download do arquivo no formato pdf
Pe. Alfredo J. Gonçalves
Setor Pastoral Social da CNBB
Bom dia a todos e a todas. É com alegria que aceitei este convite. Estes dias para mim, ontem e hoje, estão sendo uma escola. Escola do serviço, do compromisso, graças a Deus, graças a vocês. Eu quero dizer, de início, que é preciso não confundir os Alfredinhos. Existem dois: o Alfredinho Santo e o Alfredinho pecador. O Alfredinho Santo já morreu, e está com Deus. E eu estou por aqui.
Tenho que dizer também que, quando me deram esse tema, eu pensei um pouco. Foi o Duran y Duran, Duran ao quadrado. E eu disse a ele que era complicado falar para tantos diáconos, era desafiador, era com temor e tremor que encarava isso. Mas eu aceitei, confiando no Espírito Santo que age no meio de nós.
Pensei, de início, escolher entre dois caminhos: um caminho técnico, tentando perceber o que é exclusão social e como enfrentar a exclusão social pela caridade; e um caminho, digamos, mais de caráter místico, tentando perceber os desafios do mundo dos excluídos que batem à nossa porta. E eu optei por esse segundo caminho, optei pelo caminho místico, num tom de espiritualidade, que leva a perceber como os excluídos batem à nossa porta. Se vocês quiserem um título, chamaria isso de caridade mística ou, sei lá, alguma coisa como Mística e caridade solidária, como a gente quiser. Ou seja, é mais o coração do que a cabeça que eu tentaria colocar aqui.
Em termos metodológicos, vou falar de maneira muito livre a partir de alguns símbolos. Com isso, talvez possamos acompanhar e gravar melhor alguns elementos de nosso serviço evangélico e, ao mesmo tempo, de nossa espiritualidade. Alerto que não sou teólogo nem exegeta, mas farei uso da Bíblia de um ponto de vista, digamos, místico e pastoral. Dito isto, pretendo falar de sementes, plantas, árvores; de caminho, de poço, de casa e de mesa. Será nessa direção que a gente vai conversar um pouco com vocês.
Comecemos falando de sementes, de plantas e de árvores. Qual é a sabedoria da árvore? A árvore têm duas coisas importantes: primeiro, antes de crescer para cima ela cresce para baixo, antes de buscar o sol ela busca a terra. A árvore, para se manter firme contra os ventos, tem que ter tantas raízes como galhos. É uma sabedoria que ela passa para nós. Ela está enraizada no chão. Se quiser buscar o sol, a vida, o oxigênio, ela tem que afundar suas raízes na terra. Qual é a segunda lição da árvore? Em tempos de crise, ela se alimenta da raiz, daquilo que ela acumulou na raiz No sertão paraibano, onde eu trabalhei um pouco, em tempos de crise a árvore vai se alimentar daquilo que ela acumulou na sua raiz.
Eu estou falando de árvore para dizer o quê? Para dizer que todos nós que estamos nesse recinto, hoje, somos frutos de uma semente, somos pequenas plantas, pequenas árvores, frutos de uma semente. A semente é o chamado. Todos nós fomos chamados a uma missão, e como seres chamados, somos vocacionados. Vocação que é, ao mesmo tempo, dom e escolha, dom e opção. Mas se nós olharmos nossa trajetória pessoal, se cada um e cada uma que está aqui olhar sua trajetória pessoal, vai perceber o quê? Vai perceber que há crises, que há dificuldades profundas em nossa trajetória. Todos nós já temos idade suficiente para termos passado por momentos difíceis, todos nós já temos idade suficiente para sabermos que, às vezes, o desespero bate à porta. São situações limites, situações difíceis, de fracasso, de doença, de desemprego, de amor, situações onde a gente percebe que não tem forças, situações onde a gente diz: "olha, Deus, até aqui eu vim; daqui para a frente me carregue, que eu não posso mais".
Quem de nós já não passou por isso? Quem de nós já não passou por isso? Eu tenho visto, ultimamente, muitas crises, muitos companheiros, sacerdotes, muitos companheiros agentes de pastoral, muita gente que trabalha nas pastorais sociais - campo em que eu trabalho - em crise. Gente com dificuldades tremendas, especialmente diante do fracasso, da impotência, especialmente diante do gigante maior que está aí, que chamam de neoliberalismo. Aliás, tem um monte de nomes esse gigante, uma série de "ismos". Eu tenho visto muita gente se arrebentar no chão, sem saber para onde vai. E aí é que vem a sabedoria da árvore: em tempos de crise, a gente vai na raiz.
Quem é que, em nossa trajetória de vida pessoal, sustentou cada um de nós quando o desespero bateu à porta? Quem é que sustentou cada um nós quando a gente se sentiu em crise? Quem foi que nos sustentou? Com certeza não foi o salário. A gente ganha mais dor de cabeça que salário nessa nossa Santa Madre Igreja. Com certeza não foi também a riqueza, com certeza não foi o sucesso. O que foi que bateu à nossa porta quando a crise passou por perto? Foi essa voz sem palavras, essa voz sem palavras que nos chamam a cada momento. Essa voz sem palavras que diz: vamos embora, vamos para a frente que tem mais coisas para fazer, vamos embora! E essa voz vem do chão e vem do alto. Ou se a gente quiser, vem do chão e vem do íntimo. A árvore tem raízes, tem folhas e tem frutos. A mesma coisa essa voz: vem do clamor dos excluídos e vem do chamado do Pai. É isso que, nos momentos de crise, nos mantém de pé.
É isso que impulsiona o profeta. O profeta é aquele que sintoniza o clamor dos excluídos, o clamor dos pobres, com o apelo de Deus. É essa voz que bate à nossa porta nos momentos de desespero e diz: vamos adiante! Estou pensando, por exemplo, em Natanael. Natanael, no Evangelho de João, primeiro capítulo. Ele vem se aproximando de Jesus. Jesus o avista de longe e diz: "ali vem um homem sincero"!. E Natanael deve ter se assustado. Mas como, Tu me conheces? "Eu te vi debaixo da figueira, Natanael" - diz Jesus. Que significaria a figueira para Natanael? Será que não era o seu esconderijo para os momentos da crise? O lugar onde podia fugir de tudo e de todos. Lugar de xingar, de chorar, de se arrebentar e dizer: "Meu Deus, me socorre que eu não posso mais"!
Quem de nós não tem seus momentos de figueira? Quem de nós não tem sua figueira simbólica? Nesses momentos de figueira, iremos constatar que Deus estava lá. Se a gente olhar a trajetória de nossa vida, nos momentos de figueira, em que a gente não sabe mais o que fazer, e chora, e cai, e tenta se levantar, e se desespera... Deus estava lá! Essa voz sem palavras que diz "vamos adiante"! Apesar da impotência, apesar do fracasso, apesar do salário, apesar de tudo, vamos adiante! Essa voz que nos chama, e que é sempre dupla. Vem do apelo de Deus e vem do clamor dos pobres. Na figueira, a gente sente o quê? A gente sente a impotência.
