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As Diaconias Eclesiais


Indaiatuba/Itaici-SP, 21 de fevereiro de 2003

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Dom Angélico Sândalo Bernardino
Bispo de Blumenau-SC


1. Tenho a imensa alegria e honra de lhes dirigir a palavra, neste momento de espiritualidade que acontece no III Congresso Nacional de Diáconos e Esposas e VII Assembléia Geral. Faço-o em nome do Setor Vocações e Ministérios, trazendo-lhes calorosa e fraterna saudação da CNBB.

2. A Comissão organizadora deste Congresso e Assembléia pediu-me lhes falasse sobre a diaconia do lava-pés! Em hora providencial, aliás, temos como tema e lema deste Congresso-Assembléia: "O Ministério da Caridade. Diáconos por uma Igreja servidora e um mundo solidário"- "Crescer em amor mútuo e para com todos" (1 Ts 3,12).

3. Proclamação do Evangelho de João 13, 1-5, onde contemplamos Jesus, o Diácono do Pai, lavando os pés de seus apóstolos.

4. Abramos nosso coração ajoelhado em contemplação para Jesus, reunido à mesa com os seus para a Ceia e, em determinado momento, fazendo o trabalho de servo, lavando-lhes os pés!

5. É fundamental, meus irmãos, saibamos que o acontecimento do LAVA-PÉS está colocado em íntima união com a MESA, a Ceia, a instituição da Eucaristia. "O elemento que mais caracteriza a espiritualidade diaconal é a descoberta e a partilha do amor de Cristo Servo, que veio não para ser servido, mas para servir" ("Normas Fundamentais..."n. 72). "A fonte desta nova capacidade de amor é a Eucaristia, que não é por acaso que caracteriza o ministério do diácono. Com efeito, o serviço aos pobres é a lógica continuação do serviço do altar"(idem, n.73).

As primeiras comunidades, já no tempo da redação dos Evangelhos, Atos e Cartas, estavam envolvidas com dificuldades referentes ao serviço às mesas, com questões de precedência dos que deviam ser servidos, com tentações do poder!

São Paulo, na 1Cor 11, 17-20, advertia: "Dito isto, não posso louvar-vos: vossas assembléias, longe de vos levar ao melhor, vos prejudicam. Em primeiro lugar, ouço dizer que, quando vos reunis em assembléia, há entre vós divisões, e, em parte, o creio... Quando, pois, vos reunis, o que fazeis não é comer a Ceia do Senhor, cada um se apressa por comer a sua própria ceia; e, enquanto um passa fome, o outro fica embriagado".

Tiago, em sua carta, alertava a comunidade cristã (Tg 2, 2-6). Ouçamos suas advertências.

O médico e evangelista Lucas (At 6, 1-6), em texto fundamental para o Diaconato, nos apresenta as dificuldades no serviço diário às viúvas. Há concordância, entre teólogos, na afirmação de que o serviço às mesas está na origem do Diaconato.

Lucas coloca o texto do "quem é o maior" entre os apóstolos, discípulos, logo após a instituição da Eucaristia (Lc 22,24); Mateus (20, 20-28) o coloca após o 3º anúncio da Paixão, o mesmo acontecendo em Mc 10, 35.

"Lava-pés" está ligado à Mesa Eucarística, ao serviço aos pobres; à quebra da tentação de poder. Jesus faz o trabalho do servo e afirma que "o maior dentre vós deve se portar como o menor, pois eu vos dei o exemplo a seguir" (Jo 13, 14-15).

6. A Diaconia do Lava-pés grita, aos diáconos do Brasil, por algumas urgências, para conversão, mudança de rumo:

a) Pelo sacramento da Ordem, o diácono é configurado a Cristo Servidor. Ele é chamado a ser, na comunidade eclesial, no mundo, sinal sacramental de Cristo-Servo.

"A missão do diácono está ligada ao Cristo-Servo. Ele coloca em evidência e potencializa para todo o Povo de Deus a dimensão de serviço. Sua veste característica é a estola, que lembra a toalha do lava-pés, gesto da atitude diaconal de Cristo.. Ser ícone de Cristo servidor constitui a identidade profunda do diácono. Ao vê-lo, deveríamos ser interpelados aos gestos concretos e à alegria do serviço" (Diretrizes para o Diaconato Permanente, CNBB, n. 40).

Precisamos de diáconos santos, esvaziados de poder mundano, apaixonados por Cristo Servidor, conscientes de que diácono que não é servidor não serve para ser diácono.

b) O Vaticano II declara, ao falar da tríplice missão diaconal: "Fortalecidos com a graça sacramental, os diáconos servem ao Povo de Deus na diaconia da liturgia, da Palavra e da caridade, em comunhão com o bispo e sue presbitério" (LG 29).

