download do arquivo no formato pdf
Dom Dadeus Grings
Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre
Os Atos dos Apóstolos bem como toda a História nos mostram a solicitude da Igreja para com os pobres. S. Paulo, após a conversão e após longa meditação sobre o Evangelho de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, foi encontrar-se com Pedro para não correr em vão. Viu aprovado seu projeto e autenticada sua visão de Cristianismo. Coincidia com o que o próprio Cristo ensinara e os Apóstolos pregavam. Mas acrescenta: "apenas nos recomendaram que nos lembrássemos dos pobres, o que era precisamente a minha intenção" (Gal 2,10). Em outras palavras, o cuidado para com os pobres é inerente ao Evangelho e não se pode ser bom cristão sem esta solicitude.
Não é necessário percorrer os Evangelhos para constatar como Jesus se comportava frente aos pobres. Fazia milagres em seu favor, curando doentes, ressuscitando mortos, multiplicando pães, transformando água em vinho... Lucas vê a chegada do Reino na realização da profecia de Isaias, que Jesus leu na sinagoga de Nazaré: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para por em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor (Is. 61, 1s)" (Lc 4, 18-19).
Além de anunciar o Evangelho, de batizar e formar comunidades cristãs, a Igreja, desde logo, se preocupou em atender as pessoas mais carentes e abandonadas: as viúvas e os órfãos. As cartas apostólicas são ricas de ensinamento neste sentido. São Tiago é veemente no apelo, a ponto de dizer que a fé sem as obras é morta (Tg 2,17).
S. Lucas refere-nos, nos Atos dos Apóstolos, a praxe cristã do atendimento às viúvas. Mas nota que o crescimento da comunidade exigia maior organização, não se podendo deixar esta tarefa à espontaneidade de alguns. "Como crescesse o número dos discípulos, houve queixa dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas teriam sido negligenciadas na distribuição diária" (At 6, 1).
O fato retrata uma dupla lição. Em primeiro lugar, a reclamação baseava-se numa decorrência evangélica, que assegurava um "direito às viúvas de serem atendidas pela Igreja. O mesmo poderíamos dizer das outras categorias de pobres, ao longo dos tempos, como doentes, analfabetos, abandonados...
S. Paulo, com sua consciência clara de ter que fazer algo em prol dos pobres, julga-se no dever de dar algumas normas. Manda honrar as viúvas "que realmente são viúvas" (1 Tim 5,3). Se tiverem filhos ou netos cabe a estes o dever da piedade filial, de cuidar dos pais. A viúva, que estiver desamparada, mas participa da comunidade, não passará fome. Se, ao invés, vive nos prazeres, não merece ser socorrida (cf. 1 Tim 5, 5-7).
Em segundo lugar, a má distribuição dos alimentos na comunidade primitiva, que gerou a reclamações justas dos gregos, mostra que é preciso organizar melhor o setor. Foi o fato de que o Espírito Santo se aproveitou para suscitar a instituição dos diáconos. A razão está muito clara. Não se via como, de um lado, eliminar esta praxe de socorrer as viúvas, porque ela é decorrência de prática do Evangelho de Jesus Cristo e, de outro lado, os Apóstolos não poderiam trair sua missão específica, para dedicar-se ao serviço das mesas. A solução deste problema veio novamente do Espírito Santo, que dirige a Igreja: escolheram "sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais encarregaram este ofício" (At 6,4). E logo após a escolha os Apóstolos "orando, impuseram-lhes as mãos" como gesto de ordenação ao Diaconado. Estavam criados os Diáconos.
A Igreja é sacramento de salvação da humanidade. Ela mesma é essencialmente ministerial. Cristo, como Salvador do mundo, escolheu discípulos, aos quais confiou o ministério, que lhe era próprio, como enviado do Pai: "como o Pai me enviou eu vos envio". E conclui esta missão com as palavras finais de Mateus: "Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, pois, ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo" (Mt 28, 17-20).