A figueira é o lugar da nudez. Lugar de olhar as nossas limitações e aprender a desconfiar de nossas forças. E aprender a confiar em outras forças. Aprender a confiar nos companheiros e nas companheiras e aprender a confiar em Deus. A figueira é o lugar aonde a gente se depara com a nossa força e ao mesmo tempo com nossa fraqueza. Dirá São Paulo: é na fraqueza que me sinto forte! Porque é nesse momento que o Espírito de Deus pode agir, quando a gente está aberto à sua presença. Momentos de figueira são momentos onde a gente se abre à presença e ação do Espírito. E então diz: vamos tentar caminhar!
A figueira é o lugar da crise. A Igreja passa por momentos de crise, o mundo inteiro passa por momentos de crise, e cada um de nós vive e sente esses momentos na própria carne. Eu conheço muitos colegas arrebentados no corpo e no espírito por momentos de crise. E nesses momentos, a voz sem palavras se repete. Essa voz dupla que vêm dos excluídos e que vem de Deus. A semente da vocação vai ganhando força a partir desses momentos de provação. E eu me lembro aqui de duas passagens do Evangelho: Lc, 11, 1- 4 e Mt 9, 35-38. Em Lucas, Jesus está na montanha. Em Mateus, Jesus está nas ruas. No primeiro caso, Ele está rezando; no segundo, como diz o texto, Ele "percorria aldeias e praças" da cidade. Essa é a dinâmica de montanha e de rua, de oração e ação, de fé e vida, de religião e compromisso social. A montanha leva Jesus à rua, a rua leva Jesus à montanha. O rosto do Pai se manifesta na montanha e Jesus desce dela com o resplendor de seus traços transparentes para o meio dos pobres. E Jesus sobe à montanha com o rosto desfigurado dos pobres para se encontrar com o Pai.
Montanha e rua jamais se separam na trajetória de Jesus. Montanha e rua se enriquecem, se complementam mutuamente. Montanha e rua são duas faces da mesma moeda. Quanto mais Jesus se aprofunda na intimidade com o Pai mais desenvolve o compromisso com os pobres, com os excluídos. Não são duas coisas separadas, não há dicotomia entre ação e ação. Montanha e rua estão sempre nessa dinâmica da atividade de Jesus. A rua exige a montanha e a montanha exige à rua.
Vejamos o caso de Móises. Ele vai à montanha para encontrar com Deus porque o coração está ardendo. Não é a sarça que arde, mas o coração, entre o temor do Faraó e o clamor dos pobres, do seu povo. Móises sobe à montanha para perguntar a Deus: o quê que eu faço? Estou dividido! E qual é a resposta? Tira o meu povo do Egito. A Montanha conduz à rua. A verdadeira oração conduz ao Egito, ao compromisso, à rua.
A mesma coisa ocorre com o profeta Jonas no ventre da baleia. Jonas é um fujão, como todos nós, foge daqui, foge dali, vai fugindo até que entra no ventre da baleia. Entrar no ventre de um peixe é uma imagem recorrente na literatura antiga. É como não querer ter nascido, voltar ao ventre materno. É a tentativa de anular-se diante de tanta dificuldade. Ora, Jonas é reconduzido justamente à cidade de Nínive, de onde tinha fugido. A oração profunda de Jonas no ventre da baleia o conduz a Nínive.
Podemos lembrar, ainda, o episódio da transfiguração. Jesus toma três amigos íntimos - João, Pedro e Tiago, sobre à montanha e transfigura-se. "Vamos fazer três tendas e ficar por aqui" - diz Pedro! Não, não - adverte Jesus - temos de descer! Montanha sem rua é uma manipulação de Deus. Rua sem montanha pode ser uma busca de interesses pessoais. Voltando à metáfora da árvore, ela nos ensina isso. Afundar as raízes na terra para poder dar frutos. Em nosso caso é preciso sentir o clamor dos excluídos para que possamos buscar o rosto do Pai, buscar o sol, buscar a vida e, em momentos de crise, é aí que a gente vai se alimentar. Creio que hoje um dos grandes desafios da Igreja é buscar esse alimento que está na raiz. Alguém nos chamou desde o nascimento e pelo sacramento do batismo. O chamado continua vivo. Esse chamado que tem dupla face, Deus e os pobres nos chamam à ação.
Um segundo símbolo que eu queria tomar é o caminho. Os caminhos que nós percorremos. Os caminhos que os excluídos percorrem. Nesse segundo símbolo, eu queria abrir quatro pequenas janelas, para identificar como está hoje a realidade dos excluídos. Não vou fazer aqui um tratado sociológico sobre exclusão social. Sobre isso, vocês encontrarão boas análises disponíveis. Atualmente há muita literatura a respeito do tema e todos podemos ter acesso a ela.
Feita esta ressalva, olhemos o rosto dos excluídos através de quatro janelas. De início, vamos abrir a janela da rua, vamos olhar as ruas e vamos ver o imenso desfile dos "sem". Dos sem teto, dos sem emprego, dos sem terra, dos sem casa, dos sem comida... O imenso desfile dos "sem" que as ruas nos mostram. O planeta terra hoje, em suas estradas, em seus caminhos, está coberto de gente "sem". De gente que se identifica pelo não. Pelo não ter. Não ter vida. Não ter carinho. Não ter ninguém do seu lado. Não ter morada. Não ter emprego. Uma enorme multidão dos "sem". O desfile, a procissão dos "sem". Ah! se de vez em quando a gente desse uma olhadinha para fora das janelas da igreja e percebesse o caminhar silencioso e dolorido dessa enorme multidão dos "sem"! Ah, se a gente pudesse fazer isso com certa freqüência, quanta coisa mudaria!
Outra janela que a gente poderia abrir é a janela da mídia. Vamos abrir jornais, revistas, televisão, rádio e vamos prestar atenção nas mensagens da mídia. Vamos ver o que dizem os meios de comunicação social. Qual é a palavra chave da mídia hoje? A palavra chave é crise!. Crise na economia, crise na política, crise na sociedade, crise não sei aonde... Crises, crises, e mais crises! Quem é que mais sofre com essas crises? Quem são as principais vítimas? Quem é que carrega essas crises sobre os ombros? Quem são aqueles que passam por nós curvados, como diz o Evangelho, curvados sobre o peso da profunda crise que estamos atravessando? E quanta gente hoje curvada e abatida sobre o peso dessa crise! Na mídia, a crise tem a cara de números, estatísticas, porcentagens, de dólar que sobe, de bolsa que desce, de risco-país... É a cara da linguagem técnica, economicista.
Mas no nosso dia-a-dia, a crise tem nome e tem rosto. Às vezes é um filho de nossa própria casa, às vezes é um vizinho, às vezes é a esposa, outras vezes o esposo. Crises que levam à droga, ao desespero, à prostituição precoce. A cara da crise é a nossa cara. É a cara do povo brasileiro. Cara bem conhecida. É muito fácil e cômodo olhar os excluídos em termos de números e estatísticas, estamos cansados disso. Mas os resultados dela são rostos desfigurados que batem à porta.
