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Ministério da Caridade e Família


Indaiatuba/Itaici-SP, 19 de fevereiro de 2003

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Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, SJ
Arcebispo de Mariana-MG


Introdução

Meus queridos irmãos e irmãs, meu caro Diácono José Durán y Durán, aqui temos os membros dessa Celebração unidos: bispos, padres, diáconos e outros que vão nos acompanhando. Há aqui uma peculiaridade: podermos contar com a presença do casal: o diácono e sua esposa.

Quantas vezes entrei nesta sala para muitas reuniões, mas esta, sem dúvida, é especial. Esta Assembléia retrata a vida do diácono: sua vida conjugal e familiar.

Temos à nossa frente todas as iniciativas que vão sendo introduzidas e, sem dúvida, com frutos sobre a diaconia; e, naturalmente, a experiência de cada um vai abrindo horizontes novos. É um intercâmbio muito grande de vivências. Começo saudando a todos: quantos amigos temos aqui, que a gente não vê há muito tempo.

I - A História

Por outro lado, é uma alegria perceber que estamos no III Congresso Nacional de Diáconos. É um caminho cheio de coisas boas: a bela história do diaconato no Brasil. E lembremo-nos dos primeiros. Entre nós, creio que há muitos primeiros. Quero recordar a pessoa de Dom Romeu Alberti, que conheci tão bem, e que era realmente uma pessoa entusiasmada pela idéia do diaconado na Igreja.

Saúdo também aqueles que há mais tempo são diáconos.

Estava conversando ontem com o diác. Franco: São 30 anos, não Franco? Acho que poucos têm 30 anos de diaconado, aqui no Brasil.

Essa saudação é para cada um lembrar um pouco a sua própria história. Quando alguém fala, isso suscita lembranças. Santo Agostinho nos ensinava muito a rezar com a memória. Creio que, quando a gente se afasta um pouco do cotidiano, das atribuições de todo momento, parece que a memória se abre e a gente vai recuperando fatos, graças de Deus.

Imaginem se pudéssemos fazer um elenco, ainda que aproximativo, de todos os benefícios espirituais que a Igreja do Brasil vem recebendo pela vida e pelo exercício da missão dos diáconos.

É realmente difícil escrever essa história, mas ela está escondida no coração de Deus.

Agradecemos muito porque Deus suscitou entre nós o diaconado e também pelos exemplos de vida dedicada inclusive de muitos que não têm a oportunidade de um encontro como este. Eles estão aí, levando à frente a sua missão, fazendo acontecer a presença de Cristo, de um modo diaconal, no meio das comunidades.

Quero agradecer também a Nossa Senhora, porque uma das marcas do diaconado é essa capacidade de assumir o exemplo de Maria, o "sim" de Maria como grande inspiração deste que é o serviço cotidiano das várias funções do diácono.

Queria também dizer que a Igreja no Brasil, inclusive nesta sala de plenário, veio aprendendo a valorizar o diaconado. Gostaríamos de ter aqui a lembrança que para os bispos, para os padres, para os leigos, para os religiosos foi um aprendizado, porque muitos vivíamos sem conhecer o exercício do diaconado.

Foi um caminho que toda a Igreja no Brasil, veio fazendo. Hoje, pode-se dizer que é um caminho percorrido em muitas, na maioria, sem dúvida, das dioceses. Por isso, este é também um ato de agradecimento a Deus, feito de memória, de lembrança de pessoas, de conquistas, de documentos da Igreja. Tudo isso faz parte da compreensão desse Ministério da caridade.

Vejo também grandes necessidades ainda hoje:

  • A primeira é a de aprimorarmos as escolas diaconais. Quero mostrar apenas um aspecto. Por exemplo: na Arquidiocese de Mariana, somos um arquipélago. Não há uma concentração urbana. A maior cidade tem 100.000 habitantes. Nós temos 1.100,000. São 132 paróquias separadas. Como fazer para trazer de longe as pessoas a uma cidade para a escola? Temos que inventar outro jeito. Talvez por isso ainda não temos um número tão grande de diáconos, porque não foi possível organizar bem essa preparação concentrada. Mas, sem dúvida, vão-se criando formas alternativas.
  • Creio que precisaríamos encontrar formas que facilitem, como escolas sazonais, e que pudéssemos reunir grupos de pessoas que não têm muito tempo para sair do trabalho. Poderíamos ter tempos de concentrações de formação diaconal, além daquelas que já existem mais estruturadas. Esse é um primeiro aspecto que acho que ainda limita a multiplicação numérica de diáconos, em certos lugares. Em outros não há esse problema. São concentrações urbanas muito bem servidas de cursos, como, por exemplo, Porto Alegre, Belo Horizonte etc.
  • A segunda coisa é o meio de caminharmos mais procurando compreender o que Deus pede ao diácono hoje na Igreja do Brasil. Como deve o diácono viver plenamente a sua vocação, a sua missão, no nível pessoal, familiar, comunitário? Serão, por exemplo, as "diaconias", ou serão outros tipos de atividade? Tudo isso está, como nos dizia ontem Dom Dadeus, em período de lançamento, de experimentação. Creio que, pouco a pouco, vamos chegando a talvez até um pluralismo de formas, em que o diaconato possa se realizar bem aqui no Brasil.

Em vez de seguir um esquema lógico, faço a opção por seguir a lógica do coração. Desejo ir apresentando alguns pontos de referência para nos situarmos mais uma vez diante dessa grande realidade que é o diaconado.

II - A santidade da Igreja

O primeiro olhar se volta para quem?

Para Jesus Cristo. Não existe diaconato, nem sacerdócio, nem episcopado, nem vida religiosa, nem vida batismal, sem Jesus Cristo.

Toda a luz vem do Cristo. Olhar para Jesus Cristo. Ele é o Evangelho do Pai. Entrou neste mundo trazendo a mensagem de Vida. Ele idealizou a Igreja. Ele chamou homens e mulheres para serem Igreja. Ele continua chamando e enviando. Então essa é a grande presença diante dos olhos: Jesus Cristo.

Sempre que nos reunimos, Ele está presente. Precisamos reavivar esta presença, porque toda a nossa vida cristã vem de Jesus Cristo, que nos revela o Projeto salvífico do Pai.

Um texto que rezamos, na Liturgia das Horas, Filipenses 2,6, revela a "Kenosis", o Mistério da Cruz, a Salvação que é feita no maior ato de amor de toda a História. Também a carta aos Efésios (Ef 1,1), onde se diz: "Bendito seja Deus, o Pai de NSJC". É a visão trinitária da nossa vida e da nossa fé. Bendito seja Deus o Pai de NSJC que nos chamou, nos escolheu para sermos santos, imaculados, para sermos filhos adotivos, remidos no sangue, conhecedores do mistério de Deus, formando esse Israel novo que se abre na universalidade do Projeto de Deus. Nele se inserem a presença salvífica do Cristo, e a ação da Igreja no mundo. Aí nasce nossa compreensão da santidade.