Os Apóstolos sentiram-se, desde Pentecostes, revestidos de um poder sacerdotal. Devem construir a Igreja de Cristo, não como uma simples associação de fiéis, nem como uma sociedade humana de pessoas que se converteram, mas como o próprio Corpo de Cristo, do qual Ele mesmo é a cabeça, o Espírito Santo a alma e os batizados os membros. Trata-se de um organismo vivo, animado pelo Espírito Santo. Por isso os Apóstolos têm a convicção, desde o começo, de que existe uma unidade interna da Igreja, que é a vida que circula em seus membros, - a ação do Espírito que anima, - bem maior do que a sociologia consegue constatar. No Corpo Místico estamos mais intimamente unidos que um membro do meu corpo está unido a mim, mesmo que isto não seja visível aos olhos. Vivemos da fé, pela força da graça divina.
Esta vida divina alimenta-se pelos Sacramentos e pela Palavra de Deus. Na base está não uma decisão pessoal, mas um nascimento novo, operado pelo batismo e assumido concretamente pela fé.
Mas esta unidade deve também, de alguma maneira, manifestar-se. Falamos de encarnação na sociedade, de inculturação nas diferentes culturas. Os Apóstolos, por isso, espalhando-se pelo mundo, na medida em que aconteciam os novos nascimentos, feitos pelo batismo, criavam comunidades às quais eles pessoalmente e, depois, seus sucessores supervisionavam. A palavra pegou e, aos poucos, estes supervisores foram sendo chamados por este nome: episcopein: bispos. São os sucessores dos Apóstolos, que devem garantir sacramentalmente, pelo sacramento da ordem espiscopal, do qual estão revestidos, pela unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade da Igreja, em qualquer parte em que se encontrar. São eles que a autenticarão em cada lugar e em todo o tempo.
Mas nós sabemos que a Igreja não é feita somente de unidade. Ela alberga uma enorme diversidade; não é somente santa mas também se dirige aos pecadores e os acolhe; não é só católica, ou seja, universal, mas também particular, em cada lugar e circunstância; não é só apostólica, mas também servida por inúmeros ministros e carismas, que o Espírito Santo suscita ao longo dos tempos. Por isso a Igreja, conduzida pelo Espírito Santo, logo percebeu que o ministério recebido de Cristo, não só se deveria exercer multiformemente, mas também deveria ser distribuído entre muitas pessoas, em graus diversos. A sociedade civil só bem mais tarde descobriu a importância desta divisão de poderes, colocando-a como pedestal para os governos democráticos no tripé do poder executivo, legislativo e judiciário, ao qual em muitas democracias se acrescenta o poder moderador.
A Igreja, tendo a Cruz como símbolo, sentiu a necessidade de conjugar e distinguir a dimensão horizontal da vertical. Tendo o Bispo como sucessor dos Apóstolos, deu-lhe auxiliares em duas ordens: os presbíteros, como pontífices entre Deus e os homens, ordenados para o ministério da Palavra, dos Sacramentos e da Caridade, como profeta, sacerdote, pastor e os diáconos, como servidores do Povo de Deus, ordenados para o ministério da promoção humana, para que, na comunidade cristã, ninguém passe fome, não só de pão, mas nem da Palavra de Deus e do devido atendimento fraterno. O Bispo atua com estas duas mãos para dirigir a Igreja de Cristo. Não só ordena presbíteros e diáconos, mas lhes confia também missões específicas, dentro dos respectivos ministérios, nas paróquias e nas diaconias; elabora com eles os planos de pastoral dentro das grandes diretrizes eclesiais.
As comunidades paroquiais receberam, ao longo dos tempos, uma sólida estrutura. Quando se fecharam demais sobre si mesmas, houve reação. Alguns chegaram ao extremo de pedir sua extinção. Mas sua base já era suficientemente firme, de modo que não vacilaram. Flexibilizaram-se as estruturas, adaptando-a aos novos tempos, marcados por novos e mais rápidos meios de comunicação e por uma civilização urbana, que mudou o conceito de vizinhança. Mas a figura do pároco continua central. Não porém absorvente. Calcou-se a participação, com a criação de um Conselho de pastoral e de um Conselho de economia. Relativizou-se a questão dos limites geográficos e se insistiu na abertura urbana. Ao clericalismo sucedeu uma maior ênfase aos leigos, cujo protagonismo se reconhece na Nova Evangelização, como presença marcante na construção do mundo cristão. As mulheres ocupam lugar de destaque em diversos ministérios e atuações. Numa palavra, a paróquia renovou-se e processou uma extraordinária inclusão de pessoas e de corresponsabilidade.