Passemos agora à janela de nossas comunidades. Vamos tentar olhar a realidade a partir de nossas comunidades, dos agentes de pastoral, dos diáconos, dos padres, dos bispos, da caminhada do povo. Ou seja, vamos olhar esse mundo a partir de nós mesmos. E então, o que se constata? Do ponto de vista de nossas ações pastorais, veremos que a exclusão tem cara de impotência. Nossa enorme impotência de romper os círculos já conhecidos e chegar até os lixões, até os presídios, até os becos e ruas, até os prostíbulos... Nossa enorme dificuldade e fracasso, enquanto Igreja, de ultrapassar nossos círculos fechados e chegar até os lugares onde a vida é mais ameaçada, até os "infernos humanos".
Vou contar uma coisa para vocês: Jesus conheceu o rosto do Pai, descendo aos infernos do sofrimento humano. O verdadeiro rosto de Deus, só será conhecido se tivermos coragem de descer aos infernos do sofrimento humano. Quantas vezes ficamos presos ao âmbito eclesial e não percebemos que lá fora os gritos do chão continuam. Não nos damos conta que uma multidão anônima e excluída grita pelos botecos, pelos prostíbulos, pelos lixões... Não ouvimos mais esse grito, ficamos surdos ao clamor dos pobres. Seduzidos por nossas próprias canções, narcisistas!
Vamos abrir a última janela, a janela dos analistas.. Que dizem os eles? Os analistas falam em neoliberalismo, em terceirização, em flexibilização, em globalização, em financeirização do capital... esses nomes pomposos que estamos acostumados a ver, que estão na moda! Os analistas - sociólogos, economistas, cientistas políticos, filósofos - vão falar nesses termos. Vão dizer, entre outras coisas, que a partir dos anos setenta a crise se agrava, se torna estrutural. Seguem-se duas décadas perdidas, os anos oitenta e noventa. Por conta disso, os estudiosos vão concluir que, neste momento, agrava-se cada vez mais a situação de uma enorme fatia da população da mundial. Fatia que tem números diversos e às vezes divergentes, dependendo dos índices adotados, mas números sempre contados aos milhões.
No Brasil, por exemplo, às vezes são cinqüenta milhões, outras vezes são vinte e dois... depende do que se entende por nível de pobreza ou nível de miséria. Esses detalhes técnicos pouco importam para o nosso propósito. O que realmente importa é que os indicadores sociais, econômicos e políticos, atualmente, apontam para um agravamento crescente da situação de exclusão, seja no mundo inteiro seja no Brasil. Agravamento que é mais forte ainda se levarmos em consideração o clima de guerra lançado no mundo. Claro que a guerra aumenta o número de refugiados, de migrantes, de gente que perambula pelos caminhos de todo planeta. A conclusão é que nos dias atuais, segundo os analistas, constatamos uma enorme quantidade de gente perambulando pelas estradas do mundo. Gente que está no caminho. Gente que está a caminho. Do ponto de vista sócio-econômico e político, quando falamos de excluído, falamos especialmente daqueles que encontram-se fora do mercado de trabalho, que não têm uma participação política ativa, que estão à margem dos benefícios sociais... Excluídos de uma série de avanços da modernidade, digamos assim, de níveis de conforto material que a sociedade oferece.
Do ponto de vista moral, falamos daqueles que não têm acesso a uma razoável qualidade de vida, excluídos do carinho, da família, do amor... Pensemos, por exemplo, nos idosos das famílias ricas, que às vezes têm tudo, mas não têm vida. A qualidade de vida está ameaçada. Estive na França alguns anos atrás e vi uma coisa muito estranha, muito estranha mesmo. Vi determinada família, que preparava um passeio à Grécia, arrumar um lugar no carro para colocar o cachorrinho de estimação, e, ao mesmo tempo, solicitar uma vaga no asilo para internar o pai idoso. A família queria divertir-se à vontade, não podia carregar aquele peso incômodo! Em termos éticos, a crise e a exclusão tem essa característica: falta de qualidade de vida, de convivência humana, de laços fraternais.
Do ponto de vista cultural, a exclusão tem outra cara. Aqui é o outro, o estranho, o diferente, que é visto como alguém que está do lado de fora. Pode ser o negro, o que não pensa igual a nós, que não se veste da mesma forma, que não faz o que fazemos. Esse é o excluído. No mundo inteiro, aumenta cada vez mais a discriminação, o preconceito, a xenofobia, o racismo... Enfim, a exclusão de caráter cultural. A sociedade ergue muros, constrói barreiras. Juntamente com o avanço da globalização, vimos assistindo a um crescimento da migração. Com ela, cresce igualmente o medo do outro. Caiu o muro de Berlim, mas outros se levantam. Obstáculos, leis e sistemas de segurança cada vez mais sofisticados separam povos e culturas distintos, especialmente entre o Primeiro e o Terceiro mundos.
Do ponto de vista de gênero, vivemos numa sociedade marcadamente patriarcal, marcadamente machista, onde a exclusão pesa com mais força sobre as companheiras mulheres. Aqui deveriam falar as próprias mulheres e não eu. A respeito disso, quem sabe as mulheres dos diáconos teriam não algo a dizer a seus companheiros!...
Nesses caminhos da exclusão, se a gente olhar o Evangelho, o que vemos? Em Mt, 9,35-38, como já vimos acima, o evangelista diz que Jesus percorria. Notem bem a palavra utilizada: percorria! Essa palavra poderia proporcionar três dias de retiro, se a gente quisesse. Jesus percorria praias, aldeias, ruas e praças, montanhas, casas... Jesus percorria! Estou cansado de ver agentes pastorais, diáconos, padres, companheiros meus, e eu também, é claro, até bispos, que vivem brigando por detalhes insignificantes relativos ao altar, às cores litúrgicas, à disposição dos objetos no templo. Às vezes, brigas homéricas, intermináveis, que acabam em desavença, divisões e ressentimentos. E não se briga mais pelo pobre que está lá fora, pelo excluído! Isso não significa que a liturgia não seja importante. Nada é mais bonito que uma celebração bem preparada, solene, rica, cheia de luzes, cores e sons. Isso é muito bonito, como a gente viu hoje de manhã, e tem que ser preservado. Mas não podemos esquecer que, para além da liturgia, para além do templo, tem gente sofrendo.
Quantas vezes as pessoas se escandalizam porque os "paninhos" do altar não estão bem colocados, se escandalizar porque as flores não estão no lugar devido, se escandalizam por uma série de coisas de importância relativa. E não mais se escandalizam pelo desemprego, pela falta de moradia, pela falta de condições reais de vida. Essa situação do povo parece que deixou de nos escandalizar. É isso que eu gostaria de enfatizar: que a gente não perdesse a indignação e o escândalo diante de um sistema que condena milhões à exclusão social! Que a gente mantivesse, sim, a riqueza da liturgia, a riqueza de nossos altares - tudo isso é importante - mas que junto com isso, a gente mantivesse também nossas antenas ligadas àqueles que, fora da igreja, pelos botecos, lixões, ruas e becos, clamam por justiça! Ah, se fossemos capazes de brigar pelos direitos dos pobres com a mesma energia com que disputamos espaço na Igreja!
