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Os maravilhosos frutos do amor

Deus deu a cada matrimônio a possibilidade de participar do poder divino da criação.

Na primeira página do Gênesis, debaixo de uma roupagem aparentemente ingênua, se narram verdadeiros acontecimentos históricos: a criação do universo e do homem. Deus modela um pouco de argila - assemelhando-se em sua tarefa ao oleiro -, sopra e lhe infunde um espírito imortal; a matéria se anima de um modo novo, superior; nasce a primeira criatura humana, feita à imagem e semelhança do Criador. O homem não é um produto da matéria, ainda que a matéria seja um de seus componentes; goza de alma espiritual, irredutível ao corpóreo. De acordo com a Revelação divina e a boa filosofia, assegura Pio XII que "a fé católica nos obriga a afirar que as almas são criadas imediatamente por Deus". Por isso toda vida humana é sagrada, pois - são agora palavras de João XXIII - desde seu começo, compromete diretamente a ação criadora de Deus.

Deus colocou no homem, com o sexo, a possibilidade de tomar parte nesse poder divino, que requer, como é lógico, um contexto singular, um lugar também "sagrado": o leito conjugal. O matrimônio quando não se mancha com práticas opostas a sua natural grandeza é o âmbito santo escolhido por Deus para aumentar o número de seus filhos. Deus mesmo instituiu o matrimônio primeiro o natural e depois o sacramental com este fim prioritário: a procriação e a educação dos filhos. Os pais se fazem "cúmplices" de um ato estritamente criador.

Eles dispõem a matéria e Deus põe o espírito imortal; intervém num milagre portentoso. O ensina o santo doutor tão citado pelo atual Papa João Paulo II, Tomás de Aquino: "É mais milagre - diz em uma pequena obra recém traduzida ao castelhano, Os quatro opostos o criar almas, ainda que isto maravilhe menos, que iluminar a um cego; mesmo assim, como isto é mais raro, é tido por mais admirável". Santo Agostinho fica inclusive mais maravilhado frente à formação de um novo homem que ante a ressurreição de um morto. Quando Deus ressuscita a um morto, recompõe ossos e cinzas, enquanto que - explica esse grande do saber teológico "Tu antes de chegar a ser homem, não eras nem cinza nem ossos; e foste feito, não sendo antes absolutamente nada".

BEIJAR O QUE DEUS FEZ

Se dependesse de nós que Deus ressuscitasse a um morto (parente, amigo ou desconhecido), seguramente faríamos tudo quanto estivesse em nosso poder, por custoso que resultasse. Se Deus nos dissesse: faz isto, e este homem voltará à vida; sentiríamos uma emoção profunda e nos acharíamos ditosos de ser cooperadores de um fato colossal, divino. Pois ainda de maior relevo é a concepção de um novo ser humano. De onde não havia nada, surge uma imagem de Deus. Por isso Santo Tomás não tem inconveniente em fazer seu o pensamento de Aristóteles quando diz que "o sêmem humano é algo divino, tanto que é um homem em potência". E Tolstoi, no capiítolo XIII da sonata de Kreutzer: "Haveria que parar o pensamento na obra grandiosa que se realiza na mulher quando está grávida ou quanto amamenta a um filho. Desenvolve-se o ser que é nossa continuação, o que haverá de substituir-nos. Mesmo assim, não respeitamos esta obra sagrada...".

Novamente é Santo Agostinho quem nos oferece outra sugestão belíssima: "Quando algum de vós beija a uma criança, em virtude da religião deve descobrir as mãos de Deus que o acabam de formar, pois é um aobra ainda recente de Deus, ao qual, de algum modo, beijamos, já que o fazemos com o que Ele tem feito.

Falando sério, as atitudes hostis à natalidade são desumanas e, por conseqüência, absolutamente estranhas ao cristianismo. Necessita-se ter perdido de vista o que o homem é, e o sentido da vida, para cair nessa dorte de niilismo que prefere o nada ao ser, ou no paradoxo hedonismo, que despreza os bens eternos por manter, a todo custo, algumas comodidades provisionais. É preciso recordar o que Paulo VI dizia em sua tão manipulada encíclica Humanae Vitae: "O problema da natalidade, como qualquer outro referente à vida humana, deve ser considerado por cima das perspectivas parciais de ordem biológico ou sociológico, à luz de uma visão integral do homem e de sua vocação, não só natural e terrena, mas também sobrenatural e eterna".

Todo homem deve saber que nossas vidas são os rios que vão a dar ao mar, que é o viver!; que o final não é mais que o princípio; que o tempo desemboca na eternidade, na que Deus premia ou castiga a cada um segundo suas obras (Ap. 22,12). Nós cristãos sabemos mais; sabemos que os fiéis verão a Deus e viverão eternamente na produndidade infinita de seu amor. Sabemos que quando Deus disse "Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra" (Gn 1,28), pretendia uma finalidade ulterior: encher o Céu. A criatura humana, a diferença dos animais, tem uma "razão especial para multiplicar-se: completar o número dos eleitos" (Santo Tomás de Aquino), de modo que "a união entre marido e mulher (copulatio igitur maris et feminae), pelo que respeita ao gênero humano, é como o sementeiro da Cidade de Deus" (Santo Agostinho).

VALE MAIS QUE MIL UNIVERSOS

Depende - porque assim Deus quis -, da generosidade dos pais que um dia tenha no Céu aquela "grande multidão, que ninguém segundo o dizer de São João podia contar". Dos que receberam a chamada divina ao matrimônio depende que aquele dia não falte ninguém dos chamados por Deus desde a eternidade à eternidade. A responsabilidade dos pais é pois gravíssima e gozoza ao mesmo tempo. Um homem mais ou menos importa muito: vale mais que mil universos, sendo que estes acabam todos por desvanecer-se; uma pessoa humana, pelo contrário, não morre jamais: só morre seu corpo, que ressuscitará no último dia. Um só homem, uma só mulher, vale todo o Sangue de Jesus Cristo, e com isto fica dito quase tudo.

A triste possibilidade que hoje se brinda do prazenteiro e invisível crime - cegar as fontes da vida -, violentando injustamente o curso da natureza, é o reverso de uma maravilhosa alternativa, de sinal positivo, que cobra neste tempo valor novo: a decisão livremente tomada (e por isso responsável) de trazer ao mundo os filhos que a Providência divina manifesta por meio de circunstâncias ordinárias que, às vezes não sem dificuldade, podem decifrar-se. Também destas temos de tratar.

data do artigo: 27/07/2003

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Pe. José Inácio Schuster

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