As diaconias, ao invés, aparecem como novidades. A Igreja primitiva conheceu-as florescentes. Mas as vicissitudes da Cristandade sufocaram-nas. No momento em que o Império Romano se tornou cristão, a missão da promoção humana, da inclusão dos pobres, da alfabetização, das pastorais sociais torna-se tarefa civil. A Igreja, na Idade Média, tinha no seu topo, o Papa e o Imperador. Houve, sem dúvida, tensões entre ambos, mas não eram questões entre Igreja e Estado como hoje, mas problemas internos da própria Igreja, entre duas autoridades legítimas, consideradas indispensáveis. O Sumo Pontífice se afigurava a Mãe solicita e o Imperador o Pai providente.
Com a Revolução Francesa deu-se a definitiva ruptura entre Igreja e Estado. O Imperador foi assassinado e substituído por pessoas que não tinham nada a ver com a Igreja, quando não lhe fossem visceralmente contrários, como em tantos países, que reeditaram, com não menos violência, as perseguições dos primeiros séculos dos pagãos contra os cristãos.
A partir dali, com a reparação da Igreja e do Estado, seria necessário não só repensar o Estado laico, com seu tríplice poder, dividido em executivo, legislativo e judiciário; com a força do exército e da polícia a garantir sua coesão; com uma constituição que determina seu regime de governo, com seu poder moderador para representar a nação inteira acima das facções, mas também seria preciso repensar a Igreja.
Num primeiro momento, com o afastamento do Imperador, a Igreja pareceu reduzir-se ao clero, ou seja, àquelas pessoas, que estavam e continuavam diretamente sob a ordem do Pontífice. Mas, neste momento, o clero, além dos Bispos, reduzia-se aos presbíteros. A Igreja tornara-se prevalentemente espiritual, calcando o elemento religioso. Sua ação se concentrava nas paróquias e era exercida pelos padres, como ministros ordenados.
A Igreja, tendo perdido todo o seu patrimônio, com que socorria os pobres, após as desapropriações resultantes da Revolução Francesa e da separação da Igreja e do Estado, recomeçou, timidamente, a reorganizar-se neste campo. Fala-se, a partir do século XVIII, de um catolicismo social. Surgiram muitas iniciativas em prol dos mais pobres, em todos os campos: as Santas Casas marcaram a cultura portuguesa; escolas, hospitais, asilos, uma série de obras sociais, congressos sociais, encontros e aprofundamentos da doutrina social da Igreja. O Papa Leão XIII foi o primeiro a lançar um documento oficial neste campo, com a encíclica "Rerum Novarum". Os tempos haviam mudado e se exigia da Igreja nova organização.
As obras sociais da Igreja começaram a multiplicar-se em toda parte. Numa homenagem ao Secretariado de Ação Social de Porto Alegre, em 2002 feita pela Câmara de Vereadores desta cidade, todos os partidos reconhecerem e enalteceram a atuação da Igreja neste campo. Comentava-se que 80% das obras sociais de Porto Alegre tinham por base a Igreja Católica; 5% as outras Igrejas e Religiões e 15% eram estatais, de nível local, estadual e federal.
Em outras palavras, a Igreja, no século XX, recuperou-se do susto que a Revolução Francesa lhe deu. Repensou sua natureza eclesial e procurou exprimi-la através de sua ação evangelizadora, cujas exigências irrenunciáveis reconheceu no Anúncio da Palavra de Deus, no testemunho da comunhão eclesial, no serviço e no diálogo, expressas, respectivamente, em termos bíblicos, por kerigma, koinonia, diaconia e diálogo.