Ainda hoje, Dom Diógenes nos falava que somos todos chamados à Santidade. Quer dizer, essa proximidade amiga com Deus. Somos chamados a ser aqueles em que Deus vive, em que Deus age. Há uma ligação profunda, a "Koinonia", a comunhão com o próprio Deus, o Pai, o Filho, e o Espírito Santo. Isso se aplica a todos.

Precisamos ver também como, na seqüência desse Projeto, Cristo quer que nós tenhamos parte na sua missão. Dentro desse Projeto e dessa missão é que surge a Igreja de Jesus Cristo.

O que é Igreja?

É a convocação de homens e mulheres que vão acreditar no Cristo e vão seguir a Sua Doutrina, vão a Ele se configurar e vão por ele ser lançados para dentro do mundo. Já não são do mundo, mas vão ser lançados para dentro do mundo, para a vida do mundo, "pro mundi vita".

Este é o Projeto de Deus que nos salva, como diz Santo Tomás de Aquino, "humanamente", quer dizer, no tempo, no modo humano de falar, de conviver, de sofrer. A sabedoria de Santo Tomás de Aquino aparece numa palavra: Deus nos salva "humanamente", partilhando a História da humanidade. A Igreja continua a missão de Cristo. Homens e mulheres com a sua história, o seu drama, a sua esperança; vão ser os "proclamadores do Reino". Vale aqui lembrar a grande e belíssima prece que nos acompanha a vida toda: "Venha a nós o Vosso Reino".

Como deveríamos valorizar, sempre mais, a oração do Pai Nosso! "Venha a nós o Vosso Reino". A Igreja está a serviço do Reino. E esse Reino para nós é um Reino que acontece neste mundo. E aí está o elemento quase que, eu diria, de realismo cotidiano.

Qual é esse mundo? É o mundo da guerra do Iraque, é o mundo das desigualdades sociais, é o mundo dos seqüestros, é o mundo em que a vida vai sendo desprezada. É o mundo do ódio, o mundo da inveja, é o mundo da vingança, é o mundo da fome, é o mundo da miséria, é o mundo esquecido de Deus. É claro que não é só isso. É também o mundo do amor, da ternura, do carinho, da doação, do sacrifício.

E é nesse mundo que entra, humanamente, o próprio Deus, e faz parte da vida humana. Vem trazer o Reino, o "reinado", o Projeto de Deus, o programa de Deus, a promessa de Deus, o sonho de Deus, a Vontade de Deus que é a Vida plena.

Essa vida é justiça, fraternidade, amor, perdão, reconciliação, paz, vida plena, vida para além, a felicidade. Esse é o Reino de Deus. É Deus que vem, realmente, estar dentro da nossa vida e da nossa História. É Deus que arma a sua tenda entre nós.

Todo o Mistério da Salvação está ligado com esse anúncio, a proclamação do Reino.

Podemos então ver como o desempenho do Cristo, na sua missão salvífica se faz no relacionamento humano em que ele vai despertando interesse das pessoas; e convidando. Por exemplo: André que chama Pedro, João e Tiago, Mateus. Conhecemos esse dinamismo do chamado pessoal, chamado que é para todos que formam essa Igreja; Igreja, que é sinal do Reino; Sinal, antecipação, realização progressiva desse Reino na vida das pessoas.

O modo de viver é já sal, é já luz, é já fermento dentro da humanidade. E aí nós encontramos o grande mistério da Igreja: Igreja orante, Igreja oferente, Igreja que atua, Igreja Missionária. Aí está a realidade de uma salvação que se faz para o mundo inteiro em Cristo e na Igreja. Não há ninguém que se salve sem que a misericórdia de Deus una a essa própria ação misericordiosa o dom do Cristo e o dom da Igreja.

A Igreja, pela sua oferta, Rm 12,1, faz de si mesma um sacrifício agradável a Deus. Ela estende, como Cristo, a sua ação salvífica sobre a humanidade. A Igreja é uma obra de amor.

Amor de Deus à humanidade. E nós somos chamados a partilhar esse amor.

Toda pessoa humana é chamada, como cristão, pelo batismo, a partilhar este amor. Pela força do Espírito é chamada a entrar cada vez mais na imitação do Cristo, na configuração com Cristo. Pensem, na mãe de família que toma conta de uma criança deficiente. Lembro-me de minha tia, que tinha só uma filhinha. Ficou viúva; a menina não falava, não andava, não via. Dedicou a vida inteira a essa criança. Isso é santidade.

Então, é importante perceber que a santidade é esse modo de Deus ser em nós, pela força do Espírito, que vai nos fazendo ter as virtudes do Cristo: o amor, a paciência, a dedicação, o devotamento.

É preciso ver hoje esse mundo que está aí, que é o mundo das nossas comunidades. Quanta gente santa que está aí!

Lembro-me dos pais de um sacerdote, lá em Mercês, MG. A mãe teve um problema circulatório, há mais de 20 anos. O pai, operário, trabalhando dia e noite, tomava conta dela sozinho e dos 10 filhos. Quando fizeram 50 anos de casados, o encontrei na sacristia. Ele me dizia: "Dom Luciano, vim aqui só agradecer que Deus me deu vida para cuidar de minha esposa, 20 anos entrevada e dos meus filhos que cresceram". Ele já foi pro céu, questão de poucos meses. É um santo... A santidade está aí no meio de nós. O mistério da santidade, a maravilha da santidade é a marca da Igreja. Una e Santa!

Se percebemos este apelo, vamos compreender melhor também a nossa vocação; o chamado que atinge jovens e pessoas de idade. Quem de nós não é capaz de se lembrar, assim de repente, de muitos e muitos casos de santidade no meio do povo?

Lembro-me de minha mãe, que passou por três operações na cabeça, devido a tumor cerebral. Após a segunda operação fui visitá-la. Entrei no quarto de madrugada, vindo de SP para o Rio. Abri a porta, ela não estava na cama. Estava de joelhos e de braços abertos, com o terço na mão e a cabeça toda enfaixada da operação:

- "Minha mãe, o que está fazendo? Precisa descansar!"

- "Meu filho, não estou rezando para mim, não. Estou rezando pelos outros".

A santidade está no meio do povo. Encontramos pessoas santas todos os dias. Então, o importante é compreender o ministério ordenado como serviço a essa realidade do Espírito Santo, que age na sua Igreja. Uma Igreja que é santa pelas pessoas que vão respondendo a Deus e vivendo na graça de Deus.