Jesus percorria, repitamos, Jesus percorria! De vez em quando temos que deixar a sacristia, a igreja, e entrar na casa dos pobres, percorrer as favelas, as pontas de rua, a periferia. Façam a experiência, e de repente vocês toparam com uma criança. Então ela apontará para vocês e gritará: "Mainha, o homem da igreja está aí"! Ou então, "Mainha, a mulher da igreja está aí". E a mãe poderá dizer: "Chama para dentro, vamos tomar um cafezinho". Nos não nos damos mais conta da importância que terá a visita para aquela família. O homem da igreja, a mulher da igreja entrar na sua casa... Não percebemos mais o que isso pode simbolizar. O significado que tem para uma família o fato de receber o representante de Deus. Quer queiramos quer não, com nossas limitações e fraquezas, somos diante do povo representantes de Deus. E Deus saberá o que fazer com nossa disponibilidade.
A realidade de muitas casas e de muitas famílias, de muita gente, é um verdadeiro inferno. Inferno de desemprego, de doença, de desavenças... O que significa um representante de Deus chegar até esse inferno? É isso que a gente muitas vezes não se dá mais conta. "Ah, mas o que vou dizer na casa de fulano ou sicrano" - talvez vocês estejam pensando. Ora, aí é que está o problema! Nós achamos que sempre temos alguma coisa a dizer. Temos medo de chegar de mãos vazias, de chegar desarmados!
Escutar! Escutar! Escutar - esse deveria ser o verdadeiro lema das visitas. Vou contar um caso. Desculpem se me refiro a um fato pessoal. Eu estava visitando o povo no agreste da Paraíba, num lugar chamado Itatuba, na zona rural. Dali saiam os migrantes que iam para São Paulo ou destinavam-se à zona da mata de Pernambuco, para o corte de cana. Era o local de origem da migração. Eu costumava visitar os trabalhadores tanto na origem quanto no destino, particularmente nos alojamentos de canavieiros. Ora, eu tinha me colocado como tarefa, aquele dia, visitar todas as casas do povoado que se chamava Tabocas.
Entrei na casa de D. Joana, acho que era esse o nome da mulher. Casebre pobre, paredes de barro, telhado de palha, quase nada em seu interior. Dali a pouco começou a chover, e eu demonstrava sinais de impaciência, pois ainda restavam várias casas para percorrer. O ambiente tornou-se pequeno para meu ímpeto de seguir adiante. Então a mulher, percebendo meu nervosismo, disse: "Se aperreie não, seu padre, sente aí e converse com a chuva".
Aquilo foi um soco na minha cara, na minha pressa e na minha impaciência. Acho que vou demorar noventa e nove anos para aprender a conversar com a chuva, noventa e nove anos! Como é que um padre, representante de Deus, não conseguia entender que a chuva, na vida de dona Joana, era a coisa melhor que podia acontecer no agreste da Paraíba? Que padre era esse que não entende esse sinal dos céus? "Converse com a chuva" era o mesmo que dizer: converse com a cultura, com a força, com a resistência, com a sabedoria desse povo pobre e excluído! Chuva naquela região é benção de Deus! E dona Joana iria dizer, no decorrer da visita: "Olhe, padre, quando Deus trabalha a gente descansa"! Ou seja, quando Deus trabalha, a gente contempla, maravilhado!
De vez em quando, temos que nos largar, deixar de ser dominados pela estrutura eclesial e lançar-se nos caminhos que o povo percorre! Experimentem, tirem um sábado, um domingo e se lancem! Visitar os doentes, visitar os pobres, entrar nos botecos, tomar uma cachacinha, não vai fazer mal nenhum, uma cachacinha só não faz mal a ninguém! Lançar-se ao caminho! E deixar que os ouvidos escutem o que sofre o povo, que o coração sinta o pulsar da dor e da esperança, possa bater ao ritmo em que bate o coração dos pobres. Certamente isso que renovaria nossa Santa Madre Igreja!
Vale insistir: Jesus percorria! Essa expressão merece ser refletida, digerida. Já ouvi muita gente dizer: "As portas da igreja estão abertas, não entra quem não quer?" Não, não é bem assim! Para muitos, falta um chinelinho novo, falta um sapatinho novo, falta uma roupinha decente para entrar na casa de Deus. O ser humano, seja quem for, tem um pouco de dignidade na cara. E não quer entrar na igreja sendo objeto de escárnio de todo o mundo. Qual a conclusão? Quando as portas da igreja, embora escancaradas, não conseguem mais ser um convite para os excluídos entrarem, então nós, bispos, padres, diáconos, agentes e lideranças, nós que somos representantes dessa Igreja, temos que nos tornar convites vivos, andando pelas ruas, lixões, assentamentos... Jesus percorria! Quando formos verdadeiramente convites vivos, o povo poderá sentir-se igreja. Quando a igreja tiver coragem de entrar em sua casa, o pobre ver-se-á como igreja. Quando a igreja se sentir povo, o povo se sentirá igreja.
Eu queria agora passar para outro símbolo, o poço. O que é o poço? É o lugar de encontro. O que tem no poço? No poço tem água. Quem caminha sente sede, quem caminha vai ao poço. Quem caminha precisa do encontro. E aqui nós podíamos combinar três trechos do Evangelho que são muito pertinentes. Um é de João, capítulo quatro, a narração do encontro de Jesus com a Samaritana à beira do poço. O outro é de Lucas, capítulo oito, o caso da mulher que sofria de fluxo de sangue e apela para Jesus. O terceiro é novamente de Lucas, capítulo sete, em que Jesus é convidado à mesa na casa de Simão e se depara com Maria Madalena. Que nos dizem esses três episódios evangélicos? Em todos temos o encontro de Jesus com alguém que, na sociedade de então, é considerada três vezes excluída: por ser mulher, por estar doente, por ser pecadora ou "mulher da vida". Jesus se encontra com o excluído.
É preciso dizer, antes de seguir adiante, que no tempo de Jesus, havia um círculo de ferro que se fechava impiedosamente sobre o povo. Palavras como doença, pecado e pobreza, ou ainda mulher, criança e estrangeiro, eram praticamente sinônimos. Sinônimos de exclusão social. É doente porque é pobre. É pobre porque é doente. É doente e pobre porque é pecador ou estrangeiro. Tudo isso era parte de um preconceito que envolvia os indefesos. Era um círculo vicioso da exclusão social.
Jesus vai romper tudo isso. Rompe com a discriminação e diz, por exemplo: "Mulher, me dá de beber"? Ah, se nós conseguíssemos entrar na profundidade dessa frase! Mulher me dá de beber? Mulher eu preciso de ti! Ah, se a igreja conseguisse hoje perceber a própria sede. Sabem qual é o nosso problema? Muitas vezes nós. da igreja, achamos que só temos água. A sede está do lado de fora. Nós temos água e o excluído tem sede. Ora, ninguém é só água e ninguém é só sede. Ninguém é água o tempo todo e ninguém é sede o tempo todo. Todos nós somos uma mistura de água e sede. Quando tomamos consciência disso, então teremos coragem de dizer para o outro/a: "Dá-me de beber"! Como a gente cresce, quando admite a própria sede, a própria carência, a própria necessidade!