Infelizmente, no Brasil, o Diaconato Permanente tem marcado presença desequilibrada neste tríplice campo: o da Caridade, a estatística sobre o Diaconato Permanente no Brasil, feita em 1999, o revela, precisa crescer!

Insisto, precisamos aqui, sem dúvida alguma, de mudança de rumo. A escolha do tema e lema deste Congresso e Assembléia evidenciam esta preocupação. O diaconato permanente no Brasil, iluminado por LAVA-PÉS, precisa se converter:

§ à concreta evangélica opção pelos pobres;

§ à fantasia da caridade de que nos fala o Papa João Paulo II.

Esta mudança é urgente, fundamental, não por motivos ideológicos, mas por imperativo do seguimento de Jesus, que se compadeceu dos pobres, dos doentes e perdidos, da multidão faminta!

Diáconos Permanentes, nas Dioceses, Paróquias, vivamente unidos aos Bispos e Presbíteros, devem marcar presença evangelizadora:

  • apoiando a organização dos pobres e trabalhadores;
  • nas coordenações, animação de pastorais sociais;
  • na animação do Mutirão da erradicação da fome e da miséria;
  • na vitalização, organização das Campanhas da Evangelização e da Fraternidade.

Numa palavra, a Igreja tem urgente necessidade de mostrar ao mundo sofrido, violento, a presença de Jesus na Pessoa do Diácono Permanente, misturado aos pobres, famintos, sedentos, drogados, sem terra, sem moradia, prostituídos...

Para que isto aconteça, o diácono permanente precisa ser revestido pelo "amor que se dá e não se impõe, que se abaixa para servir e não se coloca na posição de quem manda". Este amor é a marca inconfundível de Cristo que, "tendo amado os seus, amou-os até o fim". "A diaconia do lava-pés" nos indica que a memória da Ceia do Senhor será mero formalismo se não for expressão viva e atual desse amor total. A Eucaristia não pode desvincular-se jamais do gesto de amor-serviço expresso no lava-pés, sob o risco de negar a essência mesma da memória de Jesus, que deu a vida pelos que ele ama. Eucaristia é serviço, é colocar-se diante dos irmãos em atitude de humilde disposição para cuidar deles, ajudá-los a se sentirem amados e acolhidos" (Cf "Páscoa: fome sempre saciada!", CNBB, SINM, 2003).

O apóstolo São João, cobrando coerência ao Diaconato Permanente já maravilhosamente voltado à Diaconia da Palavra, da Liturgia e menos à Diaconia da caridade, nos diz, neste momento: "Se alguém, possuindo os bens deste mundo, vê o seu irmão na necessidade e lhe fecha o coração, como permanecerá nele o amor de Deus? Filinhos, não amemos de palavras nem de língua, mas por ações e em verdade"(1Jo 3, 17-18).

7. Finalmente, duas referências ainda:

  • O Vaticano II (LG 29), ao falar sobre o serviço da caridade, indica-lhes também o campo da "administração". Que Diáconos Permanentes marquem presença servidora nos Conselhos de Administração das Dioceses, Paróquias. Que o façam com competência e espírito missionário, de partilha de bens entre as comunidades eclesiais. Administrar bem é também evangelizar, fazer pastoral.
  • A maior parte dos Diáconos Permanentes vive a dupla sacramentalidade: ordem e matrimônio. Que os Diáconos sejam apóstolos da família, pelo testemunho do amor conjugal, vivência familiar. Marquem presença na Pastoral Familiar, nas Dioceses e Paróquias. Na vivência do sacramento da Ordem, sejam apóstolos da comunhão, vivendo em intensa fraternidade mútua, com seus irmãos Bispos e Presbíteros.

Termino voltando-me para a querida Mãe de Jesus e nossa, a Serva do Senhor. Tomo algumas invocações da "Oração a Maria Santíssima" colocada no término do "Diretório do Ministério e da Vida dos Diáconos Permanentes".


		Maria,
		Mestra da caridade, que com tua plena disponibilidade ao apelo de Deus,
		cooperaste no nascimento dos fiéis na Igreja,
		torna fecundos o ministério e a vida dos diáconos,
		ensinando-lhes a se doar no serviço do Povo de Deus.
		
		Maria,
		Mestra de humildade, que no teu profundo reconhecimento
		de ser a Serva do Senhor, foste repleta do Espírito Santo,
		torna os diáconos dóceis instrumentos da redenção de Cristo,
		ensinando-lhes a grandeza que consiste em se fazer pequenos.
		
		Maria,
		Mestra do serviço escondido, que com a tua vida normal e ordinária plena de amor,
		soubeste colaborar de maneira exemplar no plano salvífico de Deus,
		torna os diáconos servos bons e fiéis,
		ensinando-lhes a alegria de servir, na Igreja, com ardente amor.
		Amém.