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Pra quê diáconos na Igreja?


Pergunta afirmativa como esta acima dita em reunião de clérigos traz certa inquietação, quando proferida nos tempos de hoje, em pleno século XXI. Posto que, oriundo de quem a formulou deixando os seus pares surpresos e atônitos.

Como numa reunião de ministros ordenados, (bispos, presbíteros e diáconos, cf Can1009), diante de um fato dessa natureza, como por em prática o solicitado pelo saudoso Sumo Pontífice João Paulo II : “Viver plenamente a cummúnio eclesial”?

A pergunta afirmativa de quem a elaborou estava contida no seu subconsciente e de outros, aborta o asco que alguns têm a respeito desse ministério apostólico indiscutível. Por outro lado atesta o grau de desconhecimento do perguntador contido nos escritos patrísticos deixados pelos padres da igreja, para que posteriormente os que passarem pelos bancos escolares dos seminários, dos institutos, das universidades religiosas- teológicas tenham a oportunidade de aprender.

É bom recordar o que proferiu Dom Marcelo Pinto Carvalheira, Arcebispo Emérito da Paraíba: “Uma diocese sem diácono é uma diocese que he falta um dos pés para se apoiar”.

Será que esquecemos que o cristianismo é constituitivamente comunitário ? A comunidade cristã é o reflexo de comunidade da Trindade. Para o cristão no outro está presente Cristo. Por que desconhecer ou olhar pelos cantos dos olhos o ministério diaconal.

O Sacramento da Ordem, não é o sacramento de um. Não é sacramento da solidão. É sacramento de comunhão. Somos três. O ministério ordenado não pode voltar ao passado da convivência de dois. Devemos nos acostumar a viver trinitariamente. O que se diz de um afeta o outro, nos conhecendo um aos outros, o que é comum no ministério ordenado, conhecer o próprio e o específico de cada um. É preciso frisar que o sacramento da ordem em todos os seus graus, imprime caráter.

A esperança cristã não é individualista, é o que nos diz a carta encíclica Spe Salvis (Bento XVI).

O Vaticano II devolve a força sacramental e simbólica ao ministério ordenado, tornando-o sinal de serviço e não de poder. Sinal de coerência entre o que é pregado e o que se vivencia. Por isso o diácono é sinal visível, sacramental de Cristo-servo. Contudo este Cristo-servo não é propriedade de um ministério, mas de todos os três ministérios, que é a expressão da diaconia de Jesus Cristo no mundo.

Será que se quer voltar ao monarquismo, fazendo desaparecer o ministério diaconal. Tornar o ministério diaconal apenas um degrau, uma passagem para se chegar ao ministério presbiteral. Êxodo 20,26. “Não subirás o degrau do meu altar para que não se descubra a sua nudez.” Não se pode subir os degraus do altar de maneira indecente. Não posso acreditar que alguns pensem dessa maneira retrógrada, anti-evangélica, indo de encontro ao magistério da igreja, jogando no lixo o que determinou o Vaticano II a Igreja é comunidade fraternas de iguais.

É no íntimo dos escritos Evangélicos que está presente o ministério ordenado do diácono. Senão vejamos, Atos 6,1-7; Filipenses 1,1; Timóteo 3,8-13. Sim, é no Novo Testamento que se percebe que todo o Ministério tem sua origem e o seu modelo no ministério em Cristo que veio para servir (Mc 10,45) Cristo cria e diversifica no sentido de acontecer a sua missão, os doze, os setenta. O primeiro dado pertinente fundamental do Novo Testamento é que o verbo diakonein designa a própria missão de Cristo como servidor (Mt 10,45ss; cf. Mt 12,18; At 4,30; Fl 2,6-11). Esta palavra ou seus derivados designam também o exercício do serviço com seus discípulos (Mc 10,43ss; Mt 20,26ss; 23,11; Lc 8,3; Rm 15,25), os serviços de diferentes gêneros na Igreja, principalmente os serviços apostólicos de pregar o Evangelho e outros dons carismáticos (Documento da Comissão Teológica Internacional sobre o Diaconato, Evolução e Perspectiva, p. 528). Os apóstolos fazem a mesma coisa, estabelecem o ministério dos sete, dos epíscopos, dos presbíteros e diáconos.

Há uma corrente na Igreja que defende a ordenação direta para o presbiterado, sem passagem pelo diaconato. Acham que o diácono não sendo ordenado para o sacerdócio, e sim para o serviço não deve estar incluso no sacramento da ordem. Descartam o diaconato. É bom rever que todos os batizados ontologicamente fazem parte do sacerdócio de Jesus Cristo. Três graus cada qual na sua especificidade, no único sacerdócio de Cristo. Ministério e sacerdócio não são dimensões distintas e separadas, mas dimensões do agir de Cristo servo-sacerdote. Trata-se de instituição divina (cf. Cân.1008), de três servidores a serviço da missão do povo de Deus. Os diáconos são ordenados para o ministério apostólico, onde o bispo tem a função de presidência, de manter na unidade da fé, acentuando a dimensão da promoção humana.

O Ministério Diaconal tem o papel de despertar a Igreja para os serviços aos pobres, opção que se configura em última análise, como opção pelo Deus do Reino que Jesus anuncia.

Por que ainda em poucos permanecem indiferenças quanto ao diaconato? Em 1994 o Pe. Pio Milpacher (REB 216 setembro, 1994, p. 701-706), publicava artigo assim titulado “Por que o diaconato não deslancha? O sonho conciliar.” Analisa o crescimento das Igrejas Evangélicas no Brasil e não entendia porque a maioria dos presbitérios (enquanto reunião de presbíteros) não se abria ao Diaconado Permanente. E relatava “Estariam os presbíteros com medo! Medo que os diáconos questionem o seu comodismo, ou se tornem concorrentes, ou diminuam seu poder e autonomia.” Será que estas preocupações ainda são atuais? Acredito que não. Caso seja verdade estamos diante de um problema de conversão, do perguntador afirmador ou daqueles que pensam como o mesmo?