Lembro-me de uma menina que encontrei no ônibus, em SP. Estava chovendo. Ela disse: "O Senhor se lembra de mim?". Disse: "não, não me lembro não, filha". "Mas, foi o Senhor que me crismou". Imaginem, só no ano passado foram 15.000 crismas. Como é que eu vou lembrar? Então ela disse: "O Senhor não se lembra de mim?". Disse: "não, não me lembro". "O senhor não lembra o que o senhor falou na Crisma?". "Não, também não me lembro". "O senhor falou assim: que quem recebe o Espírito Santo vai ter uma força para não pecar nunca mais. Olha, eu nunca mais pequei, viu. Tchau"! E saiu do ônibus.

Se a gente entendesse isso, que a vida cristã é uma vida de santidade no mundo... Esse é o apelo de Deus. Por isso, somos sinal do Reino, vivendo na graça de Deus no "mundão" que está aí, com todas aquelas características negativas que conhecemos. São expressões da ação interna do Espírito, toda a maravilha da conversão interior, essa vivência que faz as pessoas terem virtudes exímias. Imaginemos, por exemplo, uma Madre Tereza, uma Irmã Dulce, mais perto de nós.

E Deus não vai fazer milagres para nos preservar dos efeitos negativos deste mundo perverso. Ele vai nos dar força, como Jesus Cristo nos ensina, para enfrentar estas dificuldades e superá-las.

III - Ministério ordenado: diaconado

De modo que é esta santidade que está aí. Agora, dentro desse universo, que é aquele no qual a gente se insere, o que caracteriza o diácono, o presbítero e o bispo? Vejamos o texto de Mateus (Mt 9,35). É o texto que inspira a conversão de Santo Inácio, e que serve de inspiração à "Pastores dabo vobis". O Cristo caminha de cidade em cidade. Percorria todos os povoados, ensinando em suas sinagogas, pregando a Boa Notícia do Reino, curando todo o tipo de doença e enfermidade. Vendo as multidões, Jesus teve compaixão, porque estavam cansadas e abatidas como ovelhas que não têm pastor.

E no meio de tudo isso há um projeto de Deus. Quer dizer, o Cristo, fundando a sua Igreja, teve uma solicitude pelos seus discípulos e quis que eles fossem a presença visível de alguém que encarna essa solicitude. É a atenção pastoral.

Assim, o pastor é aquele que continua visivelmente a presença do Cristo, e por isso mesmo, o amor do Cristo na solicitude pelos irmãos e irmãs. Assim, quando nós falamos de uma vocação como a do diácono e voltamos o olhar para o Cristo e o projeto histórico de salvação, temos que ir um pouco adiante e perceber no núcleo desse projeto uma vontade típica, própria, original do Cristo que é de convocar pessoas que se dedicam como pastores visíveis a esses discípulos, para que eles tenham a experiência desse afeto pastoral.

É o que o texto chama de "compaixão". Uma palavra hoje tão valorizada: a compaixão. Cristo amou. O pastoreio é um ato de amor. Cristo amou aquele povo, aquela multidão, como amou a Samaritana, como amou Zaqueu, Nicodemos, o Ceguinho (Jo 9), etc. A atitude do Cristo Pastor se expressa em vários níveis: Em primeiro lugar para aqueles que ele chama para estar com Ele, aos quais Ele vai dar a continuação dessa missão. Depois os seus discípulos, homens e mulheres que estão cotidianamente ouvindo a sua palavra e, por meio deles, a todos: "Ide ao mundo inteiro".

O centro da ação pastoral do Cristo é o amor, o coração de Cristo. Ele quis que esse amor de pastor passasse para nós também.

É aí que está o Ministério da Caridade. Não é uma obra!... É um jeito de amar.

IV - Ministério da Caridade

Você pode ficar numa cama, entrevado. O Ministério da Caridade não só é "organizar". Claro que é também. Não estou negando isso. Mas o fundamental, não é a coordenação de serviços numa paróquia ou numa diaconia. Isso é decorrência. E é também um ato de amor, porque quem se organiza serve melhor. Mas o que é nuclear, o que faz que a pessoa ordenada, responda livremente à ordenação, é configurar-se ao Coração do Cristo. É aceitar que vai viver neste mundo do melhor modo possível a compaixão de Cristo.

Acabamos de rezar, na oração eucarística de hoje, vocês se lembram: "Dai-nos, Senhor, olhos para ver as necessidades e sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs. Inspirai-nos palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos. Fazei que, a exemplo do Cristo e seguindo seu mandamento, nos empenhamos lealmente no serviço a eles".

Então, o que Deus pede de alguém que Ele chama para esse Ministério ordenado é que o Cristo em nós continue a sua vida de pastor. E isso não é um gesto externo, apenas. Mas é uma vivência que acontece pela ação do Espírito dentro da pessoa que ela vai deixar, cada vez mais de ser centro de sua vida, para voltar-se ao bem dos outros.

Quando Santo Inácio se converte, ao ler a vida do Cristo e o exemplo de Francisco, de Domingos, faz só essa pergunta: "Meu Deus, e eu, como que eu posso ajudar? Como que eu posso ajudar ao Reino? O que é que posso fazer pelo Reino, para que esse projeto de Deus se realize?" E aí ele vai sentindo a vocação, também, ao ministério ordenado. Deixa tudo, troca de roupa, fica com andrajos...

O que acho fundamental em toda reflexão sobre o "Ministério da Caridade' é o coração, é Mt. 9,35, é o Cristo que caminha porque ama a multidão. E aí, o que é que Ele faz? Jesus diz aos discípulos: "a colheita é grande, os trabalhadores, poucos. Peçam...".

São Paulo se dirige aos cristãos desejando que o Cristo possa habitar "no coração de vocês pela fé. Enraizados, alicerçados no amor, vocês se tornarão capazes de compreender qual é a largura, o comprimento, a altura, a profundidade de conhecer o amor de Cristo, que supera qualquer conhecimento, para que fiquem repletos de toda a plenitude de Deus". E para que não haja equívoco no modo de compreender o que é esse amor, na 1ª Carta aos Coríntios 9,19, diz que se fez "servo de todos". Com os fracos tornei-me fraco para ganhar os fracos. A intenção salvífica: "tornei-me fraco a fim de ganhar os fracos; tornei-me tudo para todos, a fim de salvar alguns a qualquer custo. Tudo isso faço por causa do Evangelho". E os outros textos conhecemos. A caridade do Cristo nos impulsiona.

Então, no Ministério da Caridade não são as obras, necessariamente, que ocupam, digamos, o primeiro lugar na nossa vida. A mãe que ama faz todo o bem a seus filhos. Mas é o amor que motiva a mãe. É o amor, a caridade que nos leva às obras.

Assim também o pastor fará grande bem na sua vida, segundo as suas possibilidades de saúde, de criatividade, de organização. O diácono não precisa ser um super-coordenador de ações. Ele tem que ser capaz de transmitir este amor de pastor, no meio do povo, em contato muito cotidiano com esse povo que está aí. Esse amor é que faz o diácono. O diácono é alguém capaz de amar o povo, de fazer gratuitamente o bem, de entender que o bem se faz bem, de que a maior retribuição é a felicidade do outro.