Tentemos imaginar um Deus, diante de uma prostituta, dizendo: "Mulher, dá-me de beber"! Ah, como essa atitude faz crescer! O que isso revela em profundidade? João é o evangelista dos símbolos. No episódio por ele narrado, damo-nos conta de duas águas e duas sedes. Aquele tem água, pede água. Aquela que vai buscar água, sente sede. Sede de uma água diferente. João parece divertir-se com a simbologia da água e da sede. Trabalha muito essa dialética das duas sedes e das duas águas. E o que ele deixa transparecer? Que o poço é o lugar onde a água e a sede se misturam e se complementam. O poço é o lugar da abertura e do encontro. Aliás, o que é que Jesus vai fazer na sua missão? Abrir poços. Os quatro evangelhos constituem a narração desses encontros, a partir da abertura de poços. Jesus vai abrindo poços, e notem bem, poços muitas vezes proibidos, como estes que estamos comentando. Proibidos pelas conveniências sociais, proibidos pela lei, proibidos pelos muros da exclusão social.
Jesus desconhece tudo isso, rompe com esses obstáculos e abre poços. E diz: "Mulher, dá-me de beber"! E dirá em outras ocasiões: "Tua fé te salvou". Outras vezes, ainda, se espantará com a fé que encontra entre os pobres. Vemos aqui, claramente, um Jesus aberto às riquezas que os excluídos revelam, à sua resistência, à sua força oculta aos cegos, à sua fé. A tua fé te salvou! Creio que hoje, para romper esse círculo entre quem está dentro e quem está fora, a atitude de Jesus é fundamental. Muda completamente o conceito de evangelização. Ou seja, a evangelização não tem direção única. Quantas vezes ouvimos dizer: "Nós somos portadores da Boa Nova, nós vamos levar o evangelho". Evangelho não se leva, evangelho se vive. A evangelização é uma via de duas mãos, é sempre um processo de mão dupla. A gente evangeliza e se deixa evangelizar. Como diria Paulo Freire, no campo da educação libertadora, "ninguém liberta ninguém, ninguém liberta sozinho, a gente se liberta juntos". Isto é, a gente se evangeliza juntos.
Essa metodologia perpassa todo o evangelho. Jesus vai abrindo poços. Mais do que semear, mais do que levar "verdades", tirar "verdades" do bolso e distribuir - o que é que faz Jesus? Vai reconhecendo a água viva que ele encontra no íntimo de cada pessoa, no coração de cada ser humano. Aliás, o Concílio Vaticano II já nos alertava que no coração de cada pessoa e no coração de cada cultura, existem sementes do verbo. No evangelho, vemos Jesus recolhendo essas sementes escondidas e trazê-las à luz do dia. E vai se fazendo testemunho vivo dessa água até então desconhecida. Exagerando, poderíamos até dizer que Jesus se deixa evangelizar, particularmente pelas mulheres, pelos pequenos, pelos pobres. E se deslumbra porque é a eles que o Pai revela os sinais do Reino. Tua fé te salvou! Dá-me de beber!
Nosso problema maior, como evangelizadores, é que muitas vezes nos sentimos cheios de água. E achamos que lá fora só tem sede. E lá vamos nós, com a melhor das intenções, levar a água para quem tem sede. Sejamos sinceros: quando estamos em casa meio sem saber o que fazer, meio acabrunhados, com um imenso tédio na alma - e decidimos sair, visitar o povo, quem é que na verdade acaba sendo evangelizado? Quantas vezes eu saí de casa chateado, cansado, fui visitar um doente, uma liderança, e voltei com o coração cheio, alegre e muito mais entusiasmado. Por quê? Porque o povo tem sementes de vida nova, de alegria e de esperança. Sofre na favela, sofre no lixão, sofre atrás da sobrevivência, sofre o desemprego, mas é capaz de pegar uma viola ou um pandeiro e cantar, e dançar, e sambar. A alegria, a resistência e a força que o povo nos transmite, que os excluídos nos transmitem é algo a ser ainda estudado.
O carnaval é um símbolo disso, apesar de sua comercialização. Um povo que padece há séculos, empobrecido, mas não esquece o canto e a dança. E afirma constantemente: estamos alegres, existimos, queremos viver! A prática de Jesus tem muito disso. Caminha pelas ruas, mistura-se com os pescadores, conhece a vida do campo, participa de festas... Em uma palavra, acompanha o pulsar da vida. Às vezes me pergunto, nos tempos atuais, por onde passa o sangue da vida? Será que passa por nossas catedrais, por nossas paróquias e comunidades? Ou está muito mais na festa popular, nas feiras, nos bares? Onde está o sangue da vida hoje? A Boa-Nova do evangelho ocorre no sangue onde a vida pulsa. O poço, o encontro, é esse ponto de convergência. Mas é preciso estar aberto ao encontro. Quando partimos com o pressuposto de que temos água e o outro tem sede, o diálogo se fecha completamente. É preciso saber que em cada pessoa e em cada cultura há valores, há sementes que nos evangelizam, ao mesmo tempo que evangelizamos.
Como já foi enfatizado, estou falando aqui de uma nova metodologia de evangelização. Como lembra João Paulo II, evangelizar com um novo ardor e novos métodos. Uma vez mais, neste processo de evangelização, é necessário romper o círculo fechado onde a gente muitas vezes se encontra. Ao invés de gastar energia brigando por espaço e por microfone, é preciso pôr-se a caminho e, no caminho, abrir poços. Quantas disputas seriam evitadas no interior de nossas paróquias e comunidades e nas demais instâncias da Igreja!
Enquanto isso, lá fora existe um povo que vive e quer viver, sofre e chora, trabalha e luta, carrega dores e esperanças... E nós, às vezes, nem tomamos conhecimento, pois estamos inteiramente voltados para o interior da própria Igreja. É como se fossem duas órbitas distintas que se desconhecem reciprocamente. Costumo dizer que, não raro, o povo está em AM e a igreja está em FM. E ambos os lados escutam melodia diferentes, em direções paralelas, sem possibilidade de encontro. Por quê isso? Por causa desse círculo fechado em que muitos de nós vivemos.
Notem, por exemplo, o encontro de Jesus em Lucas, capítulo oito. O episódio da mulher que padecia de hemorragia há vários anos. "Alguém me tocou"! - dirá Jesus. E que dizem os discípulos que o acompanhavam: "Não, imagina, todo mundo está se tocando, há uma grande multidão e grande confusão". "Não" - insiste Jesus - "Alguém me tocou"! Ou seja, alguém me tocou de uma forma mais desesperada, alguém que está mais necessitado que todos estes que me acotovelam. Revela-se aqui toda a sensibilidade de Jesus para com aqueles e aquelas que estão fora do círculo que o segue. Jesus não se deixa manipular pelo grupo mais reservado. E com certeza, os mais íntimos reclamarão: "Mas tu és nosso, que quer essa intrusa, deixa-a ir embora". Também o cego, em outro episódio, dizia: "Jesus, filho de Davi, tem de piedade de mim"! E os apóstolos, amigos de Jesus , o repeliam: "Não, cale a boca, deixa o Mestre passar"! Como se Jesus pudesse ser propriedade reservada. "Ele é nosso, o Filho de Deus é nosso"!