Bento XVI, quando Cardeal Joseph Ratzinger, em Documento da Comissão Teológica Internacional sobre o Diaconato, Evolução e Perspectiva, na qual presidia “A presença ativa deste ministério na vida da Igreja suscita, em memória do exemplo de Cristo, uma consciência mais viva do valor do serviço para vida cristã.”

Santo Inácio de Antioquia “Uma Igreja particular, sem bispo, sem presbítero e sem diácono parece impensável.

Bento XVI (11.02.08) assim se expressava “Os sacerdotes continuam sendo diáconos e os diáconos explicitam na igreja e no mundo esta dimensão diaconal de nosso ministério.”

Paulo VI “Eu também sou diácono, continuo sendo diácono, e desejaria também exercer esse ministério do diaconato pondo no trono a Palavra de Deus.”

Dom Luciano Mendes “Nós ministros ordenados, somos chamados a promover a comunhão. Somos servidores de comunhão.”

Cláudio Cardeal, Hummes “Vocês diáconos foram ordenados para o serviço da palavra, para o serviço litúrgico-sacramental, serviço a caridade.”

Dom Aldo Di Cillo Pagotto “A missão do diácono não é apenas oferecer a caridade, mais fazer as pessoas acreditar em si porque a caridade tem implicação social. Não só distribuir a Palavra, o Pão Eucarístico, mas conscientizar as pessoas para a luta pelo Pão da justiça social, e pelo Pão da dignidade e fraternidade humana.”

É preciso ressaltar a esse perguntador afirmador e os que lhes segue que não foram os diáconos do passado que tornaram viável esse Ministério pos Vaticano II em realidade concreta; foram sim os grandes Sacerdotes, Padres Conciliares, Presbíteros, Bispos, quem intentaram com o apoio de suas dioceses, inclusive aqui no Brasil, mais precisamente na Arquidiocese da Paraíba quando Bispo Diocesano Dom Jose Maria Pires. Na Europa nos Países Baixos, e, na Alemanha país onde nasceu Sua Santidade Papa Bento XVI.

A Exortação Apostólica Pos Sinodal Eclésia in América (J.Paulo II) ressalta que colaborando com o Ministério Ordenado os diáconos serão ajuda eficaz na realização do projeto da nova evangelização, levando os homens ao encontro com Cristo na Sagrada Escritura, na Sagrada Liturgia e no Sagrado Irmão necessitado (cf. Y Durán, J. Duran. Diaconado Permanente e Ministério da Caridade, p. 130).

Ministério da Caridade deve ser exercido a partir de um Encontro com Cristo, encontro que gera comunhão e que produz solidariedade.

Faz-se necessário relembrarmos o que nos diz a Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte (45).

“Os espaços de comunhão hão de ser promovidos dia a dia, em todos os níveis no tecido da vida de cada Igreja. Nesta, a comunhão deve resplandecer nas relações entre bispos, presbíteros e diáconos, entre pastores e o conjunto do povo de Deus, entre clero e religiosos, entre associações e movimentos eclesiais.”

É caso mesmo de conversão, se por acaso houver insistência na negatividade da permanência do ministério diaconal. Saliente-se que a conversão se concretiza pelos pequenos atos tanto pessoais como comunitários. Os diáconos fluíram do seio da Igreja. Nem Trento obstaculou dessa maneira esse serviço a caridade. Será que na era da informática, da pós-modernidade é que teremos a conversão da Igreja? ´Pois a Igreja como um todo, Corpo de Cristo acatará esta proposta afirmativa?

Caso alguns insistam nesse desiderato, achando-se em primeiro plano em relação a sua pessoa, como verdadeiros protagonistas das ações litúrgicas, e, não Jesus Cristo, estamos diante de uma grande contradição da identidade sacerdotal.

Bento XVI em discurso na Basílica de Aparecida assim se refere aos diáconos

“Agradeço o testemunho que ofereces colaborando com os vossos Bispos nos trabalhos pastorais das dioceses. Tenhais sempre diante dos olhos a figura de Jesus, o Bom Pastor, que – veio não para ser servido, mais para servir e da sua vida para resgatar multidão.” ( Mt. 20, 28 )

Santo Inácio de Antioquia referindo-se aos três graus da hierarquia eclesiástica “todos devem reverenciar aos diáconos como a Jesus Cristo, ao Bispo como á imagem do Pai, aos presbíteros como ao senado de Deus e ao colégio dos Apóstolos.”

A ordem dos Bispos e dos Diáconos foi fundada na vontade de Deus, portanto é uma boa ordem. O seu envio tem origem no próprio Deus. Os sucessores eleitos pelos Apóstolos são as premissas oferecidas a Deus.

Didaque (15,1) menciona os Bispos e Diáconos que são sucessores dos profetas “Escolhei, pois, bispos e diáconos dignos do Senhor, homens mansos, desinteressados, verídicos e seguros, pois eles preenchem junto de vós o oficio do profeta e dos doutores.”

Diáconos na Igreja, sim, para tornar a Igreja Ministerial (diaconal), onde todos os fiéis são chamados a servir, fazendo a comunidade cristã crescer.

Sendo servidores de Cristo, e, irrepreensíveis diante da justiça. Que todos sejam um. (Jo 17,21)


Diác. Valter Paiva
Arquidiocese da Paraíba

data do artigo: 01/07/2008

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Diác. Valter Paiva



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