V - A compaixão

Então, é todo um modo da Caridade do Cristo que está aí em questão: a compaixão. Ela é a raiz do diaconato, do presbiterado e do episcopado: "ajudar". "Servir" é uma palavra bíblica insubstituível, mas, no nosso modo de falar, dizemos "ajudar", porque "servir" tem um pouquinho de servilismo, também de salário. Ajudar não tem salário. Se quer ajudar, faz o que você pode, como aquela senhora que vai à festa de casamento e diz: "Eu vou ficar na cozinha, eu vou ajudar um pouco". O que que ela vai ganhar? Não vai ganhar nada. Vai ajudar e fica feliz.

É preciso tomar consciência de que o ministro ordenado veio "ajudar".

Vejam, tivemos inundações agora, em muitos lugares, vocês sabem. Aqui até em Campinas. Mas em Mariana nunca tinha visto uma chuva, uma lama, uma coisa absurda: mais de 400 casas vão ter que ser refeitas. E a lama entrou poderosa dentro das casas. Aquela misturada de móveis, de roupa, de sujeira, de tudo. Entrava pelas casas adentro e víamos ali o pessoal entrando na lama para ajudar os outros.

Lembro-me que coisa bonita, encontrei um homem que estava olhando; olhar parado. Da casa dele já tinham tirado a lama e ele dizia: "Olha, nunca pensei que minha casa, e tudo o que tenho, fosse ficar tão cheio de lama. O Senhor sabe, ouvia falar de inundação e dizia assim: "que pena! Coitados!" Mas nunca fazia nada, não. Agora, que eu vi aquele grupão de gente entrar na minha casa, homens, mulheres, pra tirar um móvel, um quadro, uma panela, limpar, lavar... Digo para o Senhor: se acontecer outra vez, eu vou ser o primeiro a tirar lama da casa dos outros".

Vejam a mudança do coração! Se a gente perceber, somos chamados para "tirar lama" da casa dos outros. Somos chamados para "ajudar". Você não pode dizer: "Quanto que eu ganho pra tirar lama da sua casa". Nem se pensa nisso. É uma necessidade e uma atenção. É um socorro feito de generosidade.

Então, estamos nos antípodas de uma sociedade comercializada. Estamos na afirmação do "ágape", da gratuidade do amor. E aí que está: o ministério ordenado é uma visibilização da gratuidade do amor do Cristo Pastor. E por isso que ele é efusivo, ele tem muitas aplicações, muitos desdobramentos. Não se pode reticular demais as expressões de serviço da caridade, porque elas brotam do amor. E o amor tem finezas, descobertas, originalidades, que não estão programadas.

Quanta coisa que a gente pode fazer que nasce do amor. Acho que a gente poderia examinar e desenvolver mais a mística do diaconato na vivência da compaixão do Cristo pelo povo. Quer dizer, do amor profundo à pessoa humana, de um amor que quer "ajudar", servir, fazer o bem. E, sente-se feliz fazendo o bem. Sente-se feliz, dando tudo o que pode para o outro.

Dom Décio Pereira, que Deus chamou a 05/02/2003 lembra um fato lindo no livrinho que escreveu. Diz o seguinte: que numa dessas situações de calamidade, muitos ficaram em necessidade, frio e desabrigados. Uma senhora foi para casa, abriu o armário, encontrou lá uma coberta, e pensou: "Meu Deus, eu vou dormir com essa coberta no armário. Tem gente aí fora que não tem nada. Estão todos passando dificuldade". Pegou a coberta e saiu pra rua, pra levar para alguém. Encontrou um homem embaixo de um papelão e disse: "Seu moço, estou trazendo pra você aqui uma coberta. Você aceita?". Ele disse: "Ô, moça aceito, mas não dá pra mim não. Dá pra aquele outro que não tem nem papelão". Que bonita história de Dom Décio. É bonita porque mostra um espírito de doação e de desapego, de interesse pelo outro: "Dá praquele lá que não tem nem papelão".

Creio que é isso que se passa dentro do coração do diácono. É uma gratuidade que vem de Deus, que está significada na vida do Cristo, que Ele derrama no coração do seu ministro. O desejo de fazer o bem como um pastor.

Vemos que as atribuições têm que existir numa Igreja organizada. É necessário. O importante não é tanto o que você faz, mas como você vive. Já se falou muito aqui do ser e do fazer. E é este ser que vai dinamizar a Igreja, porque o diácono deve ser totalmente dedicado ao seu ministério pela vida inteira, com a anuência da mulher, da família. É alguém que optou pela gratuidade, optou pelo serviço, optou pra ajudar. Sua vida dinamiza toda a santidade do povo de Deus.

Seria bom estender um pouco as aplicações desse amor do Cristo, generoso, capaz de perdão. Temos que perceber uma coisa muito bonita: é que na experiência do pastor o mais importante é o contato pessoal. É como você fala com a pessoa que está aí falando com você, que vem a você como a um pastor. E como você abre o coração para acolher essa pessoa? E aí é que está a grande redescoberta do ministério ordenado.

Falamos de acolhida da Igreja, receber a pessoa; no entanto, no cotidiano, o mais difícil é você ser capaz de acolher o drama, o sofrimento, a crise, o desespero, o desânimo de uma pessoa que vem a você.

É aí que está a ação do Cristo: "Vinde a mim vós todos que estais aflitos e eu vos aliviarei." Ele viu aquela multidão aflita, cansada e teve compaixão. O Cristo nunca construiu uma sinagoga, nunca fez um salão.... nada. Pelo amor de Deus, não vamos opor a operosidade do amor ao amor que gera operosidade, não é isso. Quero só dizer que o mais difícil hoje, por exemplo, na formação de um seminarista, é conseguir que ele descubra essa compaixão, que ele tenha essa compaixão. A compaixão é a capacidade de você sentir dentro o sofrimento e as alegrias do outro e de procurar ajudá-lo.

VI - Casamento e celibato

É aí, acho, que está o Ministério da Caridade; da Caridade do pastor, na missão que Deus nos confia.

Então, deixando outras aplicações, acho que essa é a espiritualidade nossa, de diáconos e sacerdotes. É pedir: "Senhor, fazei o meu coração semelhante ao Vosso. Ensinai-me a amar". Lembro-me quando ia levar a comunhão lá, no Norte da Itália, em 1959, no início de meu ministério sacerdotal. Caminhava visitando aquelas casas pobres, lá na Régia Emília, que era uma região comunista. Eu ia com uma criança, que tocava um sininho, e dizia assim: "Sacro Cuore di Jesu, fa che ti ami sempre piú".