Neste início do Terceiro Milênio, porém, começamos a sentir mais agudamente o mesmo problema que afligia os primeiros cristãos e que S. Lucas nos descreve ao narrar a instituição dos Diáconos. E ainda se agravou por três fatores: primeiro, a multiplicidade das ações sociais disparatadas, sem conexão, não visibilizam suficientemente o rosto misericordioso da Igreja, que deve retratar o Pai misericordioso... As iniciativas pululam, mas nem sempre tem a suficiente consistência, por isso, nem sempre conseguem dar um testemunho de Igreja. São mais iniciativas particulares de Institutos religiosos e de pessoas particulares que expressões de natureza eclesial.
Segundo, com o intuito de obter recursos públicos, muitas entidades, criadas pela Igreja para fins específicos de ajuda aos pobres, elaboraram estatutos próprios, tornando-se autônomas e independentes da Igreja. Foi o modo que o governo encontrou para esvaziar a ação social da Igreja, pulverizando suas entidades em inúmeras iniciativas particulares, sem expressão eclesial nenhuma.
Terceiro, muitos grupos leigos desviaram a finalidade das obras que administravam para fins particulares, adonando-se de patrimônio da Igreja. É uma situação semelhante à que S. Lucas registra nos Atos dos Apóstolos: houve discriminação entre os cristãos de origem judaica contra os de origem helênica, o que motivou a intervenção dos Apóstolos com a instituição dos Diáconos.
Por isso, hoje, estamos sentindo novamente a necessidade dos Diáconos, como ministros ordenados, para ir ao encontro do problema da ação social da Igreja. É solução bíblica. Eles são ordenados, isto é, recebem do próprio Deus, sacramentalmente, a missão de tornar eclesial a ação social, ou inversamente, de exprimir a obra da evangelização através do serviço da caridade.
Causa espécie a tentação da dicotonia, como se a evangelização fosse apenas o anúncio da Palavra e como se o serviço da caridade não fosse verdadeira evangelização. Também o serviço é uma exigência irrenunciável da fé e da evangelização.
Estabelecido o princípio de que o serviço, chamado diaconia, é essencial na Igreja, cabe organizá-lo para que funcione. E o fazemos através da instituição eclesial própria, que chamamos de diaconia. Sua figura central e protagonista é o diácono, membro da hierarquia da Igreja, ornado com o sacramento da Ordem no grau de Diaconado.
Para evitar um eventual conflito de competências não fazemos a diaconia coincidir com a paróquia, mas com a área pastoral, que, em muitas dioceses, se chamam foranias ou regiões pastorais. A área tem uma estrutura subsidiária da paróquia. Os padres da área reúnem-se uma vez por mês para pôr em comum suas atividades e planejar juntos sua pastoral. O coordenador da área, porém, não é apenas o coordenador da reunião dos padres, mas também o coordenador da pastoral da área, o que faz principalmente através das reuniões do conselho de pastoral da área.
Além deste trabalho das áreas e uma vez que elas já têm uma configuração conhecida, na sua extensão também se estabelecem as diaconias. Cada uma tem sua sede própria, nas dependências de alguma paróquia da área; uma denominação e padroeiro próprios para a identificar e um diácono nomeado para ela, com jurisdição ordinária, tanto para o ministério da caridade da diaconia, como para suas funções litúrgicas nas paróquias que compõem a diaconia.
A Diaconia, como uma dimensão essencial da Igreja, trabalhará em estreita ligação com as paróquias. Por isso os diáconos participam da reunião dos padres da área. Mas tem um conselho próprio, composto de um representante da dimensão social de cada paróquia e um representante de cada entidade da Igreja, que atua no plano social no seu território. Promove também assembléias periódicas, convidando todas as entidades sociais que trabalham de algum modo, na promoção humana, situadas na sua área. Neste campo não se temem concorrências. Tudo é trabalho voluntário. Quanto mais se fizer pelo homem, de onde quer que provenha, é bem vindo. É o grande campo do diálogo com as religiões e com a sociedade.
Cabe também à Diaconia representar a Igreja em todos os eventos em ambientes que cuidam do setor social, tanto governamentais como não-governamentais. É a Igreja inserida no mundo, atuando, de modo especial, em prol dos excluídos, dos carentes e dos necessitados.