Mas Jesus não se deixa prender no círculo fechado dos seus. A caravana de Jesus nunca atropela quem sofre. É bom repetir: a caravana de Jesus nunca atropela quem sofre! Jesus está atento às dores. Especialmente às dores que vêm de fora. A atitude dos apóstolos é outra. Não, ninguém Te tocou, está tudo bem, vamos adiante! Transportando para os nossos dias, a comunidade está bem, estamos celebrando bem, estamos cantando bonito, dentro da igreja, tudo está em ordem - por que preocupar-se com quem não é dos nossos, com que está lá fora!?...
Observemos agora a atitude da mulher. Ela nem fala, não tem palavras. Sua voz é o toque. Ela já perdeu a fala. Sobrou-lhe apenas o toque. Aliás, o toque é a comunicação de quem muito ama ou muito sofre. O toque é a linguagem da mãe, a linguagem dos namorados, a linguagem dos esposos. Por quê? Porque quem amou e sofreu sabe que as feridas do corpo, do coração e da alma, só serão curadas com o toque. O toque do carinho e do amor. A mãe sabe disso, a dor ensina disso. Jesus também o sabe. Impressiona notar quantas vezes Jesus toca e se deixa tocar. "Alguém me tocou"! Eu tenho visto padres, e eu também, é claro, com um medo oculto do toque. Por exemplo, chega a mãe e diz: "Padre, dá uma benção nesta criança, ela está perrengue, muito doentinha, a sua benção pode curá-la"! E aí o padre, olhando de cima para baixo: "A senhora já consultou o médico?" Oh, meu Deus, que custa botar a mão na cabecinha daquela criança e fazer o sinal da cruz. Se você não acredita, deixa que o Espírito Santo possa agir através de suas mãos. Se você não acredita, a mãe acredita. Eis aí o toque! Alguém me tocou! A importância de nos deixarmos tocar por aquele que está fora, que está desesperado.
Como e onde se dá o encontro da igreja com o excluído? No poço. Através da coragem de abrir poços. Abrí-los onde ninguém mais o faria. Quem é que hoje vai visitar a favela, o lixão, o alojamentos de trabalhadores, a assentamento de sem terra? Quem é que vai? O sindicato? Os partidos? Muito difícil! Cabe a nós, membros da igreja de Jesus Cristo, abrir esses poços difíceis e muitas vezes proibidos. E então, ter a coragem de dizer: "Ensinem-nos a evangelizar", ou "dêem-nos de beber". Ah, essa atitude de Jesus em revelar a sua sede, se nós pudéssemos hoje, enquanto igreja, desnudar nossa sede diante dos excluídos! Como teríamos a aprender e a ensinar! Como o processo evangelizador ganharia outra dinâmica, outro vigor! O problema é que temos a mania de partir da cátedra e do púlpito, como alguém que tudo sabe. A auto-suficiência nos cega. Rompemos completamente o diálogo.
A Casa
Queria agora refletir sobre o símbolo da casa. Como pano de fundo dessa reflexão, faço referência à primeira carta de Pedro. Não sei se vocês já tiveram familiaridade com essa carta do apóstolo Pedro. Podemos afirmar que ela é a carta da casa. Pedro escreve sua carta aos cristãos dispersos, migrantes que se encontram fora da própria terra, nas regiões da Ásia Menor. A mensagem é dirigida às comunidades da Ásia Menor. Ali os forasteiros sofrem por serem estrangeiros e por serem cristãos, por serem pobres. Em outras palavras, sofrem por uma série de circunstâncias que resultam em exclusão social.
Pedro escreve sua carta para esses grupos dispersos, os quais, por sê-lo, também acabam sendo perseguidos. O apóstolo tenta levar-lhes o conforto da palavra evangélica. O que Pedro vai dizer, fundamentalmente? A união entre vós deve ser a vossa casa. A esse respeito, vale a pena conhecer um estudo publicado pelas edições Paulinas - Um lar para quem não tem casa - que é baseado na carta de Pedro. Não custa repetir a lição de fundo da carta: o amor e a convivência entre vocês, é a casa de vocês, em grego, oikos.
Aqui podemos brincar um pouco com a simbologia da palavra casa. Casa é roupa, roupa de um grupo que se ama. Casa é a roupa da família. Um grupo que se ama, sem casa, é como um corpo nu, exposto em praça pública, que perde todo os segredos. Um grupo que se ama tem segredos, tem intimidades, coisa que vocês conhecem muito bem. Um casal que se ama, um grupo que se ama, uma família que se ama tem sua intimidade sagrada e inviolável. Se não tem casa, essa intimidade fica escancarada ao público. Um grupo sem casa é um corpo sem roupa, cuja intimidade é violada pelos olhares dos curiosos. É um grupo que não tem como garantir sua dignidade. A casa é a referência, é a dignidade, é a base sólida da convivência mais íntima.
Tomem nas mãos o Livro dos Salmos. Vocês encontrarão inúmeras alusões ao símbolo da casa. Apenas um exemplo: "Minha alegria é habitar na casa de Javé"! O que significa isso? É um anseio de um povo a caminho. É um anseio de um povo que nunca experimentou, fundamentalmente, viver numa casa. A casa, nos Salmos, a casa de Javé vem sempre acompanhada de coisas referências sólidas. Casa é rochedo, é pedra, é abrigo, é fortaleza! Essa é linguagem dos Salmos. Casa é referência, lugar onde os pés encontram firmeza, onde recuperamos as forças! Ora, Pedro vai lembrar que o amor é a casa. É a casa de Deus e a casa de quem não tem lar, pátria, lugar.
Impõe-se aqui uma pergunta: nossas comunidades e paróquias, hoje, são casas para os excluídos? São referências para os pobres? Pedro queria que as comunidades cristãs fossem uma casa, oikos, para aqueles que estavam dispersos e perseguidos. Cabe repetir a pergunta: nossas paróquias e comunidades, e até nossas pastorais sociais, conseguem ser casa, referência, fortaleza, lugar de encontro e abrigo para quem está do lado de fora?
Podemos falar de casa em dois sentidos. Primeiro, o sentido de união entre nós? Por exemplo, se eu fizesse uma pergunta a queima roupa para vocês, se eu fizesse uma pergunta a queima roupa para os diáconos de uma diocese ou de uma paróquia, ou de qualquer circunscrição... isto é, vocês se gostam, vocês se amam? Se eu fizesse uma pergunta para os casais aqui presentes... vocês se gostam, vocês se amam? Se eu fizesse uma pergunta para a família, para os membros de uma família... vocês se gostam, vocês se amam? A pergunta pode ser dirigida aos religiosos, aos padres... a gente se gosta, a gente se ama?