"Menino, eu dizia, não sabe a beleza da oração que está dizendo. "Coração de Jesus, faz que eu te ame sempre mais". Acho que é aí que está a oração do pastor. "Faz que eu ame sempre mais a ti e ao próximo". Porque aí é que está o amor, a conversão pastoral.

a) Para os diáconos casados, há uma experiência conjugal. Essa é também uma peculiaridade. Será que o amor conjugal ajuda para o amor compaixão?

Sabe que ajuda muito? Sim, enquanto a pessoa vive plenamente a sua vida conjugal.

Segundo a luz que a Igreja dá, o casado está amando o outro mais do que a si. Às vezes a gente é convidado para abençoar um casamento, Então faço uma mini pregação. Digo: "José, você ama Maria? Ama? Maria, você ama José? Tá. Agora, José você vai amar Maria mais do que você, tá? E você, Maria, vai amar José mais do que você, está bem? Você vai ser feliz, se você fizer Maria feliz, ta? E, Maria, você vai ser feliz se fizer José mais feliz. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo".

É uma mudança de eixo da pessoa, porque o marido vai ser feliz diante de Deus se ele fizer a mulher ser feliz. E a mulher, a esposa, vai ser feliz se ela fizer que o marido seja feliz.

Lembro-me uma vez quando uma senhora dava uma aula excelente e estava vestida direitinho. O marido estava do lado. Ele só dizia assim: "Que vestido bonito que eu dei para ela!" Ele estava vendo o vestido que ele tinha dado para ela e é isto que o fazia tão feliz: como ficou bonita!

Então digo: se a gente pudesse perceber o que significa a mística conjugal, que não é só uma vida a dois... porque isso muita gente pode ter. É uma vida em que o outro se faz razão da própria alegria. Quer dizer, você vai dedicar a vida para uma pessoa ser mais feliz.

Isso, então, é uma forma de "ágape" muito pura e que, evidentemente, habilita a pessoa a fazer depois uma experiência parecida no pastoreio. Não é o único caminho. Uma pessoa pode chegar também a esse amor sem passar pela vida conjugal. É o caso, por exemplo, do sacerdote. Mas a vida conjugal vivida como sacramento é, realmente, um aprendizado constante da gratuidade do amor.

A complementação afetiva, o carinho, o afeto, a capacidade de correção mútua, tudo isso vai ajudando a pessoa a fazer a descoberta desse amor de compaixão. E às vezes, a sensibilidade da mulher corrige muitos defeitos que o homem carrega: uma certa dureza, rispidez, a imprudência, a intolerância. Vejam: a vida conjugal em si já é um grande aprendizado da gratuidade, da generosidade. Pode ser também, no decorrer da vida diaconal, um acompanhamento constante do crescimento dessa compaixão e até mesmo uma partilha a dois dessa compaixão. Ele pode dizer: -olha eu encontrei "esse caso", o que você acha? Há uma família tão necessitada... Aquele homem estava tão angustiado... O que a gente pode fazer por aquela criança abandonada?

Parece que o amor conjugal vai se tornar uma espécie de ambiente aonde cresce o amor da compaixão. É partilha dessa gratuidade do amor que faz a pessoa ser mais capaz de desenvolver, também, a sua vida ministerial. É um caminho.

b) Outro caminho é o caminho sacerdotal e episcopal, no celibato. Nasce da contemplação do Cristo. A imitação direta do Cristo que deve fazer acontecer na pessoa a semelhança de um amor que só essa pessoa pode ter, porque o amor conjugal tem uma gratuidade de retorno. A pessoa casada sabe que amando gratuitamente vai ser amada gratuitamente.

O amor do celibato não tem a gratuidade do retorno. Ele tem a gratuidade sem retorno. Ele ama a fundo perdido. Ninguém devolve esse amor. E, por isso, ele tem uma experiência diferente, mas que é, então, capaz de fazê-lo compreender os outros que não podem se casar, os que não têm vida conjugal.

Por exemplo, o padre compreende muito mais o sofrimento de um casal separado. Compreende muito mais a situação de um homossexual, um travesti, uma pessoa que não tem saída conjugal, um preso, porque não tem a vida familiar e conjugal. Então, ele pode por amor assumir essa configuração.

É claro que são formas de amor gratuito e que têm sentido na história da Igreja. A dedicação total, a opção preferencial pelos pobres, ela é mais fácil de entender. Mas o amor preferencial pelos que não podem se casar é mais difícil de entender. E o celibato é um amor preferencial pelos que não podem se casar.

Lembro-me quando trabalhava na prisão, 5 anos na Itália. Eu tinha 29 anos. Entrei numa cela e o homem me disse assim: "Você tem mulher?" Disse: "Não". "Como é que você se vira?"

E eu fiquei pensando. Ele me deu uma luz. Estou me lembrando agora. Foi em 1957, que ouvi esta frase. Nunca esqueci. Aí eu disse: "Eu posso entender a condição desse homem. Eu posso entender porque também eu não tenho vida conjugal"

c) Então, são formas complementares de viver o amor da compaixão. Seja o amor da compaixão pela compaixão exercitada no amor de retorno, que é a vida conjugal, familiar; seja o amor de compaixão a fundo perdido, sem retorno, mas em que você se solidariza com aqueles que não têm e que são muito numerosos, mais do que a gente pensa.

Toca o telefone, 11:00h da noite: "Luciano, você está bem". "Estou" - colega, de Colégio meu, há mais de 40 anos. Ele disse: "Olha, minha mulher me deixou, depois de todo esse tempo. Eu estou com a alma partida. Vou lhe fazer só uma pergunta. Você guarda o Celibato? Se você guarda eu vou tentar guardar o meu agora também. Você me responde. Você guarda?"

Difícil a gente responder assim, não é? Faz pensar...

Então, vejo que o Celibato tem uma função pastoral. Tem uma função de imitação da solicitude pelos que "não têm" e é uma forma, às vezes, difícil de viver o pastoreio. Mas tem uma dimensão de comunhão muito forte na compaixão. Quem sofre entende quem sofre. Quem não tem, entende quem não tem. E quem tem deve se aprimorar para, de um modo diferente, dar a quem não tem, acompanhar quem não tem. Então vejam, como se abrem perspectivas dentro da vivência da compaixão.

Qual é a característica do diácono na imitação do Cristo? O Cristo que celebra está mais ligado ao padre que celebra. Qual é a figura de Cristo mais próxima ao diácono?

Lava-pés é de todos nós, porque é uma dimensão até cristã.

Creio que é o Bom Samaritano. Sabem por que? Porque ele faz visível a dimensão do amor gratuito. A diaconia é a expressão desse amor gratuito na solicitude pelo caído, pelos mais pobres, pelos excluídos. Então, o Bom Pastor se faz o Bom Samaritano. O Bom Samaritano é uma expressão do amor e da solicitude do Pastor que leva até para casa o caído para cuidar dele.

Muitos são os tipos de comparação. Mas, sem dúvida, esse nos ajuda muito, porque é esse momento da dedicação total ao outro que está caído que mostra que a pessoa se configurou a Cristo.