Na organização da paróquia contemplamos três dimensões. Falamos de uma comunidade litúrgica, retratando a dimensão celebrativa; de uma comunidade de evangelização, expressando a dimensão profética; e de uma comunidade de caridade, para retratar a organização. Poderíamos pensar a primeira dimensão como paroquial porque sacerdotal; a segunda como missionária, porque contempla os não-fiéis indo ao seu encontro; e a terceira como diaconal, porque expressa a caridade para com os mais carentes. Mas isto empobreceria a comunidade paroquial e não daria adequada compreensão de toda a sua riqueza. De fato, a comunidade cristã deve ser, simultaneamente, celebrativa, anunciadora e acolhedora da Palavra de Deus e viver intensamente, entre todos os seus membros, a caridade. Neste último aspecto entendemos sua organização, que envolve muitas pessoas na ação e atividade paroquial, principalmente nos conselhos.
A diaconia vai além da dimensão interna da comunidade. Preocupa-se com as carências humanas. Olha, com a solicitude de Cristo, que a Igreja herdou, para os pobres e desvalidos. Seu trabalho é específico. É ir ao encontro daqueles que não conseguem chegar até à comunidade ou que, de alguma maneira, necessitam de ajuda. É o coração de Cristo e por isso da Igreja, que palpita em prol dos necessitados. Retrata a atitude do próprio Cristo, que sentiu compaixão do povo.
Esta caridade, para não ficar apenas no afeto, deve ser organizada e planejada. Implica um ver a realidade, o que envolve uma busca incessante dos carentes e uma pesquisa contínua para descobrir as carências humanas que, nem sempre, vêm à consciência. Depois leva a julgar esta realidade à luz da compaixão de Cristo para com o Povo. E por fim impele a agir para preencher as lacunas constatadas.
As duas entidades eclesiais: a paróquia, como comunidade de caridade, e a diaconia, como serviço aos pobres, mostram a natureza e as dimensões de amor cristão, ou seja, do grande mandamento do amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como Cristo o amou. A paróquia, como comunidade de caridade, garante que o amor cristão não se reduz à ajuda aos carentes nem se expressa adequadamente pelo serviço que se presta aos outros. Amar é querer o bem que Cristo quer ao próximo. É convivência fraterna. Exige organização para ser visualizada e se apresenta como corpo coeso. Daí os conselhos paroquiais e tudo o que envolve o amor recíproco.
A diaconia, por sua vez, como serviço aos pobres, mostra que um amor que se fecha sobre os "seus", um querer bem apenas aos que querem bem, uma comunidade fechada sobre si mesma, ainda não é plenamente cristã. Seu amor não está completo. No amor cristão sempre existe um além, que contempla os mais necessitados, quer de saúde, quer de consolo, quer de alimento...
Numa palavra, a caridade dá sentido e dinâmica à obra social e inspira todas as ações em prol do próximo, eliminando o abismo entre os seres humanos. Nossas diaconias receberam, por incumbência especial, colocar em prática o documento da CNBB de 2002: "Exigências evangélicas e éticas para a superação da miséria e da fome". S. Lucas faz questão de frisar que serviço e pregação do Evangelho não só não se opõem, mas se completam mutuamente. Por isso os primeiros diáconos logo se destacaram no anúncio da Boa Nova e a Igreja, até hoje, conserva o costume litúrgico de confiar nos diáconos a proclamação do Evangelho nas Celebrações. O serviço é evangelização. Por isso deve ter motivação cristã. Nossa ação social não é apenas social. É, antes e acima de tudo, caridade, que é o vínculo da perfeição. Por ela não só se ajuda o próximo carente, mas cada um se eleva e enriquece no plano das virtudes. Quem ama cumpriu a Lei de Deus e conhece Deus, porque Deus é Amor.
A Diaconia e a Paróquia exprimem pois, cada uma à sua maneira, a caridade cristã. Por isso ambas trabalham em íntima sintonia. Mas não se identificam, porque a dimensão da caridade, que vivenciam, é diferente e específica em cada uma. Não por nada o sacerdote está à frente da paróquia e o diácono à frente da diaconia, ambos com um grau do sacramento da ordem, ou seja, com uma graça sacramental, diferente mas complementar.
