A misericórdia é um elemento fundamental da mensagem salvífica trazida por Cristo e destinada a toda a humanidade. E entre os homens, merecem atenção especial os pecadores. No âmbito social, a eles correspondem os pobres. E estes são os preferidos, sem exclusão dos ricos materialmente, porém mendigos no plano espiritual. Há uma sentença de Jesus que resume admiravelmente sua doutrina sobre essa matéria: "quero misericórdia e não sacrifício" (Mt 9, 13).
Vejamos esse ensino aplicado a uma situação cada vez mais freqüente em nossos dias: o acolhimento aos casais separados, aos nubentes que tentam nova união matrimonial. Os deveres dos cristãos diante deles, deveres e limites da misericórdia que nascem do Evangelho de Cristo e não das interpretações ilegítimas. A autenticidade cristã é o fundamento do sucesso neste serviço aos irmãos necessitados.
Cristo deixou à sua Igreja um Magistério vivo que se faz presente aos homens no decorrer dos séculos. Na variedade de situações que se apresentam aos fiéis, ele indica o caminho certo.
Antes de falar dos problemas de hoje, é muito útil saber algo da conduta familiar e pessoal nos primeiros séculos da Igreja. Para isso, trago alguns trechos de uma correspondência do final do 2º século ou início do 3º.
Diogneto, um homem nobre, sobre quem não possuímos informações ulteriores, residente talvez em Alexandria, recebe essa carta de um cristão em forma de apologia. Ele manifesta profundo conhecimento da Revelação e do comportamento dos cristãos da época. Eis alguns tópicos: "Todo país estrangeiro é sua Pátria e toda Pátria é para os cristãos terra estrangeira. Casam-se como toda gente e criam seus filhos, mas respeitam os recém-nascidos (referência à prática do infanticídio pelos pagãos).Têm em comum a mesa, não o leito. São de carne, porém não vivem segundo a carne. Moram na terra mas sua cidade é no céu. (...) Numa palavra: os cristãos são no mundo o que a alma é no corpo. A alma está em todos os membros do corpo; e os cristãos, em todas as cidades do mundo. A carne, sem ser provocada, odeia e combate a alma, só porque lhe impede o gozo dos prazeres; o mundo, sem ter razão para isso, odeia os cristãos precisamente porque se opõem a seus prazeres". Emergem dessas rápidas pinceladas uma vivência profundamente marcada pela fraternidade, um acolhimento ao próximo fiel ou infiel, sem ferir em nada a autenticidade de um modo de viver fruto da observância integral dos preceitos da Igreja.
Nos tempos atuais a Exortação Apostólica "Familiaris Consortio" sobre a família cristã no mundo de hoje, do Papa João Paulo II nos dá o rumo no atendimento aos casais por parte de pastores e da comunidade. No que se refere aos divorciados, devem ser ajudados "com caridade solícita; que eles não se considerem separados da Igreja, podendo, e melhor devendo, enquanto batizados, participar de sua vida. Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a freqüentar o Sacrifício da Missa, a perseverar na oração, a incrementar as obras de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as obras de penitência para assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus. Reze por eles a Igreja, encoraje-os, mostre-se mãe misericordiosa e sustente-os na fé e na esperança. A Igreja, contudo, reafirma a sua praxe, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à Comunhão Eucarística os divorciados que contraíram nova união" (nº 84).
A Congregação para a Doutrina da Fé dirigiu, em 14 de setembro de 1994, uma "Carta aos Bispos Católicos a respeito da recepção da comunhão eucarística por fiéis divorciados novamente casados". O documento, evidentemente, segue e reforça a mesma determinação; foi aprovado pelo Santo Padre, que ordenou sua publicação. Ao concluir, diz: "na ação pastoral, dever-se-á realizar todo o esforço para que seja bem compreendido que não se trata de nenhuma discriminação, mas apenas de fidelidade absoluta à vontade de Cristo que restabeleceu e de novo nos confiou a indissolubilidade do matrimônio como dom do Criador. Será necessário que os pastores e a comunidade dos fiéis sofram e amem unidos às pessoas interessadas, para que possam reconhecer também no seu fardo o jugo suave e o fardo leve de Jesus" ( nº 10 ).
A essas longas citações, poderia acrescentar o "II Encontro Mundial do Santo Padre com as Famílias: Dom e Compromisso, Esperança da Humanidade", que ocorreu no Rio de janeiro, de 02 a 05 de outubro de 1997, com a visita do Papa. Do Congresso Internacional Teológico Pastoral participaram 2.500 representantes de 86 países.
A misericórdia com os desvios cada vez mais freqüentes da estrutura familiar, criação do próprio Cristo, não significa a aprovação aos mesmos. Assim, devemos condenar o matrimônio por experiência, uniões livres, católicos cujo lar se fundamenta só em matrimônio civil, divorciados que contraem nova união... A sensibilidade pastoral encontra um importante campo de ação junto aos separados e divorciados sem segunda união. Assim, independentemente da reprovação do erro, a pessoa que o comete não deve ser repelida. Ela tem o direito de ser ajudada. Isto não significa mitigar a verdade e suas conseqüências.
Depois do Grande Jubileu, o trabalho em favor do fortalecimento dos valores familiares merece dos católicos atenção especial. A edificação do lar, "igreja doméstica", como se expressa o Concílio Vaticano II, sua reconstrução ou fortalecimento, são de grande importância para a Igreja e a sociedade civil.