É preciso aprender como ter essa vivência para estender a mão ao caído. E penso que tudo isso nos habilita a entrar no tema que é a família.

VII - Diaconado e família

Vejam, não é que esse tema exija muita explicação, porque todos aqui conhecem bem, vivem essa realidade, seja pessoal, seja nos ambientes onde a gente está. Mas é, talvez, bom lembrar alguns aspectos: Em primeiro lugar: a família é ponto chave de pregação da Igreja, porque é vontade de Deus que nós nasçamos de pai e mãe e tenhamos um ambiente de acolhida, sejamos amamentados, acalentados, envolvidos de amor.

Tudo isso nós entendemos e faz compreender a grandeza da família no Plano de Deus, que não só é essa grandeza natural, mas é também, à luz da revelação, toda a capacidade de amor, de compreensão, de dedicação que os pais têm quando têm fé, quando vivem o sacrifício, quando têm a vontade de se dedicar mais ainda aos filhos.

Por outro lado

, perceber que entre os ministérios da Igreja, a recuperação do diaconato, de homens com vida conjugal e familiar é um enorme benefício para a Igreja.

Por que? Porque, justamente, o diácono, quando tem a vivência do casamento, mostra que há aí uma condição de santificação, que vai dinamizar, potenciar, aperfeiçoar toda a vida conjugal.

Todos os casais cristãos são chamados à santidade e a potenciar a vida familiar na sociedade. Mas o diácono com sua esposa acrescentam um exemplo de dedicação conjugal e familiar ao ministério. Sabemos que ninguém pode se ordenar diácono se a esposa não quer e se a família não quer. Então há uma aceitação familiar. E uma aceitação realmente, conjugal. O diácono casado aceita o diaconado quando conversa com a sua esposa. Tendo os filhos, ele conversa com os seus filhos.

Lembro-me em todas as ocasiões em que tive que conversar com alguém que ia ser diácono, falava com a esposa, com os filhos: "Como é que você vê esta vocação? O que você acha? Você acha que vai ser bom para a sua família? Isso vai ajudar vocês na vida conjugal? Vocês querem assumir em comum essa realidade?". Porque ninguém mais é sozinho depois do casamento. Então, é toda uma realidade familiar que vai se modificar, à luz dessa doação ministerial. Muda um pouco a vivência do casal e da família. Não é uma profissão, uma ação externa, mas é um novo modo de amar, que vai se tornando também dos outros da família.

Quando alguém é médico e casado: mulher de médico tem que ser "santa", porque ele sai a qualquer hora, volta a qualquer hora, e quando volta, volta cansado. Tem que ser santa! Tem que entender isso! Não pode dizer: "Ah; mas nós vamos ver hoje um filme. Você não vai?". Não é que eu não queira. Não posso. Você sabe, sou médico. Você se casou com médico". "Ah, é verdade, me casei com médico".

Então você se casou com diácono, ou melhor, vocês estavam casados, quando chegou o diaconado. Quer dizer, então, têm que ter um pouquinho de paciência. Às vezes um pouquinho de compreensão. Não há competição; o que há, às vezes, é um ajustamento de situações. É um caminho. Nada disso é matemático. E preciso saber fazer os outros partilhar, porque se alguém sai de casa de manhã, volta de noite e ninguém sabe o que aconteceu, então como é que vão partilhar? É necessário saber dividir um pouco com o outro, passar os próprios critérios, mostrar em que esse amor, compaixão vai se realizando, qual é o sentido do trabalho. Educar as pessoas. Aí, então entra todo um caminho, o caminho da oração em família. Mas a oração não pode ser só do diácono. Se possível, rezar com a esposa, com os filhos. É o momento oracional em que as pessoas se colocam de novo diante do projeto de Deus. Acho que isso fortalece aquele vínculo familiar, conjugal, frente ao diaconato.

É claro que deve haver em todo cristão o chamado à doação. Mas este chamado é especial para um casal que recebe o diaconado, ele e ela também, porque aceitaram a missão, no sentido mais profundo da comunhão conjugal. Isso será para o casal um auxílio novo de santificação. Não há dúvida que Deus vai dar graças especiais, sobretudo, de ternura, de carinho. Porque o amor de Deus é terno, é carinhoso, é um amor sensível.

Às vezes, a vida desgasta muito as pessoas, e o exercício da compaixão vai fazendo a pessoa descobrir dentro de casa novas dimensões de conversa com os filhos, de paciência, de atendimentos aos necessitados. Há uma espécie de "retorno" sobre a vida familiar do exercício desse amor que é o mais belo de todo o Plano de Deus, que é o amor de doação, de gratuidade.

E aí, então, vejam, temos alguns elementos. O diácono casado e, portanto, o casal, justamente por esse amor de compaixão, aplicado à vida familiar, adquire uma sensibilidade maior para a criança abandonada, para o casal em crise. O amor conjugal e de família vai dando uma capacidade maior de compreensão para muitas situações.

Se todo o casal cristão tem que ter essa abertura para ajudar o próximo, um casal que cresce na compaixão do ministério, faz-se mais solícito, mais atuante, mais intuitivo dessas situações e vai encontrando soluções, aconselhamentos, uma palavra, um sorriso. Vai havendo um aperfeiçoamento para com essas situações de outros. Vai ficando também mais disponível o casal para ouvir um casal em dificuldade.

Às vezes, pode haver deveres simultâneos entre a família e o ministério diaconal. É então necessária uma compreensão das diversas realidades que vão surgindo na vida. A compreensão progressiva. Pode haver, não esse conflito, mas encontro de deveres. É a questão que eu dizia do médico. Não, o médico não gostaria de sair de casa de noite. Mas, se é chamado, todo mundo tem que compreender e ajudar.

Lembro-me de meu pai. Era tipógrafo. Trabalhava de madrugada, no Correio da Manhã, Jornal do Brasil. Quando voltava para casa a minha mãe estava acordada, na cadeira de balanço, esperando por ele, às duas da manhã. E a grande riqueza para nós filhos era poder esperar até aquela hora para dar um beijo no pai e depois ir dormir. Ficava fazendo deveres de escola até às duas da manhã.

Então vejam, temos que ter uma acomodação às situações para valorizar em tudo os valores da vida conjugal, familiar e diaconal. É essa aprimoração da convivência e da capacidade de partilhar a própria espiritualidade. Não basta partilhar o tempo, mas partilhar as descobertas da Palavra de Deus, das respostas ao ministério, do cansaço.

Como é bonito que a pessoa depois de um dia de cansaço possa voltar para casa, ouvir da esposa e dos filhos: "Como foi? Você foi bem? Está cansado? Descansa um pouco".

Percebo que há momentos também de intimidade conjugal, assim como há momentos de devotamento ministerial: um passeio, umas férias, um dia de retiro conjugal, porque tem que haver certas compensações, por causa das novas ocupações e responsabilidades.

