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De perseguidor a apóstolo de Jesus Cristo


Recentemente, convidaram-me para fazer uma breve reflexão, dentro de um tríduo paulino. Deveria ser breve mesmo. Deram-me um título: De perseguidor a Apóstolo de Jesus Cristo. Colocaram-me diante de uma linha temática: Paulo, exemplo de pregador e missionário: uma vida transformada por um encontro. Seguindo as recomendações, durante os minutos concedidos, enfoquei alguns dos múltiplos traços do Apóstolo dos Gentios, tentando esboçar seu perfil de pregador do Evangelho de Jesus Cristo e missionário do Reino de Deus. Não há a menor sombra de dúvida de que, em virtude do tempo e de minhas próprias limitações, muitos aspectos ficaram fora da sucinta abordagem apresentada. Aqui, neste espaço, trago algumas das idéias enfatizadas. Algumas.

A grandiosidade de Paulo, como arauto e missionário de Cristo, está intimamente ligada à sua experiência no caminho de Damasco. No mistério de sua vontade, quis Deus atrair Paulo ao projeto de salvação, realizado por Jesus Cristo, em meio a perseguições que ele, o discípulo de Gamaliel (At 22, 3), investia contra os cristãos. Deixemos que ele mesmo nos fale do momento decisivo em sua vida, desse encontro que o transformou para sempre. Ouçamo-lo, em seu discurso dirigido aos judeus de Jerusalém, depois de sua prisão provocada pelos judeus da Ásia: “Ora, estando eu em caminho, e aproximando-me de Damasco, pelo meio-dia, de repente me cercou uma forte luz do céu. Caí por terra e ouvi uma voz que dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? – Eu repliquei: Quem és tu, Senhor? – A voz me disse: Eu sou Jesus de Nazaré, a quem tu persegues. – Os meus companheiros viram a luz, mas não ouviram a voz de quem falava. Então eu disse: Senhor, que devo fazer? – E o Senhor me respondeu: Levanta-te, vai a Damasco e lá te será dito tudo o que deves fazer. – Como eu não pudesse ver por causa da intensidade daquela luz, guiado pelas mãos de meus companheiros, cheguei a Damasco” (At 22, 6-11). Abençoado encontro!

A experiência de Paulo, a caminho de Damasco, foi decisiva em sua vida. Vida transformada por um encontro. A partir desse acontecimento, é possível estabelecer, na história pessoal de Paulo, dois marcos: antes e depois. Antes, temos, nele, o zeloso fariseu, o perseguidor da doutrina de Cristo, aprisionando cristãos (At 8, 1). Anteriormente à sua experiência, dirigia-se a Damasco “com o fim de prender os que lá achavam e trazê-los a Jerusalém, para que fossem castigados” (At 22, 4-5). Imediatamente, depois do episódio marcante, seguindo as orientações do próprio Jesus de Nazaré, prossegue viagem, não mais embalado pelo ódio, mas por sentimento que, na certa, ainda, não conseguia definir. Em Damasco, junto a Ananias, “homem piedoso e observador da Lei” (At 22, 12), recebe os ensinamentos necessários, desfaz seus equívocos, e deixa batizar-se (At 9, 10-19). Em seu batismo, sepulta o velho homem e das águas batismais ressurge para uma vida nova. Vai a Damasco, sim, porém retorna de lá, pregando o que, antes, condenava e assumindo a maior campanha missionária que a Igreja das primeiras horas testemunhou.. Não foi sem dificuldades que ele se firmou entre os apóstolos e discípulos de Jesus (At 9, 26-30).

No caso de Paulo, em termos de qualidades, é impossível fazer distinção entre o pregador e o missionário ou fixar-se nela. Nós não a faremos. No pregador, o ímpeto provocado pelo amor a Deus; no missionário, o mesmo ardor alimentado pela Fonte de todos os carismas ou dons (1Cor 12, 4-11). As qualidades com que se acham revestidas suas pregações (orais e escritas), em inúmeras circunstâncias adversas e localidades diferentes, se confundem com as qualidades caracterizadoras de seu serviço missionário, que, em suas três grandes viagens, narradas em Atos dos Apóstolos, a partir do capítulo 13, se direcionava, primordialmente, à construção de comunidades. Nas pregações, o ensino, como se pode observar, largamente, em qualquer uma de suas cartas, que ocupam uma boa parte do Novo Testamento. Nas missões, o Espírito Santo, agindo em seu coração, aprofunda, em sua consciência, a identificação “como apóstolo escolhido por Deus para anunciar Jesus Cristo” (2Cor 1, 1), de modo muito especial, entre os gentios, isto é, povos não pertencentes à raça judia. Em ambas atividades, pregação e missão, entre os pagãos, observa-se, nele, um inspirado comportamento que tem implicações para o alcance universal do Evangelho de Jesus Cristo.

Diz-nos Paulo: “Tornai-vos meus imitadores, como eu o sou de Cristo” (1Cor 11, 1). Imitando-o, imitamos o próprio Cristo. Imitando-o, entramos em contato com a mais profunda prática do anúncio do Evangelho e com a vocação da missionariedade eclesial. Imitando-o, não deixaremos de pregar a Palavra e trabalhar pela construção do Reino de Deus. Firmamo-nos discípulos-missionários, como deseja o Documento de Aparecida, em incontáveis momentos. E mais: imitando-o, entramos no caminho da dócil submissão ao Espírito Santo, da oração pessoal e comunitária e, com certeza, descobrimos o profundo significado destas suas palavras: “Eu vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim, a minha vida presente, na carne, eu a vivo no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2, 20).


Diácono Juranir Rossatti Machado

data do artigo: maio de 2008
Diác. Juranir é presidente da CRD Leste I e membro da ENAP-Equipe Nacional de Assessoria Pedagógica da CND.

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Diácono Juranir Rossatti Machado



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