O que é gostar-se? Gostar-se não é ser dominado pela paixão, paixão é outra coisa. Paixão é aquela coisa bonita e impetuosa que se converte em amor, em casamento, tudo isso que vocês tão bem sabem, isso é a paixão. Em contrapartida, gostar-se é uma tarefa, sim, é uma tarefa! Gostar-se é aprender a conviver com o outro/a, mesmo que tenhamos diferenças. Gostar-se é saber que o ser humano está acima do que ele pensa, do que ele produz, do que ele veste; está acima da cor da sua pele, de seu sexo e de suas posses; está acima de tudo. Isso é gostar-se: um aprendizado que dura noventa e nove anos. Gostar-se não tem geração espontânea, é uma experiência que exige renúncias e muito diálogo. É um exercício de conviver com as pessoas que vivem do nosso lado, que pensam de forma diferente. Vocês casais, diáconos e esposas, sabem muito melhor do que eu o que significa isso. O que quer dizer quinze, vinte, trinta anos, para aprender a conviver. Depois que a paixão passa, só o carinho pode sustentar a união. Gostar é o carinho. Gostar-se é essencialmente carinho.
Vocês imaginam o que significa estar numa luta ou num trabalho, sabendo que tem alguém em casa torcendo e rezando para que tudo dê certo. Imaginem como esse trabalho será realizado como muito mais entusiasmo! E vice-versa, imaginem o que significa estar na mesma luta ou trabalho, sabendo que tem alguém em casa torcendo pelo insucesso. Vocês querem um termômetro que revela se a gente gosta ou não? É muito simples. Entre companheiros ou companheiras de trabalho ou de pastoral, quando um alcança sucesso, lá no fundo como é que a gente se sente? E ao contrário, quando um companheiro sofre um fracasso, o que nosso coração experimenta? Choramos com ele ou dizemos: "Bem feito"! Isso é uma forma de descobrir nossa simpatia ou antipatia com aqueles que convivem e trabalham ao nosso lado, de descobrir se de fato nos gostamos.
Eu vou dizer uma coisa para vocês: isso é o maior sinal de evangelização. É a gente se gostar, padre com diácono, padre com povo, padre com bispo, bispo com diácono, com irmã, e assim por diante. O maior sinal de evangelização é a gente se gostar. Não tenhamos dúvidas. Eu não tenho nenhuma ilusão desse monte de besteiras que estou dizendo aqui para vocês. Eu já aprendi a desconfiar das minhas besteiras, eu já aprendi a desconfiar dos meus discursos, já aprendi a desconfiar das palestras e das palavras. Ou a gente se gosta, ou não há evangelização alguma. O povo percebe de longe quando o padre não se dá bem com padre, quando o padre não se dá bem com o diácono, quando o diácono não se dá bem com o padre. O povo percebe a quilômetros de distância. E comenta: "Vocês falam tanto de união, mas vocês mesmos não vivem unidos"! Convém lembrar o testemunho das primeiras comunidades cristãs, lembram? Nos Atos dos Apóstolos não está escrito "vejam como eles falam bonito", mas "vejam como eles se amam". Não adianta dizer "vejam como o Pe. Alfredo fala bonito"! Isso é bobagem, pura ilusão! Palavras são vento. Ou a gente traduz isso no gostar-se ou estamos jogando conversa fora.
Um exemplo: onze horas da noite, chega um companheiro em casa, você o acolhe, esquenta um chazinho para ele, conversa sobre o trabalho: como é que foi o dia de hoje? Gostar-se é algo construído com coisas muito pequenas, às vezes com detalhes imperceptíveis. Mas vocês poderão me perguntar: a gente vai ficar aqui se gostando entre nós, e o povo, e os pobres? Não estamos perdendo tempo conosco mesmos? Ah, não tenha medo, não se preocupem. Se nós nos gostarmos de fato, se estabelecermos boa convivência entre nós, o maior beneficiado será o povo pobre. Como a água de um rio corre sempre para o mar, o amor sempre busca quem mais sofre, sempre busca o mais pobre. O verdadeiro amor debruça-se sobre quem está mais abandonado. Sempre, sempre, sempre! Onde a vida encontra-se mais ameaçada, ali estará o amor. Resulta que quanto mais a gente se gostar, mais os excluídos serão beneficiados.
Um casal, quando se ama, irradia amor, beleza. O amor sempre transborda. O casal que se gosta para valer transborda alegria, vida, paz, convivência sadia... vocês bem o sabem. Da mesma forma, uma comunidade que se quer bem irá transbordar. E se torna casa para os sem lugar, transforma-se em lar para os que estão do lado de fora.
Chegamos assim ao segundo sentido da casa. À medida que conseguimos ser casa para nós mesmos, convertemo-nos em casa para os pobres. Queria deixar claro o seguinte: a gente se fazer casa para que os excluídos possam encontrar uma casa. A gente se fazer casa, abrigo, lugar de encontro, lugar de carinho, lugar de reforço, para que o excluído, por sua vez, possa encontrar na comunidade uma casa. Se a comunidade não é casa, o excluído não vai encontrar nela uma referência sólida e firme.
Outra coisa importante: o combustível da casa é o perdão. O combustível do casamento é o perdão. O combustível da vida cristã é o perdão. A gente saber de nossas limitações, e saber que o outro/a também tem limitações. E saber dizer: apesar disso vamos caminhar juntos! Se não formos capazes de converter nossas paróquias, nossas comunidades e nossas pastorais em verdadeiras casas de encontro, os excluídos vão continuar sem casa. É a lição da carta de Pedro: o amor é a vossa casa, é o lugar onde vocês podem realmente se encontrar e se sentir bem. Casa é o lugar onde a gente se sente "em casa". É intimidade, é conforto, é alegria, é paz. Se a gente conseguir fazer de nossas comunidades uma casa, a gente estará evangelizando, mesmo sem palavras. Repito: esse monte de palavras que estou falando não valem nada! O que vale é a possibilidade de fazer disso uma semente, um caminho, um poço e uma casa para os pobres.
A Mesa
E vamos ao último ponto porque já estou falando demais. Trata-se do símbolo da mesa. E eu pergunto a vocês: o que a gente come na mesa? A gente come arroz, feijão, pão, frutas, e tantas outras coisas. Na Paraíba e no nordeste, a gente come jabá, jerimum, cuscuz, tapioca, macacheira, fruta-pão, etc. É isso que a gente come na mesa, mas não é só isso, nem é principalmente isso. Podem maliciar, não tem problema, mas na mesa a gente come o outro. A gente come a outra. A gente come quem está sentado à nossa frente e ao nosso lado. A gente come de sua alegria e de sua tristeza, de seu sucesso e de seu fracasso, de suas palavras, silêncios e olhares. A gente se alimenta de sua vida.