Já referimos que a paróquia é uma comunidade de fé, de celebração e de caridade, correspondendo, respectivamente à tríplice missão presbiteral de profeta, sacerdote e coordenador ou rei. A diaconia tem igualmente uma tríplice missão, baseada na tríplice graça sacramental, conferida ao diácono "no serviço da liturgia, da palavra e da caridade" (LG 29).
a) Se destacamos o ministério da caridade do diácono é para dar o sentido específico à sua atuação eclesial e sacramental. Mas agora completamos: a caridade, nem na diaconia nem em qualquer outra parte, persiste sem a participação litúrgica e sacramental e sem o contínuo aprofundamento da Palavra de Deus. Não se poderia pois pensar uma diaconia nem a vida de um diácono sem estas três dimensões, que ali adquirem um sentido peculiar e mais eclesial, porque sacramental.
A diaconia não pode atuar sem a liturgia. Também ela é "o exercício da função sacerdotal de Cristo, cuja eficácia nenhuma outra ação da Igreja iguala" (Conc. Vat. II Sacrossanctum Concilium 7). O diácono tem uma participação qualificada no serviço do altar. Ali age como ministro para a santificação da comunidade. Não realiza o Sacrifício eucarístico, mas representa o povo fiel levando-o a unir sua vida à oferta do próprio Cristo.
Além das funções litúrgicas, que são explicitamente confiadas aos Díáconos nas paróquias da jurisdição de sua diaconia, como sua atuação em algumas partes da Missa, na administração dos sacramentos do batismo e do matrimônio, sua presença nas paróquias e na liturgia é essencial para seu ministério na diaconia. Deve levar todo o seu serviço para o altar e dali buscar orientação e força para prossegui-lo. A diaconia não pode reduzir-se à ação social. Deve ser toda ela pervadida pela força sacramental e, por isso, eclesial. Quem recebe ajuda da Igreja não pode não se aproximar de Deus. Seria injusto e desrespeitoso, por parte da Igreja, dar às pessoas bens temporais, sem acenar aos bens eternos; proporcionar-lhes valores, humanos esquecendo ou omitindo de dar-lhes os valores divinos, que estão na base de todos os demais valores. Por isso uma obra social, sem uma correspondente oração, sem elevar o espírito a Deus, é como cuidar de um corpo sem alma.
b) A missão precípua da Igreja e, por isso, tanto da paróquia como da diaconia, é anunciar aos homens a Boa Nova da Salvação. No momento da ordenação, o Diácono recebe o livro dos Evangelhos, com a exortação: "Recebe o Evangelho de Cristo, da qual foste constituído mensageiro; transforma em fé viva o que leres, ensina aquilo que creres e procura realizar o que ensinares". Na Evangelii Nuntiandi n. 14, o Papa Paulo VI afirma que a Igreja existe para evangelizar, ou seja, para pregar e ensinar.
A Diaconia deve pois caracterizar-se pela pregação da Palavra. Sem ela as "distribuições diárias" logo se tornariam rotina e perderiam sua mística. Cristo, antes de multiplicar os pães, falou longamente ao povo e, antes de distribui-los, deu graças a Deus e os abençoou. Rezou. É óbvio: antes de passar à prática é preciso anunciar as maravilhas de Deus. Temos uma Boa Nova a ser proclamada e à sua luz manifestaremos, dentro das diaconias, a caridade de Cristo e da Igreja.
O Diácono anuncia, como o próprio Cristo, o Evangelho com autoridade. Isto significa: pela força sacramental da Ordem e pelo vigor do testemunho de quem se identifica com esta Palavra: transmite o que ele mesmo recebeu, experimentou e transformou. Ele é testemunho mais que mestre. O documento de Santo Domingo mostra o anseio geral: "queremos reconhecer nossos diáconos mais pelo que são do que pelo que fazem" (77).
c) O Concílio Vaticano II diz que o diácono se configura a Cristo Servo, a quem serve, dedicando-se às tarefas da caridade e administração" (LG 29). Na ordenação diaconal ressoam as graves e exortadoras palavras: "Resplandeçam nele as virtudes evangélicas: o amor sincero, a solicitude para com os enfermos e os pobres, a autoridade discreta, a simplicidade de coração e uma vida segundo o Espírito. Brilhem em sua conduta os vossos mandamentos para que o exemplo de sua vida desperte e imitação do vosso povo e, guiando-se por uma consciência pura, permaneça firme e estável no Cristo".