Acho que isso todos entendem. Ajuda muito atender e servir outros casais, também de diáconos. Interessante! A amizade entre casais de diáconos é muito bonita, e podem se ajudar mutuamente na nova vivência. Cria-se uma amizade maior com uma série de valores em comum.

VIII - Diáconos e Sacerdotes

Há um outro aspecto: é uma abertura que podemos desenvolver muito: o entrosamento de diáconos e padres, diáconos e bispos. Já se falou aqui. Mas eu quisera dizer que é preciso: há diáconos, como os que estão aqui, que têm conhecimento da vida, do valor do dinheiro suado do salário, das dificuldades de vida conjugal: uma filhinha doente, problemas de trabalho, de habitação. Toda essa experiência do cotidiano do homem casado com família, de quem curtiu a dureza da vida, vai complementar outras experiências. Assim, vai beneficiar, por exemplo, a vivência de quem viveu os anos de formação no seminário, foi ordenado com 28 anos após ter os estudos pagos, sem ter curtido outras graves dificuldades da vida.

Às vezes, não houve aquela curtição do sofrimento, aquele amadurecimento na vida. Somar e complementar as experiências de vida faz bem tanto aos sacerdotes mais jovens como aos diáconos casados.

É preciso ter paciência e também sabedoria para formar um clero muito unido, embora, às vezes, falte em alguns o amadurecimento na vida. Geralmente, os diáconos são mais amadurecidos na dureza do cotidiano e os nossos sacerdotes são zelosos, são bons, mas às vezes não curtiram todas as dificuldades, por exemplo, de uma correção fraterna conjugal, de uma convivência na superação de dramas familiares, na educação de um filho portador de deficiência ou dependente de drogas.

Lembro-me de um dos nossos diáconos cujo filho foi para a droga. Era árduo o drama de ter um filho na droga e ele sendo diácono... E a oração, e a mãe, todo o mundo ajudando... O padre não tem essa experiência tão concreta. Tem outras diferentes.

Vejam, então, a convivência tem níveis muito belos de espiritualidade e níveis muito concretos de fraternidade.

IX - Pão e Espírito

Nessa questão do ministério da caridade, quero lembrar aqui o apelo que hoje nos chega da Igreja, com o "Mutirão Nacional para Superação da Miséria e da Fome", e do Governo, com o programa "Fome Zero". Da parte da Igreja é uma nova dimensão social que está dentro da vida do diácono, como nós temos ouvido aqui.

A dimensão social é um elemento de visibilidade do ministério ordenado que é, preferencialmente, do diácono. Podemos dizer que agora é a hora e a vez de nós brasileiros aceitarmos essa inspiração de Deus, que era de Dom Helder: "erradicar a miséria até o ano 2000" e criar a superação desse escândalo que é um Brasil católico, cristão, com a maior desigualdade social. Será que nós vamos ser técnicos da Reforma Agrária? Ou de Cooperativas? Ou da aplicação do projeto de Segurança Alimentar? Vamos ser técnicos, ou vamos ser aqueles que dão o "espírito"? É claro que as duas coisas se complementam. Mas creio que o típico nosso, nessa ação de atender a fome e a miséria, é mudar a mentalidade das pessoas. É a conversão. A conversão é tipicamente própria do ministério ordenado. Temos que mostrar que uma sociedade de acumulação de bens, de consumismo, de egoísmo, de desperdício não é o Reino de Deus.

Não basta você distribuir o que você tem, como Zaqueu. Deu a metade, mas tinha muito. Então ninguém diz que ele ficou pobre. Mas São Francisco ficou pobre por amor.

Mas, qual é o espírito nosso? É só o de dar um pouco do que temos? Aqui se trata de mudança de mentalidade. E a mudança de mentalidade só nós podemos oferecer, à luz do Evangelho.

Quando falei isso para os representantes do Governo perguntaram: "O que quer dizer com isso?". "Queria dizer o seguinte: que se a gente não mudar o sistema de vida, daqui a pouco vamos ter um "novo" capitalismo, digamos assim, um bem estar material egoísta que não é acompanhado de uma vivência fraterna".

Somos responsáveis de passar, por meio dessas ações, um espírito novo, que é o espírito do Evangelho, de uma vida mais simples, mais sóbria, mais solidária, mais feliz do que uma vida de acumulação de bens, uma vida de aparência, uma vida de "status". Como seria importante aproveitarmos para "evangelizar". Agora entendemos que a dimensão social é própria do diácono, porque ela é evangelizadora. E é evangelizadora porque leva à conversão de mentalidade para os valores do Reino de Deus.

Se você ama, não basta dar pão. É mais do que isso! Se você ama, você tem que fazer a sociedade ser fraterna. E fazer que as pessoas se abram umas às outras, com alegria. Lembremos o começo das comunidades primitivas da Igreja, tão bonito e tão difícil.

Então, a missão do diácono não é somente a proclamação da Palavra, na liturgia, mas é a proclamação de valores na ação social.

É preciso perceber que o que nós temos a dar é o espírito evangélico, que é justamente uma sociedade solidária e fraterna em que as pessoas pensam mais umas nas outras e se estimam e respeitam.

Recordamos o documento da CNBB: "Exigências evangélicas e éticas de superação da miséria e da fome".

Telefonou ontem um articulista do "O Estado de São Paulo". "Ah, como vai esse "mutirão" da Igreja. Parece que não vai bem". Digo: "Olha, é impressão sua. Que não apareça, pode ser. Mas nós estamos trabalhando na mudança de mentalidade". Disse ele: "Que mentalidade?". Fiquei meia hora ao telefone com ele. No fim ele disse assim: "O Senhor desculpe, eu fui meio agressivo no começo. Mas acho que compreendi um pouco melhor agora".

O Documento fala da compaixão. Não adianta matar a fome se você não tiver compaixão... Temos que educar as pessoas para uma vivência fraterna.

O próprio nosso não é tanto a organização externa que, permanece um grande serviço. Mas é muito mais o espírito que deve orientar. Isso o Governo não pode dar. O Governo é para as grandes políticas sociais públicas. Nós temos que promover o "affiattamento", aquele "aconchego de pessoa a pessoa", aquela acolhida, aquelas visitas, aquela capacidade de convivência fraterna entre as pessoas.

Dou um exemplo deste amor compaixão. Em São Paulo, minha casa era perto da FEBEM. Às vezes, ia lá de madrugada, via aquela garotada toda dormindo no chão, aquele abafamento. Depois de um certo tempo o garoto saía e voltava para a FEBEM. A estatística era essa: de dez que saem, nove voltam para a FEBEM. Então inventou-se um sistema novo: Cada garoto recebeu um casal para acompanhá-lo. É a tal da "liberdade assistida". Depois disso, de 1.000 atendimentos, 850 não voltaram mais para a FEBEM. Porque tiveram o afeto de um casal. Não que o recebessem em casa. Mas davam compreensão, orientação, auxílio pessoal. Era algo familiar.

