Uma missão, segundo o dicionário, é “uma função ou poder que se confere a alguém para fazer algo”, é uma incumbência dada a alguém. Para a Igreja uma missão está intimamente ligada à pregação da fé cristã. É um mandato conferido a determinadas pessoas, clérigos ou leigos, para levar o Evangelho àqueles que ainda não o conhecem ou ajudar no aprofundamento da fé das comunidades.
A origem da missão está no próprio Deus que suscita profetas, apóstolos e discípulos para anunciar Sua Palavra. Jesus diz aos apóstolos: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei” (Mt. 28,19). Trata-se ao mesmo tempo de um mandado (ordem) e de um mandato (poder de agir em nome Dele).
As Sagradas Escrituras descrevem a história da salvação, mostrando como Deus prepara a vinda do Messias. No Livro do Gênesis, após o pecado de Adão e Eva, há a promessa de uma mulher que esmagará a cabeça da serpente (Gn. 3,15). Isaías prenuncia que uma virgem conceberá e dará a luz a um filho, cujo nome será Emanuel – Deus conosco (Is. 7,14). Percebe-se claramente a vocação de Maria no plano da salvação.
Chegada a “plenitude dos tempos” Deus, através do anjo Gabriel, anuncia a Maria que ela foi escolhida para ser a Mãe do Salvador (Lc. 1,26 ss). Esta é a primeira missão de Nossa Senhora: gerar em seu seio o Redentor.
Deus propõe a missão, não impõe. Maria é livre para aceitar ou não tal encargo. No início ela não compreende inteiramente a saudação do anjo (“Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo!”), não sabe como pode ser possível conceber um filho, sendo virgem, e questiona o anjo: “como é que vai ser isso?”. E diante da resposta do anjo Maria dá o seu sim: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!”. Maria deixa-se conduzir pela vontade de Deus, mesmo não compreendendo totalmente o significado e a extensão de sua missão.
Maria é guiada pela Palavra de Deus durante toda sua vida: através do anjo Gabriel na Anunciação; na visita a sua prima Isabel (“bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!”); em Belém quando Jesus nasceu, através do relato dos pastores de Belém (“eu vos anuncio uma grande alegria, nasceu-vos hoje um Salvador”);pelo velho Simeão no templo (“meus olhos viram vossa salvação”); da profetisa Ana que a todos relatava a novidade do nascimento do Redentor; por Jesus, quando se perdeu e é encontrado no templo (“não sabíeis que devo estar na casa de meu Pai?”).
Maria escuta e põe em prática a Palavra de Deus (Lc 8,20-21): “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”.
Maria se faz presente na obra salvífica de Jesus desde a Anunciação até o Calvário, mas a Missão de Maria não se encerra aí. Aos pés da cruz recebe de Jesus o cuidado com cada um de nós, na pessoa do apóstolo João: “Mulher, eis aí teu filho. Filho!” (Jo 19,26).
Nossa Senhora é Mãe e Modelo e assim desempenha um papel de educadora. Deseja conduzir seus filhos ao caminho da salvação. Maria cumpre essa missão com seu exemplo de vida: fidelidade ao projeto do Pai.
Deus fala pelas Escrituras, pelos acontecimentos, pela Igreja... De muitas maneiras Ele se comunica, mas para ouvi-Lo é preciso estar atento, com os ouvidos e coração abertos. Maria escuta a vontade de Deus através do anjo, de sua prima Isabel, dos pastores, de Simeão, do ministério de seu Filho, de sua oração pessoal... Conserva estas mensagens e medita no coração, e vai compreendendo o plano de Deus aos poucos.
Maria devia ter seus planos: casar-se, ter filhos... Como qualquer jovem de sua idade, no seu tempo. Deus lhe pede muito mais, pede a ela toda sua vida. Abandona sua vontade para se abrir inteiramente à vontade do Pai. Por quantos percalços passa: gravidez antes de coabitar com seu esposo; fuga para o Egito; volta para Nazaré; a vida pública de seu Filho que culmina na crucifixão...
“Creio em Jesus Cristo... nasceu da Vigem Maria...”
O símbolo apostólico professa a virgindade de Maria antes e depois do parto. Mais que uma questão fisiológica a virgindade de Maria Santíssima remete a uma reflexão profunda da vida em Deus. Maria entrega-se por inteira ao projeto de Deus, sem divisões, sem concessões.
Maria educa, ensina, prepara para a missão... Como ela mesma fez e continua fazendo. Grávida, faz uma longa caminhada até a casa de sua prima Isabel, de idade avançada e também grávida, para servi-la como era o costume. Nas Bodas de Caná preocupa-se com o vinho que está no fim.
Como Mãe está sempre atenta às necessidades de seus Filhos, especialmente ocupada em levar seu filho nos braços e apresentá-Lo ao mundo.
Depois da Ascensão, Maria está com os apóstolos no cenáculo, em Pentecostes. E em toda história da Igreja Maria se faz presente. Os títulos que Maria recebeu em muitos lugares atestam a sua presença e a piedade do povo que a reconhece como mãe: Guadalupe, Lourdes, Fátima, Aparecida, para citar alguns. Tantos lugares, uma missão: levar seus Filhos a Jesus. Pela sua cooperação na obra do Redentor, continua sua função de mãe intercedendo como “Medianeira das graças”. Esta presença de Maria é reconhecida pelos padres da Igreja, pelos Papas e por todo o povo de Deus.
O Papa Pio XII em 1954 escreve uma encíclica sobre a realeza de Maria (“Ad coeli Reginam”) e a instituição da festa da Imaculada Conceição. Nesta encíclica o Santo Padre lembra que a veneração à Mãe de Jesus remonta ao início da Igreja.
O culto prestado a Maria indica veneração (hiperdulía) em reconhecimento àquela que é o protótipo perfeito do seguimento de Cristo. Venerada por sua dignidade de Mãe de Deus, pelo seu papel na história da salvação e pela incessante intercessão pela humanidade.
O Diác. Alberto P. Carvalho gostava de lembrar que “o verdadeiro devoto não é o que reza, mas o que imita”. Dividido entre os apelos do mundo e a vocação à santidade, o fiel encontra na imitação de Maria o caminho seguro do seguimento de Jesus. Maria é modelo e exemplo de amor incondicional, traduzido na fidelidade ao projeto do Pai e no serviço aos irmãos.