Foi muito chamativo que os vaticanistas brasileiros comentaram que a eleição de Bento XVI seria um passo atrás, no diálogo da Igreja Católica com as outras religiões. O motivo aduzido consistia em que o então Cardeal Ratzinger havia elaborado a Declaração "Dominus Iesus", datada em 6 de agosto de 2000, e aprovada por João Paulo II.
E, a partir desse dado, esses vaticanistas tiravam duas conclusões: A primeira era que a Igreja se mostrava intolerante respeito às outras religiões, porque esse documento indicava que só a fé católica é a religião verdadeira. E a segunda fazia referência à personalidade do Cardeal: se tratava de um homem intransigente.
Para um leitor exigente, essas conclusões deixam muito a desejar. Em primeiro lugar, vale a pena entender bem o conteúdo e o contexto dessa Declaração pontifícia. E a continuação interessa saber qual é o pensamento de Bento XVI sobre este tema, e com base nas suas palavras julgar se é um homem aberto ao diálogo ou não.
A Declaração "Dominus Iesus" foi a resposta à postura de alguns teólogos que confessam que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, mas pensam que a revelação de Deus em Cristo não pode ser considerada completa e definitiva, senão que deve ser sempre considerada em relação com outras possíveis revelações de Deus. Deste modo, se introduz a idéia errada de que as religiões do mundo são complementares à revelação cristã.
Para o então Cardeal Ratzinger o "princípio da tolerância e respeito da liberdade é hoje manipulado e superado indevidamente quando se estende ao apreço dos conteúdos, como se todos os conteúdos das diversas religiões e dos conceitos não religiosos da vida se tivessem que situar ao mesmo nível, e já não existisse uma verdade objetiva e universal, porque Deus ou o Absoluto se revelariam com numerosos nomes, mas todos eles seriam verdadeiros. Esta falsa idéia de tolerância está relacionada com a perda e a renúncia da questão da verdade, que hoje muitos consideram uma questão irrelevante ou de segunda classe".
Por isso, este documento pontifício vem recordar que certamente, as diferentes tradições religiosas contem e oferecem elementos de religiosidade, mas com a vinda de Jesus Cristo Salvador, Deus estabeleceu a Igreja para a salvação de todos os homens. E afirma que esta verdade de fé não tira nada ao fato de que a Igreja considera as religiões do mundo com sincero respeito, mas ao mesmo tempo exclui essa mentalidade indiferentista "marcada por um relativismo religioso que termina por pensar que uma religião é tão boa como outra" (cfr. Cap. VI).
Como se pode apreciar, a Declaração "Dominus Iesus" não coloca a intolerância, senão que sai ao passo de um equívoco: que em nome da tolerância se caia no relativismo. E desde aí não pode deduzir-se, como fizeram esses vaticanistas, que o Papa tenha uma personalidade "dura e inflexível". Basta ler as primeiras declarações de Bento XVI para ver sua abertura para as outras religiões.
Em sua primeira homilia como Papa teve umas palavras para "aqueles que seguem outras religiões". Se dirigiu a eles "com simplicidade e carinho para assegurar-lhes que a Igreja quer seguir mantendo com eles um diálogo aberto e sincero, em busca do verdadeiro bem do ser humano e da sociedade" (20-IV-2005).
E o dia anterior à inauguração solene de seu Pontificado dirigiu esta mensagem aos representantes muçulmanos que assistiriam a esse evento. "Os asseguro que a Igreja quer seguir construindo pontes de amizade com os seguidores de todas as religiões para buscar ao bem verdadeiro de todas as pessoas e da sociedade inteira" (25-IV-2005).
O Papa Bento XVI mostrou sua convicção de que Cristo revelou à Igreja a plenitude da verdade sobre Deus, e que essa firmeza nada tem que ver com a intolerância nem com o relativismo. E deu amostras de uma atitude pessoal de abertura ao diálogo com as outras religiões.
