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A Loucura de Deus


Não há dúvidas que o julgamento de Jesus Cristo é o processo mais comentado e discutido de toda história humana. De onde vem todo interesse? Foi um processo extraordinário juridicamente? Tratava-se de uma pessoa conhecida mundialmente? Foi por causa da maneira como o processo foi conduzido e o condenado executado? Certamente não foi por causa do tipo de execução. Segundo o historiador judaico Flávio José, os romanos chegaram a crucificar até 500 judeus por dia. Era pelo menos, além da decapitação e do enforcamento, a maneira mais comum e cruel de condenar alguém à morte, segundo o testemunho de numerosos autores romanos da época: Tito, Lívio, Cícero, Tácito e outros. Muito menos por causa do formato da cruz, do tamanho dos cravos, do tipo da coroa de espinhos ou porque se tratava de uma pessoa famosa da sociedade de então.

Morreu um homem simples, gente do povo. Amava os humildes, os pecadores, os doentes e angustiados. Era querido pelos abandonados, rejeitados e explorados, pelos que não tinham vez e voz na sociedade.

Apesar de tudo isto, existe muitas fontes históricas que nos mostram o seu julgamento. Está nos escritos dos primeiros cristãos, narrados pelos escritores romanos e judaicos, além de se encontrar em detalhados estudos cientificamente realizados com o Santo Sudário de Turim.

Sabemos que passou até pelo preâmbulo legal, prescrito da crucificação, que foi a flagelação. O condenado era despido e atado a uma coluna para ser açoitado com um instrumento chamado "flagrum" , uma espécie de chicote contendo pedaços de ossos ou de chumbo nas duas cordas, que provocavam contusões de até 3 centímetros dentro da carne. Jesus foi flagelado com este instrumento. Logo depois o coroaram com uma "coroa" de espinhos; era uma espécie de chapéu ou cesto que colocado na cabeça, causava dolorosos ferimentos no coro cabeludo. Zombavam dele: " Salve Rei dos Judeus" . Carregou o "patibulum" , a parte horizontal da cruz, até o Monte Calvário, onde foi crucificado entre dois ladrões. Seguem-se zombarias e escárnios. Apesar de todo sofrimento psíquico e corporal, profere as palavras: "Meu pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" . Depois de três horas de sofrimento na cruz, morre com um grande grito, morre de asfixia, de falta de ar.

Perguntamos de novo: por que a morte deste homem simples chama a atenção de toda humanidade? Qual mistério desta figura? O paradoxo, me parece, consiste principalmente nisso: morre o único que até agora teve a coragem de se dizer plenamente homem e plenamente Deus; que prediz a sua própria ressurreição; que se mostra chefe da vida e da morte; que é a esperança dos anseios principais e mais íntimos do coração humano, de toda a humanidade.

O processo dele, portanto, não é simples recordação, simples fato histórico. Ele atinge a todos nós. Somos atores, interlocutores deste acontecimento. Todos já gritamos "hosana" ou "crucifica-o" pelos nossos atos, palavras, pensamentos.

A Semana Santa como vamos celebrar? Ignorando o drama mais comentado da humanidade, ou ficar cético perante ele, ridicularizar os seguidores atuais de Jesus Cristo, ou tomar uma atitude concreta perante o gesto de amor até ao extremo: o próprio Deus agonia pela humanidade e morre junto à cruz. "Não há maior amor do que dar a vida pelos irmãos".

A opção é sua, é nossa.

Dom Werner Siebenbrock, SVD

Bispo de Governador Valadares-MG

data do artigo: 03/03/2007

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