6. Ibidem, p. 461.
7. Ibidem, p. 504.
8. BOFF, L. Op. cit., p. 53.
9. Ibidem, p. 95.
10. EV 98.

V SEMANA TEOLÓCICO-FILOSÓFICA DO ITEC

Caruanu-PE, 29 a 31 de outubro de 2007

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