Aliás, o que dá sentido ao comer humano é a presença do outro. O verdadeiro tempero da comida, é a presença do outro. O tempero do alimento humano, é a presença de alguém que partilha a mesa. O cachorro come sozinho, o cavalo come sozinho. Mas não o ser humano! O outro é o melhor tempero da comida. Aqui podemos falar em liturgia da mesa. Querem ver como é verdade. Você chega em casa tarde da noite, todo o mundo já foi dormir, você vai esquentar a comida e vai comer sozinho. Ou então você chega num restaurante, tudo ocupado, você vai ter que se sentar com três estranhos na mesma mesa. Garanto que a comida vai descer amarga, sem sabor. Ou ainda, a família acabou de ter uma briga, entre marido e esposa, pais e filhos ou irmãos com irmãos. Depois, todos vão sentar à mesa. Que tal o sabor da comida?
Em síntese, o sabor da comida está diretamente ligado à relação que desenvolvemos com quem está à mesa. Se partilhamos a vida, a comida será saborosa. Se estamos atritados, a comida custa a descer ao estômago e a ser digerida. Ou seja, quanto mais profunda a relação que temos com os parceiros da mesa, maior tempero terá o alimento. E quanto mais pessoas sentarem à mesa, também melhor será o tempero. O sabor da comida é medido pelo grau do relacionamento. Uma comida fria ou requentada ao lado de quem amo, será um verdadeiro banquete; e ao contrário, as melhores iguarias desfrutadas ao lado de quem detesto, terão gosto ruim.
É este o sentido da festa. Por que faço uma festa, por que ofereço um churrasco, por exemplo? Porque estou com fome de carne? Não! Nada disso! Se eu tivesse fome só de carne, pegava meio quilo no açougue, assava e comia. Mas não é isso que estou buscando. É fome do outro que me leva a fazer festa. A festa é a fome de presença amiga. O que vemos na festa? Bolo enfeitado, salada enfeitada, pessoas enfeitadas. Festa é enfeite. Para quê. Para a partilha. Daí a liturgia do comer. A gente come com os olhos, come com o coração, com a boca, com as mãos; a gente come o enfeite, a gente come o desenho do bolo, a roupa festiva dos convivas. Só o comer humano tem liturgia, é a liturgia da comensalidade. Só o comer humano é sagrado. A gente come e se come. O comer humano é isso, a gente come e partilha. A comida alimenta o nosso corpo e a partilha alimenta o nosso espírito, nossa alma, nosso ser.
Em termos de espiritualidade, qual a conclusão que tiramos? Tudo isso é altar, é eucaristia. Quando Jesus senta à mesa com os apóstolos, quais suas palavras? "Tomai e comei, isto é o meu corpo". É como se dissesse: "Eu já dei a vocês minhas palavras, já dei minha vida, já dei tudo que tinha... Agora comei de mim, comei de meu corpo, alimentai-vos de mim. Eu deixo a minha carne, deixo o meu sangue, deixo o meu corpo para que vocês se alimentem, para que vocês cresçam na unidade, para que vocês possam realmente crescer na solidariedade e fraternidade.
Mas a eucaristia é também uma encruzilhada, um sinal de contradição. A mesa do altar é um ponto de chegada e um ponto de partida. Ela celebra a união, celebra o fruto do trabalho dos homens e das mulheres, celebra a festa, celebra esse comer juntos e esse comer-se. Porém, ao mesmo tempo, ela pergunta: onde estão os outros? Toda mesa pergunta: onde estão os outros? O comer humano não será uma alegria total até que a fome persistir, nem que seja numa só pessoa. Na mesa, levantar-se-á sempre a pergunta: onde estão os outros? Onde estão os que plantaram? Onde estão os que prepararam a comida? Por que não estão na mesa, por que não foram convidados? Por que na mesa do progresso humano não tem lugar para quem plantou, quem colheu, quem trabalhou? A mesa é, simultaneamente, celebração e questionamento. Cada ponto de chegada converte-se em novo ponto de partida. Celebra-se e perguntar-se: onde estão os pobres?
Por isso que, cada festa e cada celebração, como já vimos na dinâmica de montanha e rua, deveria nos levar a um novo compromisso. Ou seja, vamos em busca dos outros, vamos chamar os que estão pelas ruas abandonados! Aliás, é o que faz o anfitrião no episódio do banquete, no evangelho. Em uma palavra, vamos chamar os outros à vida. Vamos lutar para que todos tenham condições reais de vida. Vamos nos organizar para que os outros possam ter acesso à terra, à casa, à educação, ao alimento, ao lazer... enfim, que todos tenham direito à vida.
O símbolo da mesa é altar. Num e noutro, persiste a pergunta: onde estão os outros? O comer humano somente será uma festa total, o Reino de Deus somente será total, quando ninguém mais estiver fora da mesa. Quando todos puderem sentir-se convidados à mesa. Aí está o sentido profundo da festa. Então, sim, a festa será completa. Enquanto isso não acontecer, a festa virá acompanhada por esse questionamento que interpela, fere, desperta e nos desafia. Enquanto tudo não for eucaristizado - terra, riquezas, frutos do trabalho - o banquete não será completo.
A exclusão social é o espinho na carne, espinho que desafia aqueles que estão na mesa, aqueles que celebram e insistem em perguntar: onde estão os outros? Por que não foram convidados? Mesa, altar, comida, celebração - o tempero será integral quando todos tiverem sentados como irmãos ao redor do alimento e, por sua vez, tornarem-se alimento uns para os outros. O tempero da comida é tanto maior quanto mais profunda a relação entre os comensais. Querem ver como isso é verdade? Basta sentar à mesa com alguém que a gente gosta, ou com alguém que sequer se conhece. Pode ser até lanche de mortadela, dura, do dia anterior; mas se amamos a companhia, o lanche converte-se em banquete. Por que? Porque estamos nos alimentando da presença uma ou mais pessoas queridas.
E o comer humano será ainda mais profundo quando tivermos nos alimentando da presença de todos os homens e mulheres. Esse é o segredo da mesa e o símbolo da mesa. Hoje a mesa desapareceu da casa. Cada um pega seu prato e vai comer na frente da televisão. Infelizmente, parece que a mesa em muitas famílias perdeu o sentido. Mas permanece a simbologia da mesa. Repito, o tempero da comida é a presença do outro, e a comida será tanto mais saborosa quanto mais profunda a relação com o outro e quanto mais pessoas estiverem sentadas à mesa. E quando todos e todas, enfim, se encontrarem ao redor da mesa e do altar, a vida será uma festa sem fim, uma grande celebração, o banquete do Reino de Deus. Relembremos resumidamente: a vocação é semente que se torna árvore através do serviço, da diaconia; o caminho nos leva aos caminhos e nos ensina a caminhar com os pobres; na caminhada, vamos abrindo poços, provocando encontros, que nutrem de água viva nossas várias sedes; o companheirismo entre nós ergue uma casa, um lar, uma referência, para onde poderão refugiar-se as multidões "cansadas e abatidas"; por fim, na mesa e no altar, ao mesmo tempo que oferecemos a todos a oportunidade de participar do banquete, tornamo-nos também alimento uns para os outros.
Eu termino por aqui e deixo esses símbolos para nossa reflexão. Muito obrigado a todos e a todas pela oportunidade.