Então, a ação nossa tem que ser uma ação que vai à pessoa, ao sofrimento da pessoa. Por isso, alguns não entendem porque que a Igreja em poucos meses não fez todo o mundo comer. Ela gostaria, mas o trabalho de conversão é lento. Está procurando fazer com que todo o mundo seja capaz de ver no outro o seu irmão e de, conseqüentemente, fazer por ele tudo o que possa fazer.

No livrinho de Dom Décio Pereira há exemplos muito bonitos, que vale a pena ler. Conta que quatro casais foram lá falar com ele que tinham feito uma revisão da vida. Colocado à parte um dinheiro de que não precisavam e ofereciam aquele dinheiro para alguma obra social. E se ofereciam a eles mesmos, dizendo: "Ah, nós já temos o suficiente e vamos optar para mudar o nosso nível de vida. Não é preciso mais tanta coisa".

Se os diáconos realmente puderem, na sua pregação existencial, no seu testemunho de vida e na organização de toda essa enorme ação social, passar esse espírito, quer dizer, tirar o "vírus" da acumulação dos bens materiais, isso vai ser muito bom para a Igreja e o começo de uma nova sociedade. O trabalho do diácono tem um campo enorme. Porque ele está em contato direto com as iniciativas e vai inspirando o espírito evangélico de desapego e de partilha fraterna por amor.

X - Conclusão

Encerrando, talvez pudéssemos fazer um breve elenco de alguns aspectos que podem permanecer na nossa lembrança.

1) O primeiro que me parece central é que o Ministério da caridade é fruto da caridade do Cristo, e que o modelo, o incentivo, a fornalha, é o Cristo. E ele, com amor de gratuidade, esse amor de perdão, essa doação da vida, é que vai inspirar a todos nós. E, por isso, atrair cada um à santidade. Mas dentro dessa Igreja, nós temos a missão de sermos solícitos do bem dos irmãos.

Praticamente, devemos ser capazes de expressar hoje a Pessoa e o Coração do Cristo, e ajudar os cristãos para que tenham condições de ser sal, luz e fermento na sociedade.

2) Sabemos que o diaconato permanente está ligado, sim, a uma certa operosidade, mas tem que ser, como dizia hoje tão bem o nosso querido Dom Diógenes: tem que ser "concha". Quer dizer, tem que realmente estar bem provido com essas águas vivas. E elas depois transformam, transbordam e dessedentam e fecundam a vida dos irmãos e irmãs.

Por outro lado, creio que na Igreja de hoje o diácono, especialmente, poderia ser uma espécie de "antena parabólica", para captar as necessidades, porque eles estão mais em contato. Ou, então, uma espécie, assim, de "radar" que perscruta tudo. Ou se quiser, ser uma "torre de sentinela", sentinela do bispo, para ver onde está pegando fogo, onde está faltando alguma coisa. O bispo não sobe lá na antena. Quem vai subir para ver é quem está todo o dia aí na luta da vida.

Então, uma diocese vai progredir na medida em que pudermos contar com esses servidores que, justamente pela vida conjugal, pela vida familiar, pelo cotidiano da luta, vão captar muitos sinais dos tempos e trazer para dentro da comunidade estes desafios e animá-los com o espírito evangélico. Serão sentinelas do amor, realmente.

3) Podemos também aproveitar a deixa do "Mutirão Nacional" para uma ação diaconal muito visível e para passar aos outros o espírito profundo de conversão que está dentro dessa convocação.

Isso exige vida de oração e discernimento conjugal e familiar para utilizar melhor o tempo e as energias. Uma espécie assim de equilíbrio constante de deveres e de responsabilidades.

E, terminando, queria contar para vocês um fato: Nós estávamos em Mariana, MG, passando por chuvas e inundações, quando toca o telefone e eu disse: "Quem é?". "O Senhor pode falar com o Presidente Lula?". "Eu pensei: "Será que é verdade? Como é?" Mas disse: "Claro!" E ele diz: "Oh! Dom Luciano, como vai o pessoal aí de Mariana? Há muita água nas casas, não é? O que é que nós podemos fazer por esse pessoal sofrido que está aí?"

Pensei: Telefonou para saber como ia o povo. Isso é "compaixão".

Aí ele disse: "Estou falando com o Ministro para ver o que pode mandar de dinheiro aí. Vamos ver o que podemos fazer". Aí comecei a me comover. Pensei: "Nós estamos aí nessa água toda e ele está se preocupando com isso". Disse então: "Eu queria agradecer a deferência, seu interesse". Ele disse: "Sei o que é isso. Porque quando eu estava em Santo André, havia muita chuva, a gente tinha que correr, levantar geladeira, levantar fogão, ajudar os companheiros. Eu sei o que é".

É preciso nunca perder a compaixão. Mesmo que você se sente na cadeira vermelha de Presidente, não pode perder a compaixão.

Há poucos dias tive uma audiência com o Presidente, fazendo companhia a um senhor italiano que veio convidá-lo para falar aos jovens na Itália. Aproveitei para agradecer o que ele fez. Ele pegou uma cadernetinha daquele senhor e escreveu um pensamento: "Felicidade, ou se divide, ou se perde".

"Feliz, sozinho ninguém é". Isso é um modo cristão de viver. "Felicidade, ou se divide, ou se perde". É verdade. Se você não reparte, você fica egoísta. Ficando egoísta, você fica triste e o amor morre.

Eu não vou dizer que por causa disso o Presidente é santo. Não estou dizendo isto. Estou dizendo que ele deve ser; e nós também.

São coisas que fazem entender um pouco, na raiz, o que é essa tal compaixão. Isso é uma coisa muito importante. E Jesus era assim. Jesus é nosso Mestre. Ele dizia: "Há maior alegria em quem dá do que em quem recebe" (At. 20, 35).

4) O diácono tem que ser uma pessoa feliz. Não porque ele não tenha dor de cabeça, ou porque não possa passar por dificuldades. Mas, porque ele tem a "alegria evangélica" dessa vivência da caridade. E o dom do Espírito é a caridade; e um dom próprio da caridade é a alegria. De modo que o Ministério diaconal pode tornar a Igreja repleta de uma alegria: alegria da acolhida, alegria da compaixão, alegria do serviço, alegria da ajuda. E nós estamos precisando tanto dessa alegria diaconal.

Que Deus lhes dê essa grande graça de serem na Igreja não só sentinela do bispo e da comunidade, ou o radar que fica na escuta, mas que sejam também aquelas pessoas que enchem a comunidade do Espírito de Deus, que é um espírito de serviço e de doação que deixa a todos nós muito felizes, como fruto dessa compaixão ministerial.