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Bento XVI ante a "ditadura do relativismo

Qual é a postura do Santo Padre com respeito ao relativismo? Por que nos fazem acreditar que no mundo moderno não há verdades absolutas?

Na homilia da Missa, com a que começava o passado Conclave, o Decano do Colégio cardinalício, o então Cardeal Joseph Ratzinger, enunciou alguns dos retos que enfrentaria o próximo Papa. Nessa mensagem pôs especial ênfase num fenômeno da cultura contemporânea, a que chamou a "ditadura do relativismo".

Estas palavras do Decano causaram agitação. Para alguns analistas, essa homilia teria significado a desqualificação do Cardeal Ratzinger como futuro Romano Pontífice, já que essa postura era demasiado rígida e pouco atenta à sensibilidade do mundo de hoje.

Por que essa afirmação causou tanta comoção? Porque o relativismo está fortemente arraigado em nossa mentalidade contemporânea. Esta postura cultural afirma que não existe uma verdade absoluta, válida para todos os seres humanos. Mais bem sustenta que a verdade se constrói em cada época da história: não existe a verdade definitiva sobre o homem, senão que o homem é o que cada um opina, aqui e agora.

Em nosso tempo, enfrentar-se ao relativismo é equivalente a ser intransigente, porque ninguém teria direito a impor uma verdade sobre o homem, já que se parte de que essa verdade não existe. Essa oposição ao relativismo significaria também opor-se à democracia, pois como não existiria uma verdade comum sobre a conduta humana, cada um pode fazer o que deseje e ninguém pode qualificar essas ações como más ou como incorretas.

O desacordo de Bento XVI com o relativismo suscitou controvérsia, porque até agora as afirmações do novo Papa foram tomadas como um desejo de impor uma idéia, de submeter as consciências a um patrão fixo. Mesmo assim, é isso o que quis exatamente dizer o Santo Padre? Longe de escravizar as consciências, Bento XVI pretende libertar o homem de hoje. Não tenta agarrar-se no passado, senão desatar as cadeias presentes que comprometem o futuro do ser humano. Se não existe uma verdade sobre o homem, não fica mais remédio que fechar-se na questão do útil. E desde o ponto de vista da utilidade, o ser humano não passa de ser uma estatística, um efeito colateral, uma peça reciclável: se converte numa coisa.

Num discurso pronunciado em Madri, em 16 de fevereiro de 2000, o então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, explicava mais a fundo os perigos do relativismo. O ponto de referência é a capacidade natural do homem para conhecer a verdade. Toda filosofia tem como núcleo perguntar-se "se o homem pode conhecer a verdade, as verdades fundamentais sobre si mesmo, sobre sua origem e seu futuro, ou se vive numa penumbra que não é possível esclarecer". Só se o homem é capaz de conhecer a verdade, a própria existência tem sentido. Só se existe uma verdade sobre o ser humano, se pode respeitar a dignidade de cada pessoa.

Na cultura de nossos dias, a ciência "certamente busca verdades mas desqualifica como não científica a questão da verdade". O importante é estudar se as frases de um discurso intelectual tem coerência, mas não se essas afirmações correspondem com a realidade das coisas. "Uma cientificidade exercida deste modo imuniza frente à verdade", advertia o então Cardeal Ratzinger. Mas "o homem não está aprisionado no quarto de espelhos das interpretações; pode e deve buscar o acesso ao real, que está detrás das palavras e se lhe mostra nas palavras e através delas".

Por essa razão, nossa cultura caiu no pragmatismo. "A questão não é a verdade, senão a práxis, o domínio das coisas para nosso proveito". O relativismo se apresenta como um libertador de todo dogmatismo, e se converte num tirano, que converte ao homem num objeto manipulável. O ser humano fica a mercê de quem exerce o poder -já religioso, intelectual ou político- e não há nenhuma verdade que possa protegê-lo: porque nem os direitos mais básicos formariam parte da verdade do homem. De novo o pragmatismo: os direitos se concedem, se é para utilidade do que manda.

Como se pode observar, a atitude de Bento XVI não é opor-se ao homem contemporâneo, senão libertá-lo dos atropelos do relativismo. A proposta do Papa, em continuidade com a mensagem de João Paulo II, consiste em "reabilitar a questão da verdade".

Aqui se reflete também o talante intelectual e moral do novo Pontífice. É um homem convencido de que a verdade liberta ao homem. Quando foi consagrado bispo em 28 de maio de 1977, Joseph Ratzinger tomou como lema uma palavra da terceira Carta de São João: "colaborador da verdade". E explicava seus motivos: "no mundo de hoje o argumento "verdade" quase desapareceu porque parece demasiado grande para o homem, e mesmo assim, se não existe a verdade tudo se afunda", por isso, "este lema episcopal me pareceu que era o que estava mais alinhado com nosso tempo" (Mi vida. Ed. Encuentro, 1977, p. 130).

data do artigo: 04/11/2005

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Pe. José Inácio Schuster

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