Em outras palavras, o Diácono deve imprimir, na sua Diaconia, a presença viva da caridade de Cristo e da Igreja. A "Didascalia Apostolorum" apresenta os diáconos como "os ouvidos, a boca, o coração e a alma do Bispo". Cabe-lhe, pois, auscultar as aspirações e necessidades dos pobres e levar-lhes o consolo e a ajuda do pastor. A diaconia é o ambiente em que o Diácono, coadjuvado por seu conselho e auxiliares, exerce seu ministério no cuidado dos doentes, dos necessitados e de todos os que não tem vez e nem voz. Será o porta-voz dos esquecidos e marginalizados.
Além da ação diretamente caritativa, cabe também à Diaconia a administração dos bens e das obras de caridade da Igreja; a promoção e sustentação das atividades apostólicas dos leigos, promovendo encontros de diálogo e de comunhão entre pessoas e grupos; Incentivar a pastoral da saúde e a pastoral social; superar o individualismo e isolamento... A IV Assembléia episcopal Latino-americana de Santo Domingo (n.77) traça o perfil: "Os diáconos colaborem na animação dos serviços na Igreja, detectando e promovendo líderes, estimulando a corresponsabilidade de todos para uma cultura da reconciliação e solidariedade".
Charles Péguy dizia que tudo começa na mística e termina na política. Queria, com isto, advertir sobre o perigo do esclerosamento e da rotina. Tendo claro o perfil da Diaconia, é preciso formar diáconos para ela. A formação deve ter um objetivo claro. Implica a busca de uma espiritualidade que perdure e permeie todo o ministério, de modo a torná-lo não apenas um conjunto de tarefas e funções mas um testemunho de vida.
Falamos muito da formação intelectual, tanto dos candidatos ao Presbiterado como ao Diaconado. Elaboramos um currículo mínimo e etapas a serem vencidas. Mas, mais importante e fundamental, é a formação espiritual. A Congregação para a Educação católica emanou, em 1998, as "Normas Fundamentais para a Formação dos Diáconos Permanentes" e a CNBB, em 2002 aprovou para o Brasil as orientações correspondentes. No n. 71 o Documento romano apresenta o grande horizonte desta formação, baseada na experiência da fé: "o reconhecimento da ação do Espírito, audição e meditação da Palavra de Deus, o gosto da oração, o empenho no serviço aos irmãos, a disponibilidade para o sacrifício, o sentido da Igreja, o zelo apostólico".
O Diácono deve passar esta formação, de alguma forma, para toda a sua diaconia: para os conselheiros e todos os voluntários e auxiliares. A palavra chave da vida espiritual em todo o ambiente da Diaconia é "serviço". A santidade que se há de cultivar será a do serviço generoso e fiel a Deus e aos homens, destacando os mais pobres e os que mais sofrem. O empenho ascético levará a adquirir as virtudes exigidas para este ministério.
A mística está na imitação de Cristo. O ministério diaconal, exatamente por se tratar de um sacramento instituído pelo Salvador, para ir ao encontro dos mais necessitados, não é apenas uma ação humana de filantropia, nem o exercício de algumas atividades pastorais dentro da perspectiva de um funcionalismo religioso, mas um sinal sensível e eficaz da diaconia de Cristo.
Não é preciso dizer, por beirar o óbvio, que o diácono e toda a equipe da Diaconia serão assíduos na participação da Eucaristia, como fonte e ápice da vida cristã e, particularmente, da vida ministerial; que eles nutrirão uma profunda espiritualidade bíblica, tendo o Evangelho como livro de cabeceira; que se dedicarão, com afinco, à oração, principalmente à Liturgia das Horas; que farão um retiro anual; que se inspirarão especialmente no exemplo de Maria, cuja devoção nutrirão e passarão para toda a Diaconia; que procurarão abrir-se cada vez mais à ação do Espírito Santo; que não deixarão de estudar teologia e pastoral, sempre abertos às orientações da Igreja e às exigências dos novos tempos.